Introdução | As idéias: o socialismo | O pensamento revolucionário na Rússia | As causas | As três etapas da revolução de 1917 | 1918: O ano I da Revolução | A guerra civil e o comunismo de guerra | A NEP e a reconstrução nacional | Socialismo num só país | A segunda revolução | Notas | Conclusões
História da Rússia Soviética
da Revolução de 1917 ao Stalinismo
As idéias: o socialismo
O conflito entre as duas grandes super-potências atuais, normalmente é descrito pela imprensa como um conflito entre Ocidente-Oriente, entre duas "Civilizações" antagônicas que se excluem mutuamente. No entanto, esta apresentação do confronto não resiste aos fatos. O que realmente está em conflito e/ ou coexistência são dois Sistemas Econômicos, políticos e Ideológicos distintos que não dependem de serem ou não Ocidentais ou de serem ou não Orientais. Por exemplo: se houvesse uma vitória do Partido Comunista francês ou italiano - a França e a itália deixariam de ser "ocidentais"? A Revolução Cubana, feita a duzentos quilômetros do território americano pode ser definida como "oriental"? E o Japão, um dos países asiáticos que mais conserva suas tradições, pode ser definido como "ocidental"? A China de Mao-Tse-Tung pode ser definida como "oriental" e a ilha de Formosa, a poucos quilômetros do conflitante chinês, como "ocidental"?
A mistificação de um conflito entre Ocidente-Oriente não se sustenta pela própria evidência. Então como poderíamos definir o real conflito? Como um confronto entre o Capitalismo e o Socialismo nas mais variadas formas com que ambos Sistemas se apresentam. E a característica comum entre ambos é exatamente serem internacionais - isto é, defendem valores ecumênicos, que podem ser aplicados em qualquer circunstância independentemente da cultura, raça, religião ou tradição. Naturalmente que estes fatores importam, mas apenas para dar distinções de grau em que o Capitalismo ou o Socialismo tomam forma. O Socialismo por exemplo, tanto pode vingar na Alemanha luterana, como na China budista. Tanto pode vingar entre os eslavos da Europa Oriental, como entre asiáticos da Indochina. O mesmo pode ser aplicado às forma capitalistas de produção que podem conviver com a democracia anglo-americana, como com as atuais ditaduras da América Latina. O Capitalismo pode se desenvolver na Itália católica, como na Turquia Islâmica ou no Haiti do fetichismo vodu. Há pois denominadores comum, basicamente porque traduzem um conflito em escala internacional: conflito de classes e de visão de mundo.
Como nosso tema é a Revolução Russa e suas conseqüências, vamos nos ater ao movimento de idéias que a inspirou para posteriormente desenvolvermos os principais eventos.
Para alguns historiadores o Socialismo surgiu durante a Revolução Francesa, como uma de suas correntes subterrâneas, tais como o movimento de Graccus Babeuf. No entanto, ele tornou-se sólido e substancialmente, muito tempo depois com Karl Marx e de Frederico Engels, quando da publicação do Manifesto Comunista em 1848.
Estes dois pensadores alemães, terminaram por produzir uma extensíssima obra econômica e política que permitiram extraordinário embasamento teórico e prático para o Socialismo. Engels, percebendo a diferença de Marx em relação às demais correntes socialistas e anarquistas, denominou seu pensamento, como "Socialismo Científico", classificando os demais como "Socialismo Utópico", visto que não apresentavam soluções práticas para a transformação da sociedade capitalista em sociedade socialista, limitando-se a elaborar fórmulas de sociedades perfeitas (tais como os projetos de Owen e Fourier). O pensamento de Marx, ao contrário destinava-se a mudar radicalmente o destino das sociedades humanas e sua filosofia era o instrumento desta formação. Segundo ele "as filosofias até agora trataram de compreender o mundo, trata-se de modificá-lo".
Sinteticamente suas idéias podem ser assim esquematizadas:
Toda a História da Humanidade nada mais é do que um conflito permanente entre classes sociais antagônicas. Senhores e Escravos, Patrícios e Plebeus, Nobres e Burgueses e, na época contemporânea: Burgueses e Proletários. Quer dizer, as classes sociais e sua existência são condicionadas pela História e a Sociedade do futuro implica na sua abolição e na implantação da igualdade.
Esta abolição da sociedade de classe faria devido a própria crise do Sistema Capitalista. Por gerar a constante concentração da Propriedade e das Rendas nas mãos de poucos, levaria por oposição, a aumentar a miséria geral dos não-proprietários, que se rebelariam e destruiriam esta sociedade. Como o processo histórico é dialético, tudo aquilo que existe (O Capitalismo) será superado por uma forma social superior (O Socialismo) nascida no próprio ventre da sociedade anterior. O Feudalismo teria sido mais ameno que o Escravagismo; o Capitalismo uma forma superior ao Feudalismo e, por conseqüência, o Socialismo seria superior ao Capitalismo. Estas grandes transformações são feitas pelos homens organizados em classes sociais. A Burguesia depôs a Nobreza, o Proletariado deporá a Burguesia.
O Socialismo é por sua vez uma etapa intermediária, onde conviveriam formas da sociedade anterior (Capitalista) com formas da sociedade futura tingindo posteriormente a etapa final da pré-história da Humanidade - o Comunismo. Esta etapa de transição seria gerida pela "Ditadura do Proletariado"; a nova classe instalada no poder não poderia se desfazer do aparato Estatal, pois teria que enfrentar as ameaças da contra-revolução burguesa. Para Marx, o estado continua existindo (ao contrário dos anarquistas que propunham sua imediata abolição) como uma arma de defesa da Revolução.
A Revolução proletária é pois inevitável, havendo dois caminhos para concretizá-la. Um conquistando posições estratégicas dentro da sociedade capitalista através da dinamização dos sindicatos e dos partidos operários; outra, por um golpe dado por revolucionários audazes que empalmariam o poder em favor dos proletários. Estas duas tendências estiveram sempre latentes dentro dos escritos políticos de Marx e Engels, gerando a atual diferenciação entre social-democracia e comunismo.
Como conseqüência lógica do que foi exposto, Marx acreditava que a Revolução Proletária ocorreria num país onde o Capitalismo fosse suficientemente desenvolvido para gerar as condições necessárias a sua transformação. Para uma sociedade chegar ao Socialismo teria que necessariamente percorrer um longo desenvolvimento capitalista. Isto excluía a possibilidade de se chegar ao Socialismo numa sociedade atrasada onde a maioria da população é composta de camponeses e não de proletários urbanos (os exclusivos agentes de transformação da História). A implantação do Socialismo nas sociedades capitalistas não seria socialmente onerosa porque o desenvolvimento tecnológico permitiria atender a todos "segundo suas necessidades". A Humanidade livrar-se-ia pois da alienação do trabalho e das exigências de atender aos ditames do Lucro e do Capital para suprir-se a sí própria.
Somente durante os últimos anos de sua vida, passou a grangear fama e respeito, cabendo parte do mérito a Engels, responsável pela divulgação de seus escritos (0 2º e 3º volume do Capital foram publicados após a morte de Marx) e pela preservação da pureza do pensamento do amigo.
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