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História da Rússia Soviética
da Revolução de 1917 ao Stalinismo

Conclusões

A Revolução Russa de 1917 já completou mais de sessenta anos e faz um quarto de século do falecimento de Stalin - no entanto, continua a polêmica não só sobre sua validez como também sobre o caráter atual do regime sócio-político da União Soviética.

Para muitos historiadores e marxistas do ocidente, a Revolução Russa sofreu um processo de "reversão". Paulatinamente, os valores que a moldaram que deram impulso à grande transformação social e político porque o país passou em 1917, foram sendo arquivados. O peso do passado bárbaro e rude do país foi lentamente penetrando nas esferas do poder e no modo de agir e pensar dos dirigentes - transformando os revolucionários numa nova classe de opressores: numa burguesia de Estado, como classifica Charles Bettelheim. Outros, como Deutscher, E. H. Crr e mesmo Trostski, consideraram que Stalin, mesmo utilizando-se de métodos bárbaros, modernizou o país. Apesar da sua violência institucionalizada, proporcionou o elevamento cultural e técnico da União Soviética colocando-a como uma superpotência. No entanto, sua política externa, privilegiando os interesses nacionais da URSS, fez com que o movimento socialista reduzisse num apêndice do casuísmo stalinista, tornando-o inóquo e inconseqüente.

Robert Conquest os contesta. Os métodos aplicados por Stalin aviltaram definitivamente o regime. Ao criar um modus operandi que impede livre circulação das idéias, privilegiando uma casta burocrática despótica que, outorga de privilégios, não cederá aos anseios de igualitarismo vindos da massa. Herbet Marcuse observa que o simples crescimento da riqueza nacional, promovido graças a tecnologia aplicada massivamente, não implica necessariamente que esta riqueza deva ser distribuída igualitariamente. O próprio desenvolvimento tecnológico pode aumentar com maior eficiência o grau de controle e coerção sobre a população.

Mas coma definir o sistema soviético? Nos primeiros tempos da Revolução, Lenin o identificava como aproximado às formas do Capitalismo do Estado. Durante o período stalinista, foi consagrado como Socialista, partindo da premissa que todos os meios de produção encontravam-se nas mãos do Estado e, como as classes haviam desaparecido, as massas controlavam a produção. Entretanto como combinar a apropriação das massas do modo de produção com a falta de liberdade interna? Esta supressão da liberdade, é alegada devido ao permanente cerco das potências capitalistas exercido em torno da URSS. Na década dos anos trinta a Alemanha nazista e o Japão imperialista. Depois da Segunda Guerra pela ameaça do potencial atômico americano. É de se supor pois, que a partir do momento que esta ameaça diminuir, haveriam condições para chegar-se à verdadeira democracia socialista.

Num livro publicado em 1957, Karl Wittfogel identifica no regime soviético uma nova forma de "Despotismo Oriental"- que, devido as condições peculiares à Rússia, a Revolução bolchevista de fato preparou uma restauração de formas primitivas de trato político classificadas como "asiáticas", sendo Stalin uma espécie de Gengis Kan do século XX.

No XX Congresso do Partido Comunista da URSS, realizado em 1956, os horrores da época Stalin foram denunciados por Kruschev - que apontou no "culto da personalidade" um desvio da linha leninista e do marxismo. Seguiu-se um movimento moderado de desestalinização, sujeito a avanços e recuos que dependem tanto da conjuntura interna como da externa. Não deixa de ser curioso dele ter sido iniciado como membros da entourage stalinista - trazendo por isso mesmo suas limitações. Ao não permitir a sobrevivência de seus opositores, Stalin terminou por fazer com que os próprios stalinistas se encarregassem de apagar seus vetígios da história do país. Seu corpo foi removido do Mausoleu de Lenin e foi enterrado nas muralhas do Kremlin numa discreta sepultura. O mesmo processo que usou contra seus adversários políticos foi aplicado contra ele. Cidades, praças e ruas com seu nome foram rebatizadas e seus escritos foram discretamente removidos das bibliotecas e dos jornais. A nova geração soviética sentiu que o stalinismo como método de direção partidária e do Estado é anacrônico em relação às forças produtivas com que o país conta atualmente. A coerção e o terror tornaram-se improdutivos, impedindo o desenvolvimento técnico e cultural geral, assim como o afloramento da criatividade, da responsabilidade e da iniciativa pessoal.

O próprio bolchevismo sofreu um processo de "reversão". O marxismo na URSS perdeu a conotação crítica e a audácia intelectual que o caracteriza. Tornou-se um jargão oficialista, obrigado a referendar todas as medidas adotadas pela equipe dirigente De certo modo isso não é novidade nos movimentos de massas e de idéias. Algo semelhante aconteceu com o Cristianismo, onde o igualitarismo plebeu dos primeiros tempos cedeu lugar à ortodoxia convencional, conservadora e intolerante, onde os militantes corajosos do cristianismo primitivo deram lugar à hierarquia aristocrática e estilista dos bispos e da corte papal, inspirada nos moldes herdados do Baixo Império Romano.

Para o "Tribunal da História" a via soviética para o Socialismo não deixou de servir a grande escola da Humanidade. Pela tentativa e pelo erro, o povo russo pagou com seu próprio sangue, com sua própria carne, a audácia em tentar por vias próprias superar as forças cegas da li do mercado. Pagaram custosamente a tentativa de implantar uma sociedade inspirada na igualdade social, contra toda a teoria marxista convencional e as adversidades que o atraso interno e a hostilidade externa causaram. Suas terríveis falhas e acertos permitiram e ainda permitem, que as futuras sociedades inspiradas nos mesmos princípios não necessitem percorrer o mesmo caminho. Como a máquina à vapor - a primeira e imperfeita engenhoca que permitiu a humanidade ampliar sua riqueza e controle sobre a Natureza - o país que hoje tenta a via socialista não necessita iniciar sua industrialização pelo engenho do dr. Watt nem estruturar-se politicamente com os métodos de Stalin.



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