BUSCA + enter






O início do terror

reprodução
Saint-Just, o parceiro de Robespierre
As execuções entrementes prosseguiam. As guerras, interna e externa, radicalizavam ainda mais as posições. A dois de junho de 1793, atendendo ao dito de Robespierre para quem "Piedade era traição!", os jacobinos prenderam 29 parlamentares girondinos, acusando-os de contra-revolucionários, os guilhotinando-os em seguida. Não demorou para que os próprios jacobinos se desentendessem. Georges Danton, um ex-jacobino com posições "indulgentes", perdia espaço para o radicalismo de Maximilien Robespierre e Saint-Just, o "anjo da morte" da revolução. No dia dez de outubro o jovem Saint-Just (tinha apenas 27 anos) colou o "terror na ordem do dia!", exigindo que a Convenção aprovasse o decreto que lhe desse imediata vigência. A sombra do terror começava a se projetar sobre a convulsionada França. Conforme conseguiam superar seus adversários contra-revolucionários (confinando os chouans da Vendéia, prendendo ou neutralizando os monarquistas e afastando o perigo da intervenção militar estrangeira), as principais personalidades políticas revolucionárias começaram a entrar em conflito. O que fazer a seguir com a revolução? Que destino lhe dar?

A máquina da morte

reprodução
A máquina democrática
Um dos símbolos mais perduráveis da Revolução de 1789, além do formidável apelo a favor da igualdade entre os homens, foi contraditoriamente uma máquina de matar - a guilhotina. Até os estertores do Antigo Regime, os carrascos, eram autorizados a executarem os sentenciados pelas formas as mais diversas. Cada um morria de acordo com os critérios de nascimento e posição social. Os nobres por exemplo jamais podiam ser enforcados enquanto que os plebeus nunca mereciam ser submetidos ao cutelo do machado. Em vista dessa diversidade, inaceitável numa sociedade que se pretendia igualitária, o doutor Joseph Ignace Guillotin, um respeitável cientista e médico da saúde pública, além de emérito introdutor das vacinas, recomendou à Assembléia Nacional, em outubro de 1789, que se construísse um aparelho para aplicar as sentenças de maneira equânime. Tendo-se abolido a forca, a espada e a roda, bem como as torturas, todos deviam ser executados da mesma maneira. Aprovado o parecer, o mecanismo foi engendrado por um cirurgião, o doutor Louis que contou com os recursos técnicos de um mecânico alemão, um fabricante de harpas chamado Schmitt.

O ritual dos condenados

Com a aprovação e aplicação da Lei dos Suspeitos, ato desesperado de um grupo de revolucionários que se sentia acossado de todos os lados, as prisões lotaram. Um denuncismo, resultado da paranóia coletiva, tomou conta do povo. Nada melhor para evitar suspeitas sobre si do que dirigir-se até um comitê revolucionário da quadra ou do bairro e apontar um vizinho como possível contra-revolucionário. Imediatamente era ativada a milícia local para que detivessem o suspeito. Conduziam-no então a um dos diversos locais de triagem espalhados pela cidade. Se de alguma forma confirmavam a delação, a vítima era encarcerada na força ou na temida corciergerie, a antecâmara da guilhotina. Dependendo da sua periculosidade para o regime, era imediatamente enviado para um tribunal revolucionário. Se realmente tratava-se de alguém importante talvez o próprio inquisidor-mor da revolução, Fouquier-Tinvelle, o julgasse. Ele era o mais extremado e dedicado alimentador do cadafalso, amigo da implacável lâmina que desabava dos altos para colher mais uma vida humana. Mais tarde, com a queda dos jacobinos, ele também julgado disse: J 'avais des ordres, j 'ai obéi, "eu tinha ordens, eu obedecia".

reprodução
A Corciergerie, a ante-sala da morte
Sentenciado à morte, o réu era então removido para o local do suplício. Colocavam-no numa carreta puxada por bois para que a cerimônia da sua morte se tornasse uma longa agonia pela ruas de Paris. A única melodia que o acompanhava o tempo inteiro provinha do monótono ranger das rodas e dos impropérios que era obrigado a escutar ao desfilar em céu aberto. Na praça o esperavam-no os apupos da multidão. Os guardas o removiam da carroça diretamente para as escadas. Lá o entregavam ao experiente verdugo. Este verificava se haviam-lhe feito a tonsura para deixar livre o pescoço para que a eficácia do cutelo se realizasse. Com as mãos amarradas às costas, colocavam-no numa prancha e prendiam sua cabeça no jugo, enquanto o carrasco acionava a manivela soltando o aço afiado sobre sua nuca. Num zaz a cabeça dele saltitava na cesta.

As festas da morte

Repleta teu cesto divino com a cabeça de tiranos... Santa Guilhotina, protetora dos patriotas, Rogai por nós. Santa Guilhotina, calafrio dos aristocratas, Protegei-nos!
(Prece revolucionária, 1792-1794)

reprodução
A França inteira morrendo na guilhotina
Instalada a máquina da morte por um tempo na Place du Carroucel, esta logo revelou-se estreita para o grande afluxo de gente que desejava assistir as execuções. Quando se deu o guilhotinamento de Luís XVI, em 21 de janeiro de 1793, tiveram que encontrar um espaço mais amplo, fixando-a na Place de la Concorde, rebatizada como Place de la Révolution. Nela seguramente cabia uns 20 mil espectadores, se incluirmos as pessoas que acompanhavam os eventos do alto dos balcões dos prédios que cercavam a praça (os moradores costumavam alugar as sacadas para os que vinham do interior ou para gente dos outros bairros). Sempre presentes, na primeira fila do cadafalso, injuriando os condenados, estavam as tricoteuses, mulheres velhas que passavam o tempo fazendo os seus tricôs ao pé da guilhotina, lançando palavra terríveis aos que iam entregando a cabeça decepada ao cesto imundo de sangue, que ficava postado logo abaixo da lâmina caída. Quando a multidão tinha um particular ódio por um dos sentenciados, como ocorreu no caso da rainha Maria Antonieta, era praxe o carrasco erguer a cabeça dele pelos cabelos para que uma onda de impropérios o enxovalhasse no momento daquela triste despedida. No auge do terror a máquina alimentava-se com umas trinta cabeças por dia. Tratava-se de um espetáculo de vingança coletiva, no qual a massa popular encenava o seu acerto de contas com a nobreza deposta e seus adeptos. Anteciparam as grandes encenações outras que irão se repetir durante as situações revolucionárias do século XX, na Rússia comunista de 1917, na Alemanha nazista de 1933, na Itália fascista de 1922, ou nos julgamentos de massa dos seguidores da ditadura batistista feitas na Cuba revolucionária em 1959.

| |

Radicalização e terror | O significado da morte dos reis | As festas cívicas | A Festa do Ser Supremo | O início do terror | A máquina da morte | O ritual dos condenados | As festas da morte | Indulgentes e terroristas | Robespierre vinga Marat | A ditadura revolucionária | O terror no interior | O golpe do Termidor | O fim da ditadura das massas | Bibliografia



 ÍNDICE DE MUNDO





 
 » Conheça o Terra em outros países Resolução mínima de 800x600 © Copyright 2002,Terra Networks, S.A Proibida sua reprodução total ou parcial
  Anuncie  | Assine | Central de Assinante | Clube Terra | Fale com o Terra | Aviso Legal | Política de Privacidade