A Escolha do Título do Documentário
"O futuro fala desde já pela voz de cem signos, a fatalidade anuncia-se em toda a aparte; para entender esta música do futuro todos os ouvidos já estão atentos."
F. Nietzsche - Vontade de Potência, prólogo, § 2.
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Hitler, símbolo vivo da transmutação de Nietzsche
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O título do documentário
O Triunfo da Vontade, sugerido por Hitler, parecia-lhe a realização mais autêntica, na perspectiva da filosofia de Nietzsche, do que ocorrera com ele. Exaltado apologista da vontade, Nietzsche a entendia como uma força energética irracional e invencível. Quem de alguma forma fosse dotado de ou possuído pela vontade, atingia alturas aparentemente inalcançáveis. Era capaz de tudo. Assim Hitler se sentia naquele verão de 1934. O até então fracassado pintor, um ex-combatente da I Guerra Mundial, um
frontman que nunca se destacara na vida, graças à sua vontade inquebrantável e à sua determinação fanática, mesmo convivendo por anos num partido de refugados e de marginais da sociedade alemã, ridicularizado por seu trejeitos de boneco de ventríloquo, chegara ao mais alto posto do Reich. Naquele momento, sentava-se ao lado do trono que fora dos kaiseres, no posto de Bismarck, o chanceler de ferro, que quase sozinho construíra o segundo império em 1871. Ninguém, pois, melhor que ele para encarnar o impossível, a mais impressionante prova da essência do
Der Wille zur Macht do profeta do niilismo moderno. Hitler em pessoa era a prova viva da transmutação dos valores apregoada por Nietzsche, o anônimo pobretão que atingira a glória, o nada que imprimia o para sempre o seu nome na história.
O Messias
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Hitler dividindo as águas
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Leni Riefenstahl empreendeu o feito de traduzir em linguagem cinematográfica duas vertentes poderosas que se ocultavam por detrás da imagem do
Führer e que eram muito eficazes junto ao público alemão. A primeira delas vinha da tradição cristã que, tanto nos Evangelhos como no Livro do Apocalipse, deposita enormes esperanças na chegada de um salvador, de um messias. Hitler definitivamente tinha que ser apresentado assim. Portanto, logo que o filme de Leni começa, vê-se o aeroplano dele aproximando-se como se viesse de algum lugar celestial. O avião logo circunvoa o estádio repleto para dar sinal que a parusia em breve estava para se consumar, o encontro do enviado de Deus com os seus logo se daria. Quando Hitler adentra no estádio em meio a uma multidão tremenda, estimada em 200 mil milicianos de todos os cantos da Alemanha, arregimentados em duas grandes alas, assemelha-se a um Moisés cortando a passo as águas do Mar Vermelho para ir conduzir o seu povo, liberto do algoz estrangeiro, à terra prometida, ao império da nova ordem nacional-socialista.
O Mito do Herói
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Siegfried, o herói mitológico
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A outra vertente advinha do herói da mitologia teutônica, Siegfried, o lendário guerreiro que acompanhado dos mil nibelungos, depois de incríveis aventuras e feitos extraordinários, mata o dragão na beirada do Rio Reno, livrando os seus da desgraça. Nada mais adequado do que encaixar o
Führer como a ressurreição do cavaleiro audaz que abate as forças do mal - o comunismo, o liberalismo, o expressionismo, o judaísmo, expressões diversas de um nocivo antigermanismo -, preservando para o futuro a integridade moral, ideológica e racial dos arianos. Hitler aparece pois como a simbiose dessas duas legendas, a do messias e a do herói. Ao deificá-lo ele surgia nas telas do documentário como um divisor de águas da Alemanha moderna. Aquele que com sua determinação inquebrantável afastara as sombras das humilhações passadas (as punições do Tratado de Versalhes) para apresentar ao seu povo um futuro luminosos, radiante, pleno de realizações e imortais façanhas (a aventura do Estado nacional-socialista). Hitler era o Partido Nazista, ele era a Alemanha, sua tarefa era conduzi-la para dirigir o mundo, Hitler era invencível. Somente ele era um indivíduo, sendo que os demais alemães se dissolviam num imenso mecanismo unido para servir ao seu
Führer.
Questões Técnicas
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Uma causa, uma só máquina
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O filme divide-se em 12 cenas no estilo cinema verdade, alternando imagens celebrando a raça, a unidade, a ordem e a disciplina com closes sobre Hitler, o personagem que de fato domina inteiramente as quase duas horas de projeção (1h49min). Ao fundo, temas wagnerianos misturam-se com canções folclóricas, hinos tradicionais e marchas nazistas, formando uma trilha sonora única que liga vários episódios da Alemanha numa coisa só, mostrando como o movimento nacional-socialista é tributário do passado e ao mesmo tempo seu continuador.
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