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I Guerra Mundial - Uma comovente impressão sobre um grupo sobrevivente

Leia mais
I Guerra Mundial
» A eclosão da guerra
» A guerra de trincheiras
» Grupo sobrevivente
» Desgaste e o bloqueio naval
» A guerra no fronte oriental
» "14 Pontos do Presidente Wilson"
» Apêndice
 
"Apareceram primeiro uns esqueletos de companhia, conduzidos as vezes por um oficial sobrevivente que se apoiava num bastão; todos andavam, ou melhor avançavam passo a passo, com os joelhos dobrados, inclinados sobre si mesmos e cambalhando como se estivessem bêbados (...) iam com a cabeça baixa, o olhar sombrio, encurvados pelo peso da mochila e do fuzil. A cor de seus rostos não se diferenciava dos capotes, de tal maneira estavam cobertos e recobertos de barro seco; os uniformes com a pele, estavam totalmente incrustados desse barro. Os automóveis precipitavam-se com seus roncos em colunas cerradas esparramando esta lamentável maré de sobreviventes da grande hecatombe, mas eles não diziam nada, nem sequer gemiam porque haviam perdido a força inclusive para queixar-se. Quando esses forçados da guerra levantavam a cabeça para os telhados da aldeia se admirava neles, em seus olhares, um incrível abismo de dor e, neste gesto, suas expressões pareciam fixadas pelo pó e tensos pelo sofrimento, parecia que esses rostos mudos gritavam alguma coisa aterradora: o horror incrível do seu martírio. Alguns soldados da segunda reserva que os estavam olhando ao meu lado, permaneciam pensativos e dois deles choravam em silêncio..."

- Gaudy, subtenente, preparando-se para a substituição na batalha de Verdun em 1916.

Cenas dantescas

"O odor fétido nos penetra garganta a dentro ao chegarmos na nossa nova trincheira, a direita dos Éparges. Chove torrencialmente e nos protegemos com o que tem de lonas e tendas de campanha afiançadas nos muros da trincheira. Ao amanhecer do dia seguinte constatamos estarrecidos que nossas trincheiras estavam feitas sobre um montão de cadáveres e que as lonas que nossos predecessores haviam colocado estavam para ocultar da vista os corpos e restos humanos que ali haviam."

- Raymond Naegelen, na região de Champagne.

"Desenterro um poilu do 270, foi fácil tirá-lo. Há todavia vários soterrados que gritam: os alemães devem ouvi-los porque metralham. Não é possível trabalhar em pé e por um momento tenho vontade de fugir, mas na verdade não posso deixar assim meus camaradas... tento desprender o velho Mazé, que segue gritando: mas quanto mais terra eu tiro, mais afunda: consigo desenterrá-lo por fim até o peito e pode respirar melhor; vou então socorrer um homem do 270 que grita também, mas debilmente, e consigo livrar-lhe a cabaça até o pescoço, enquanto ele chora e suplica que não lhe deixe ali. Estão faltando outros dois, mas não escuto nada e volto a cavar para desenterrar suas cabeças. Então me dou conta que estão mortos. Tonteio um pouco porque estou esgotado; o bombardeio continua."

- Gustavo Hefer, 28º Regimento de Infantaria.

"Pela manhã, quando ainda está escuro, há um momento de emoção: pela entrada do nosso abrigo precipita-se uma turba de ratos fugitivos, que trepam por toda a parte a longo das paredes. As lâmpadas de algibeira alumiam este túmulo. Toda a gente grita, pragueja e bate nos ratos. Descarregam-se, assim, a raiva e o desespero acumulados durante numerosas horas. As caras estão crispadas, os braços ferem, os animais dão gritos penetrantes e temos dificuldades em parar, pois estávamos prestes a assaltar-nos mutuamente."

- E. M. Remarque, pág. 113.

Da sensação de desumanização

"Perdemos todo o sentimento de solidariedade. Mal nos reconhecemos quando a nossa imagem de outrora cai debaixo do nosso olhar de fera perseguida. Somos mortos insensíveis que, por um estratagema e um encantamento perigoso, podemos ainda correr e matar."

- E. M. Remarque, pág. 121.

"Durante mais de uma hora, antes que alguém fale, ficamos estendidos, arquejantes, descansando. Estamos de tal forma esgotados que, apesar da acuidade da nossa fome, não pensamos nas conversas. Só a pouco e pouco tornamos a ser, pouco mais ou menos, seres humanos."

- E. M. Remarque, pág. 123.

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