Bismarck e a Vontade do Poder
Otto von Bismarck, o assim chamado chanceler de ferro, foi o estadista mais importante da Alemanha do século XIX. Coube a ele lançar as bases do II Reich (1871-1918), que fizeram com que o país, superando a existência de mais de 300 entidades políticas diferentes, conhecesse pela primeira vez na sua longa história a existência de um Estado-nacional único. Para tanto, para formar a unidade alemã, Bismarck desprezou os recursos do liberalismo político - baseado no consenso ou no voto das maiorias extraído das práticas parlamentares -, apostando sempre numa política de força (dita de sangue e ferro), moldando assim o novo Estado alemão dentro da blindagem do antigo sistema autoritário prussiano.
O último refresco
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"Existem filósofos alemães? Existem escritores alemães? Existem bons livros alemães? Fazem-me esta pergunta no estrangeiro. Ruborizo-me! mas com toda a delicadeza que sou capaz nestas situações delicadas, eu respondo:
- Sim! Bismarck!"
F. Nietzsche - Götzendämmerung, 1888
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O chanceler de ferro um pouco antes da sua morte em 1898
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Serviram-lhe um refresco, fazia calor. Bebeu-o de vez estalando a língua. -Vorwärts! Avante! exclamou, duas horas depois o octogenário Otto von Bismarck, o chanceler de ferro, expirou. Morreu em Schönhäusen, a propriedade da família na Prússia, no dia 2 de agosto de 1898. Oito anos antes, em 1890, recolhera-se para lá a contragosto. O Kaiser Guilherme II, o jovem imperador alemão o constrangera à renúncia.
- "Não vou hibernar como um urso!" Pensava ainda continuar governando a Alemanha. A sua Alemanha. E, de fato, se existisse algum país na Europa daquele tempo que pertencesse a alguém, que tivesse sido obra de alguém, este país era a Alemanha, a Alemanha de Bismarck.
Chicote e pão-doce
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O capacete prussiano cobrindo a todos (caricatura)
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Nomeado chanceler pelo rei da Prússia em 1862, percebeu o equivoco dos conservadores alemães deixarem a causa da unificação nacional como bandeira só dos liberais e dos democratas. O pendão em favor da aliança de todos alemães baixo um só regime, vivendo num país integrado, estava largado ao chão desde o fracasso da Revolução dos Poetas na assembléia nacional de Frankfurt, fechada pela reação em 1849. Desde então, reerguido por ele aquele ideal, recorrendo à prática do Peitsche und Zuckenbrot, a política que alternava entre o chicote e o pão-doce, lançando mão da guerra e das negociações diplomáticas, conforme a suas estratégia determinava, Bismarck trabalhou incansavelmente para atingir aquele objetivo. Henry Kissinger considera-o um revolucionário.
Pensava ele com razão, que a Prússia dos 1860 - o reino mais povoado, instruído e industrializado dos 39 estados da Alemanha -, era poderosa o bastante para caminhar sozinha rumo à integração nacional sem prender-se à Áustria ou ao consentimento da Rússia. Tornou-se um aplicado seguidor da chamada Realpolitik. Nada de ater-se a pruridos morais ou preceitos ideológicos. Para alcançar a tão desejada unidade ele faria acordos até com o demônio se fosse preciso. Contatou inclusive com Karl Marx, em 1867, sondando-o para que pusesse seus "extraordinários talentos a serviço do povo alemão". Preparou-se então para a guerra. Em seis anos, de 1864 a 1870, batendo dinamarqueses, austríacos e franceses, conseguiu o feito de unificar o pais.