A massa de vândalos
 | 
|  |

|
Linchamento na rua de Nova York
| 
|

|
Ensandecida, possessa, espumante, a turba, depois de um ligeira concentração no Central Park, marchou em duas colunas opostas para devastar tudo. Na frente, em linha, iam os grandalhões, empunhando porretes, machados e pistolas, atrás deles, a infantaria ligeira da baderna, uma massa de rapazes e de adolescentes de ambos os sexos, armados de tijolos e pedras, deliciados em assolar tudo o que viam, o que se mexia. Quando uma das colunas daquele exército de vândalos chegou na 5º avenida com a rua 46, depararam-se com o orfanatório para crianças negras. A chusma não resistiu. Vociferante, queria linchá-las. Como parte das 237 que lá estavam escaparam pelos fundos, um bando tocou fogo no prédio. Um marinheiro negro não conseguiu escapar dos estivadores, enquanto um outro, um motorneiro de bonde, já devidamente estripado, era arrastados pelos órgãos genitais pelas ruas. Quem também não escapou foi um velho índio mohawk, que os desordeiros cismaram ser um negro.
Nova York em chamas
 | 
|  |

|
A multidão enfurecida invade as ruas
| 
|

|
Durante o restante da semana, até o 17 de julho, o cenário não mudou. Prédios ardiam em todos os cantos de Nova York. Nem os militantes pró-abolição, gente que empenhara a vida em favor da do fim da escravidão, escaparam de ser mortos a pauladas por turbas furiosas que gritavam
No nigger on the rear! Sem crioulos na retaguarda! A polícia sumira das ruas. Os guardas morreram ou se esconderam. Os bombeiros, classe vocacionada ao heroísmo, não davam conta de atender aquele dilúvio de chamas. Lincoln ficou arrasado. O gosto da vitória em Gettysburg amargara-se com as notícias trágicas que recebeu de Nova York. O povo da cidade insurgira-se contra a União, contra ele, naquilo que ficou conhecido como
The New York city Draft riots.
Tropas em Nova York
Ordenou então aos bravos do general Meade que fossem pôr ordem no pandemônio. Veteranos do Exército do Pottomac, soldados que viram o branco do olho do rebelde sulista, marcharam então para lá. A eles, juntou-se o 7º regimento de infantaria de Nova York, onde serviam muitos irlandeses, senão a maioria. Travou-se uma dura luta na reconquista da cidade. As pedras das ruas, empilhadas, serviam como trincheiras. Obstáculos que eram tomados um a um pelos soldados, a tiro e carga de baioneta. As avenidas de Nova York viraram corredores de assalto e suas transversais em fortins do populacho. As autoridades registraram 119 mortos e 306 feridos, mas o total foi bem mais além de 1200 (entre mortos e desaparecidos), pois nas semanas seguintes incontáveis cadáveres, a maioria deles mutilados e de espancados, foram retirados das águas da baía do Hudson.
Cinzas e recomeço
Martha Perry, dissipada a sensação de ter estado no fronte, agradeceu aos céus ter sido poupada. A cidade morreu? Bem ao contrário. A tragédia do motim de 1863, que causou um prejuízo de U$ 1,5 milhões, fez com que todos jurassem não repetir o horror. William Stoddard, que uns anos depois escreveu a respeito da tragédia, imaginou a situação como se um vulcão houvesse entrado em erupção, saltando lava dos bueiros e das fossas da cidade. E, desde então, Nova York, recomposta, varrendo as cinzas para o lado, renasceu para vir a tornar-se
a capital do mundo.
Leia mais:
» Especial O Fundamentalismo e Nova York
|