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Motim em Nova York


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Nova York submetida ao saque

Nova York, que hoje chora os seus mortos, vítimas do terrível atentado às torres gêmeas do World Trade Center, conheceu no século XIX um outro momento de aprêmio, dor e luto. Tragédia que deu-se por ocasião do motim de julho de 1863, quando grande parte da população pobre da cidade, a maioria dela de origem irlandesa, envolveu-se numa jornada da saques, depredações e linchamentos, que também provocaram enorme horror no país inteiro, causando um número de mortes proporcionalmente tão elevado como o do atentado recente. Mas Nova York soube sacudir a poeira, pensar seus feridos, reerguer sus edifícios e casas atingidos, dando ensejo, a partir da catástrofe, a uma nova caminhada para o futuro.

Uma testemunha

"Quando nós escutamos os pesados disparos e os gritos em resposta, tive a sensação de ter conhecido os horrores da guerra"
Martha Perry, Nova York, 1863


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A turba caça a polícia

Cuidando do seu marido, um cirurgião militar que havia fraturado a perna, Martha Perry, que morava num primeiro piso na Avenida Lexington em Nova York, teve certa manhã sua atenção voltada para um gritaria que, vinda de fora, das ruas, inundou o seu quarto. Uma turba vinha aos trambolhos - trabalhadores com suas camisas vermelhas, mulheres com filhos no colo, e, misturados a eles, uma rapaziada doida que chutava tudo o que encontrava pelo caminho. Durante o dia todo um sibilo agourento, mau, tomou o ar da cidade inteira. Era como se fosse um zumbido de marimbondos prontos para o ataque. Ao som das vidraças quebradas, viram-se logo as primeiras labaredas subindo aos céus naquele 13 de julho de 1863. As multidões, em alvoroço, tomavam conta das ruas, das praças, da docas do porto. Martha, num primeiro momento, acreditou que estavam comemorando ainda a notícia da vitória de Gettysburg, onde o general Meade havia detido os confederados do general Lee. Mas que nada. O aspecto dos que passaram como um vendaval em frente a sua casa nada tinha de festeiro.

A Lei da Conscrição Militar


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Ajuntamento em frente a conscrição

Tudo começara naquela manhã mesmo, quando o primeiro posto de conscrição militar, situado na 3ª avenida com a rua 46, fora tomado de assalto e destruído pelos que haviam sido sorteados para cumprir com o serviço militar. Os funcionário municipais não tinham culpa nenhuma, estavam apenas cumprindo com as determinações do Ato de Conscrição, aprovado em março daquele ano no Congresso, por instâncias do presidente Lincoln, e que determinava a convocação obrigatória de todo o americano entre os 20 e 45 anos de idade. A isso somara-se o anúncio da libertação dos escravos em todos os Estados Unidos.

Luta contra os isentos e os libertos


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Um grupo apupando

A massa pobre de Nova York, especialmente os irlandeses, fossem recém-imigrados ou não, não se conteve. Pareceu-lhes uma escandalosa provocação isentar do serviço militar obrigatório quem pagasse 300 dólares ou levasse alguém "em condições razoáveis" para substituí-lo - o que livrava os endinheirados e os almofadinhas da cidade de ter que enfrentar o cheiro da pólvora sulista. Temiam, igualmente, que a abolição da escravatura fizesse com que milhares de libertos, abandonando o eito, abaixo da linha Mason-Dixon (limite que separava os estados livres dos escravistas), viessem inundar o mercado de trabalho do Norte, liquidando com seus empregos e com suas magras condições de vida. O motim de Nova York assumiu então uma dupla motivação: pobres contra ricos, brancos contra os negros. Foi como se tivessem solto o demônio pelas ruas de Mannhattan, do Brooklin e do Bronx. As lojas, os armazéns, os grandes depósitos e os magazines foram pilhados na sua quase totalidade, nada escapando das mil mãos gatunas da multidão.

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