McCarthy caça bruxas
Em 1952, Elia Kazan, um ativista de esquerda e diretor de teatro, a fim de preservar sua carreira futura, denunciou vários dos seus ex-colegas como membros do Partido Comunista ao Comitê de Atividades Antiamericanas na época das perseguições macartistas. Desde então esse foi um episódio cinzento na história das liberdades americanas.
O delator
"Então um dos Doze, chamado Judas Iscariotes, foi até o chefe dos sacerdotes e disse: O que me dareis se eu o entregar?"
Mateus, 26
 Elia Kazan |
Quando Arthur Miller, uma estrela ascendente na dramaturgia norte-americana de então, foi ao encontro de Elia Kazan num chuviscoso dia de abril de 1952 intuiu que boa coisa não era. A relação profissional deles, na época, assemelhava-se a uma fraternidade. Uns anos antes, em 1949, fora Kazan quem dirigira o que viria a ser um dos estrondosos sucessos teatrais de Miller:
A Morte do Caixeiro-viajante (
Death of a Salesman), tornando-o um nome universal. Esperava Miller o pior porque o meio artístico norte-americano vivia naquela entrada dos anos cinqüenta um dos seus momentos mais depressivos e vergonhosos: a chamada
Red Scare-era! A era do pânico vermelho.
O macartismo - a caça organizada aos comunistas e simpatizantes, desencadeada pelo Comitê de Atividades Antiamericanas (House Un-American Activities committee) no show-business -, devastava a classe artística. Miller angustiava-se pelo amigo, um notório homem de esquerda que, até então, levava "uma vida de ar de secreta conspiração contra a sociedade, contra o capitalismo". Evidentemente não esperava ouvir o que escutou. Kazan, frio, racional, confessou-lhe que decidira-se colaborar com o senador Joseph McCarthy. Afinal, disse ele, não tinha mais nenhuma simpatia pelo comunismo. Além disso, o chefão do estúdio da 20th Century Fox garantira-lhe
 Joseph McCarthy, líder da campanha anticomunista |
que se o comitê não lhe limpasse a ficha, as portas do mundo do cinema estariam fechadas para ele. E Kazan, doravante, só via um destino para ele: fazer filmes. Argumentou ainda que as pessoas que ele denunciara, seus ex-companheiros do
The Group Theater, uma dúzia mais ou menos de membros do PC americano, todos sabiam quem eram (Lewis Leverett, J.Edward Bromber, Phoebe Brand, Morris Carnovksy, Tony Kraber, Paula Miller, Clifford Odets, e outros).
Um apologista da delação
Miller enregelou-se. De chofre, percebeu que se estivesse com ele desde os anos trinta, no tempo do Group, Kazan não hesitaria também em dar
 O informante de John Ford, visão negativa do delator |
o seu nome para preservar a carreira. Uma das mais promissoras amizades do mundo dos espetáculos acabou ali mesmo. O irritante de Kazan porém veio depois. Ao perceber que seu nome se tornara num sinônimo de Judas (credita-se, em seu favor, que seu nome, uma abreviação do grego
Kazanjoglous, portanto estrangeiro, foi mais fácil de ser associado à traição), empenhou-se não só em justificar-se como fazer da delação uma virtude. Se John Ford, em 1935, mostrara no
The Informer o personagem Gypo Nolan como um patético bêbado que entrega, por vinte libras, o amigo ativista do IRA às autoridades inglesas, como um ser abjeto, Kazan agiu ao revés.
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