A Sociedade Fragmentada
Com o colapso da monarquia, as instituições se dissolveram. Na confusão reinante, a França encheu-se de clubes e de sociedades que atuaram como um espécie de substitutivos locais da autoridade. Por toda a parte comitês de cidadãos e cidadãs assumiam o controle de um pequena fatia do poder, lembrando um tanto o regime dos sovietes na Rússia pós-1917. A França dos Bourbon, como um enorme espelho, caíra estrepitosamente ao chão, fazendo com que cada um dos seus cacos tivesse vida própria.
 Festa cívica durante a Revolução |
A vigilância e a ascendência deles era, como não podia deixar de ser, limitada, circunscrita a alguns quarteirões, a metade de uma cidadezinha, ou à comuna como nas agrupações humanas maiores. Paradoxalmente, essa democracia direta, onde a população inteira praticamente chamou a si o controle dos negócios públicos, permitiu a emergência de um ditador. A violência pública das ruas, deveria ser substituída pelas execuções ordeiras e metódicas do Estado revolucionário.
O domínio da micropolítica pelos sans-culottes e seus comitês abriu espaço para que a política maior terminasse empalmada pela tirania revolucionária de Robespierre. A voz dele ecoando do clube dos jacobinos dominou a Convenção Nacional, onde seus 700 e tantos parlamentares foram rapidamente enquadrados pelos ditames dos Comitês de Salvação Pública e pelo Comitê de Segurança Geral, os dois órgãos executivos daquela instituição. E o que a voz dos jacobinos dizia?
Maximilien Robespierre
 Jean-Jacques Rousseau, mentor dos jacobinos |
Nascido em Arras, em 1758, Maximilien Robespierre era filho de uma família de procuradores que lá vivam desde 1600. Formado em direito, atuou como promotor (cargo que renunciou para não ter que condenar um assassino à pena de morte), sendo eleito em 1789 para os Estados Gerais, onde, num primeiro momento, não se destacou. Os acontecimentos é que o moldaram, empolgando a multidão, atiçando-lhe a coragem para ordená-la a ir em frente. Leitor de Jean-Jacques Rousseau, fascinou-o a idéia do governo da virtude, expressão ética da vontade geral. Como o seu mestre, sonhava com um regime inspirado nos varões de Plutarco, nas magníficas figuras do passado clássico cuja história pessoal misturava-se com os destinos políticos de Atenas, de Esparta, da Roma republicana. No entanto, sentia-se frustrado em ver o mundo baixo, mesquinho e intrigante que o seu tempo herdara.
O Eleito pelo Supremo
A própria revolução que o conduziu às alturas parecia-lhe acanhada, tímida, perante os desafios extraordinários que a ameaçavam, e que só ele, entre tantos, parecia enxergar. Aparentemente, o Incorruptível, como o chamaram, não tinha dúvidas de que o Supremo o escolhera como o instrumento da sua vontade. A tarefa era erigir numa nova ordem política. De estatura pequena, geralmente impecavelmente vestido num traje verde oliva, Robespierre era o único homem da França que ainda vestia-se à moda do Antigo Regime, com peruca e pó-de-arroz, sem que isso despertasse a ira popular.
Um Sinônimo da Revolução
 Robespierre, orador dos jacobinos |
Ninguém suspeitava que ele guardasse qualquer simpatia pelo modo de viver dos
ici-devant, "os de antes", como eram chamados os da velha ordem, esmagados pela Revolução de 1789. De certa forma, contrariando as opiniões do historiador François Furet, que viu a república de 1792 como uma "derrapagem", uma caída no exagero, tornando os jacobinos e seus líderes numa excrescência condenável, ele, Robespierre, foi o mais exaltado símbolo dos propósitos últimos daquela revolução. Ainda que parecendo um exagerado, quem pode hoje imaginar a Revolução de 1789 sem Robespierre? (a tentativa, de resto frustrada disso, coube a Simon Schama fazer no seu livro
Cidadãos).
 Robespierre em criança e moço |
O que mais poderia dizer-se dela do que o fato de um desconhecido advogado interiorano assumir, ainda que por pouco tempo - apoiado apenas na oratória, num grande senso de oportunidade e energia invulgar - o governo da França dos Luíses. A velha sociedade de ordens, herança dos tempos feudais, ruíra, dando lugar ao mundo dos talentos, um mundo que, nos seus extremos, Robespierre e, depois dele, Napoleão, melhor representaram.
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O Clube Bretão |
Na Rua Saint-Honoré |
O Olho da Revolução |
A Voz da Revolução |
A Sociedade Fragmentada |
Maximilien Robespierre |
O Eleito pelo Supremo |
Um Sinônimo da Revolução |
O Reino da Virtude |
O Império das Leis Constitucionais |
Um Confronto de Morte |
Virtude e Terror |
Nada de Indulgências |
A Perda da Medida |
Fases do Jacobinismo |
Características e Propósitos |
Uma Pequena Igreja |
Uma Conjuração Pública |
Leões e Raposas |
Bibliografia