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A escola do Rio Hudson


reprodução
O vale do Genesis, uma vista da América

Esteticamente, quem expôs a fascinada perplexidade do recém-chegado frente à magnitude da natureza do Novo Mundo foi o que convencionou-se chamar de The Hudson River School, a Escola do Rio Hudson, uma plêiade de autênticos pintores americanos (de fato, alguns haviam nascido na Europa), tais como Thomas Cole, Asher B. Durand, Albert Bierstadt, Frederick Church e Thomas Moran, que predominaram entre 1820-1880, imprimindo nas suas telas, de dimensões panorâmicas, o gigantismo da natureza circundante. Se bem que tenham começado a maioria das suas obras nas Montanhas Catskill, nas cercanias do grande rio do norte, a descoberta dos veios auríferos na Califórnia em 1848, e a corrida do ouro que se sucedeu, fez com que eles cobrissem a América de Leste a Oeste. Reproduziram insistentemente a monumentalidade de tudo. O forte impacto visual que os contrastes entre o verde das intermináveis pastagens, os repentinos abismos dos canions e o azul dos céus infinitos deixava espantado o homem americano. Os indivíduos nas suas telas, quando lá estavam, podiam aparecer como
T.Cole
A América panorâmica, um Éden a conquistar
seres insignificantes naquele cenário, mas o efeito psicológico daquele contraste foi adverso. Os americanos, ao invés de constrangerem-se perante o desafio de ter que civilizar e conquistar aquilo tudo, aí mesmo é que se entusiasmavam. A dimensão ciclópica e bravia do continente serviu-lhes antes como um desafio e não como freio.

A outra América

reprodução
Um mundo cruel para o escravo
Essa visão otimista, o desafio de um mundo a ser desbravado, não estava porém bem distribuída, nem democraticamente, nem racialmente. Para os milhares de trabalhadores escravos que eram desembarcados nos portos da Virgínia e das Carolinas, vindo do distante Golfo de Benin, da Costa do Ouro, da Senegâmbia, do Camerum e da Guiné, o destino era outro. Comprados ao preço de 360 dólares a cabeça, para eles, o que os aguardava na América era um trabalho árduo, sem compensações e sem tréguas. O sucesso anterior do tabaco, que antes consumiu boa parte da mão de obram trazida cativa da África no século XVII, deu lugar ao avanço espetacular das plantações de algodão, que se espalhavam para o interior da Geórgia e do Alabama.

Numa dessas perversões típicas da modernidade iniciante, a Revolução Industrial que na Europa, desde a metade do século XVIII emancipava social e politicamente a burguesia da tutela da nobreza, atrelava 500 mil escravos negros ainda mais ao despotismo do grande proprietário de terras do sul dos Estados Unidos. A máquina de descaroçar algodão, a spinning jenny, postergou mais a abolição da escravidão na América do que as incontáveis manobras protelatórias dos políticos sulistas. Porém, naqueles tempos, nos anos de 1820 e 1830, os demais americanos pareciam infensos aos padecimentos dos negros. Muitos dos imigrantes pobres, instalados nas cidades do Norte opunham-se abertamente a manumissão dos africanos por temerem perder seus empregos. Acreditavam que a alforria deles provocaria uma invasão de mão-de-obra barata no mercado de trabalho nortista. Dessa forma, quando o Marquês de Laffayte (o nobre liberal francês que aos vinte anos viera ajudar as colônias americanas na guerra pela independência em 1778) fez sua viagem triunfal por parte dos Estados Unidos em 1824, suas observações contra a existência da escravidão não provocaram nenhuma sensibilização de parte do público.

A Dinastia Virginiana

Nesta sociedade em formação, com suas disparatadas contradições: homem contra a natureza, civilização desafiando o selvagismo, o recém-chegado indispondo-se com o que lá já estava, as várias seitas religiosas desafiando umas às outras, o norte do trabalho livre competindo com o sul do trabalho escravo, a democracia americana atuava como um elemento político plasmador, transformando aquela confusão toda numa consistente argamassa, nunca consolidada, sempre em mistura, na qual sempre se juntava algum elemento novo, recém-vindo. O panelão fervia mas não explodia.

óleo de Caleb Birgham
A democracia em ação
O senão do sistema de então era que a elite política até a época anterior a Jackson era sempre a mesma. Denominavam-na de a "Dinastia Virginiana". E não era por menos: George Washington, Thomas Jefferson, James Madison, e James Monroe, que governaram o pais até 1825 eram daquele importante estado. Por mais que alguns deles, como Jefferson o fez, se esforçassem por democratizar as instituições ainda tenras, estavam umbilicalmente ligados ao privilégio. Eram homens ricos de nascença, e geralmente bastante cultos. Perteciam ao patriciado rural que formava a elite do país.

Coube a eles o mérito da redação da Declaração da Independência de 1776, elaborar e fazer aprovar a Constituição de 1787 e, também deles veio a idéia das dez primeiras emendas, que serviriam como a Bill of Rights, a Declaração dos Direitos do povo norte-americano. Era um acervo e tanto, mas o país mudara. O desembarque de gente nova não cessava, e não demorou muito para eles, convertidos em cidadãos, entrarem no páreo.

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