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Grozny

A sociedade russa


situada entre a Europa e a Ásia, a Rússia do século 16, apesar de cristianizada desde 862 era vista como um país habitado por bárbaros. Tanto o povo comum, aquele mar de camponeses que a povoava, como os proprietários e os integrantes da corte, usavam longas barbas que se derramavam pelo peito abaixo, dando a eles um ar selvático, primitivo. A Igreja Ortodoxa proibia expressamente que as cortassem pois não admitiam profanar o que Deus determinara aos homens. As mulheres em geral era criadas dentro do espírito asiático de total obediência aos seus pais e maridos. Sua obrigação era sempre manter seus cabelos longe da vistas dos homens, cobrindo-os com lenços.

Os camponeses moravam em habitações paupérrimas, em casebres de madeira com telhado de palha, sempre enfumaçados pela presença constante de um fogo aceso. Os nobres e os proprietários, quando não viviam em fortes ou fortins, possuíam dachas, casas de campo bem maiores e bem mais confortáveis. Se a miséria era espantosa, isso não era impedimento para que a corte, dentro da tradição dos costumes orientais, ostentasse um luxo escandaloso, fazendo com que o contraste social na Rússia fosse espantoso. Quanto ao russo comum, a imagem dele que tinham os europeus era a de um tipo semi-selvagem, rude, analfabeto, extremamente supersticioso, condenado a viver sob a ameaça do knute, o chicote, sempre posto de joelhos perante o seu senhor.


Os carregadores de barco do Volga, quadro símbolo do sofrimento do russo comum

O tumulto na corte e a teoria da doença: muitos historiadores atribuem o sanguinarismo de Ivan, o Terrível, à infância atormentada que passou na corte de Moscou, onde, desde que nascera, presenciou o assassinato de grande parte dos seus parentes e o encarceramento de tantos outros. A surpreendente morte da sua esposa, a czarina Anastácia em 1560, provavelmente envenenada, também teria contribuído para o excessos posteriores cometidos por Ivan. Porém isso parece falso. Nada indica que a corte russa fosse muito diferente de qualquer outra corte asiática, ou mesmo dos governos tirânicos das cidades-estados italianas daquela época, onde o veneno e o punhal traiçoeiro eram moeda corrente, se bem que evidentemente em outra escala. O que parece que predominou e que levou Ivan a executar a grande matança foi a insuportável tensão nascida do choque entre a crescente importância da autocracia, desejada por ele, e os direitos adquiridos da Igreja Ortodoxa e dos boiardos. Analistas como O.V.Kliuchevskii e S.B.Veselosvskii insistem, porém, em diagnosticar no czar uma evidente paranóia, enquanto Edward L. Keenan apontou para uma grave doença na espinha que o acometera em 1560 deixando-o exasperado e doido.


Ícone do Deus-menino

A divisão administrativa e a servidão: aproveitando-se da comoção provocada pelo seu exílio em Alexandra Sloboda, assistindo ao embaraço do clero e dos boiardos em sentirem-se responsáveis pelo sentimento de orfandade em que o povo se encontrava, Ivan, a cavaleiro da situação, exigiu duas condições para o seu retorno a Moscou: 1) o direito de exterminar com os traidores sem os formalismo legais e 2) que concordassem no czar ter um Reino Separado, reservada apenas para si, a Oprichnina ("separado"), enquanto o restante, a Zemshchina, ficaria sob administração dos boiardos (mas aceitando interferências dele). Como compensação para o encolhimento do poder da nobreza, Ivan permitiu a adoção da servidão da gleba por parte dos grandes proprietários. Os kristiani, os camponeses russos, doravante não poderiam mais abandonar as terras em que estavam sem licença dos patrões.

A divisão administrativa, entretanto, não era estranha ao mundo imperial; Otávio Augusto, o imperador romano, também separara no século I a.C. as províncias imperiais, das províncias senatoriais (supervisionadas pelo senado ). Até na França do século 16 existia o pays d'état (onde as ordens negociavam com o rei as leis e os assuntos financeiros) e o pays d'élection (administrado pelos funcionários do rei). Assim, num primeiro momento, as exigência de Ivan para retornar a Moscou não pareceram estapafúrdias nem danosas a ninguém. Mas logo todos se arrependeriam amargamente.

OPRICHNINA ZEMSHCHINA
O Reino Separado: controle direito do Czar

Sede: Alexandrova Sloboda e o Kremlin em Moscou

Governo: Conselho dos Quatro: (Basmanov, chefe dos oprichniki, Viazênski, Zaitsev e o próprio czar Ivan)

Área: compreendia quase todo o norte, as cidades comerciais voltadas para o Báltico e o Mar Branco, e algumas grandes cidades do país

O Domínio: controle do Conselho dos boiardos

Sede: Moscou

Área: tudo o que ficou fora da Oprichnina

Obrigações: manter com seus recursos os dispêndios do czar na manutenção do seu Reino Separado

O Reino do terror: para executar seu grande plano de vingança contra os boiardos e todos os que ousaram desafiá-lo no passado, Ivan concebeu uma organização paramilitar: os oprichniki. Formavam eles uma irmandade criminosa, disfarçada de ordem religiosa, tendo em Ivan uma espécie de abade-chefe. Os alistados, em sua maioria, originavam-se da pequena nobreza provinciana que, servindo caninamente ao czar, viam um modo de ganhar terras e fazer prosperar suas famílias. Vestiam-se todos de negro como numa ordem monacal, inclusive o czar, e tinham amarrados nas selas dos seus cavalos, pendentes, cabeças de cães decepadas para mostrar a todos a sua determinação assassina. Eram uma tropa de elite, o equivalente russo-tártaro da guarda pretoriana dos imperadores romanos.

O próprio Ivan preparava as listas das pessoas a serem presas, torturadas e executadas. Jogou os oprichniki com furor implacável sobre suas vítimas, não poupando os anciãos, as mulheres, nem as crianças. Prisões em massa era intercaladas com assassinatos seletivos dos membros da alta nobre e do alto clero. Muitas deles eram conduzidos para Alexandra Sloboda, onde eram supliciados nos porões da fortaleza. Ivan, muitas vezes, supervisionava as flagelações e as mutilações, não se importando quando o sangue dos atormentados respingava no seu rosto.

As execuções em massa: durante os dez anos seguintes, de 1565 até 1575, a Rússia viveu sob sistemático terror desencadeado pelo seu próprio governante. Intercalando com as guerras contra os inimigos externos, Ivan nunca deixou de atormentar os que imaginava serem potencialmente seus inimigos.

Ano As vítimas de Ivan
1563 Primeiro período de execuções em massa: parentes de Alexei Adashev, um favorito caído em desgraça
1565 2º período: Príncipe Gorbati-Chuiski e outros nobres
1566 3º período: os nobres que pediram a Ivan o fim da Oprichnina
1568 4º período: execuções que se estenderam pelo ano todo, considerado o pior período. O metropolita Philipp, o chefe da Igreja ortodoxa confronta-se com Ivan (o padre será julgado, deposto e preso). Ele será assassinado um ano depois pelo chefe oprichniki Maliuta Skuratov
1569/nov.dez. 5º período: execução de Vladimir de Staritsa, sua mulher e filha, sua mãe, os nobres da corte dele e várias pessoas comuns ligadas a ele. Queda dos chefes oprichniki Basmanov e Viazênski, ascensão de Maliuta Skuratov e V. Griaznoi
1569/ dez.-março 6º período: expedição punitiva a Novgorod, Pskov, Tver e outras cidades; estima-se em 30 mil as vitimas do pogrom de Novgorod
1570 7º período: mais de 300 executados na Praça Vermelha em Moscou, entre eles o ministro das relações exteriores Ivan Viskováti que teve a coragem de pedir a Ivan que parasse com a matança.
1571 8º período: executados vários chefes oprichniki por covardia perante a invasão tártara do Cã da Criméia ocorrida em maio e que provocou o incêndio de Moscou
1575 9º período: apesar da oprichina ter sido abolida em 1572, deu-se ainda uma execução de 40 nobres e sacerdotes em Moscou.

As contradições de Ivan: o czar era um homem muito religioso, apegado as coisas da igreja, aos relicários, aos ícones, e às pinturas sagradas. Cada vez que mandava executar uma sentença de morte, enviava quase que de imediato a um dos seus mosteiros preferidos, uma generosa quantia para que rezassem pela alma dos mortos. Por vezes, remetia listas inteiras feitas de próprio punho de todos os que exterminara. Como isso resultasse em insônia, ele ordenava que leitores o embalassem ao leito com histórias da vida dos santos.

Este permanente sentimento de culpa jamais o impediu do que quer que fosse. Em algumas salas da sua fortaleza-mosteiro de Alexandra Sloboda ele mandara pintar nas paredes cenas imaginárias do inferno, onde até hoje pode-se ver os desgraçados se contorcendo, sofrendo torturas atrozes. Quando ele desejava que alguém fosse submetido a uma daquelas aflições ali desenhadas, ele a apontava para o carrasco. Num dos murais, vê-se um grupo de vítimas sendo tirados do gelo e, em seguida, postas no fogo. Esse era um dos tormentos favoritos de Ivan. Na concepção cristã-ortodoxa do inferno, frio e calor extremo, os opostos, andavam juntos. Foi o mesmo pesadelo que ele determinou que a população de Novgorod sofresse, no pogrom do inverno de 1569-70. As vítimas tinham primeiro suas roupas queimadas e, em seguida, eram jogadas em chamas nas águas geladas do Rio Volkhov e do Lago Ilmen.


Após ter assistido a missa na Catedral de S.Sofia em Novgorod, no dia 7 de janeiro de 1570, Ivan ordenou o massacre de 500 monges e da população da cidade.

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