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Grozny
Introdução
Grozny, a capital da Chechênia, uma ex-república autônoma da federação Russa, tem aparecido constantemente no noticiário internacional desde que o governo local rebelou-se contra Moscou em 1994 e, mais recentemente, com a operação de guerra desencadeada pelo governo russo que culminou em fevereiro de 2000 com a sua completa destruição, para evitar que ela seja novamente a sede de um movimento separatista que ameaçava transbordar para as republicas caucasianas vizinhas. Grozny, poucos sabem, foi inicialmente um acampamento militar que os russos fundaram naquela região turbulenta em 1818, e o seu nome deve-se a uma homenagem ao czar Ivan IV, conquistador dos tártaros e dos mongóis, conhecido como Ivan Grozny (o Terrível),um dos maiores tiranos registrados pela história, morto em 1584. Saiba o porquê dele ter sido assim cognominado.
"Não sabes então que meu povo só deseja devorar-me? Há gente perto de mim preparando-se para destruir-me! - Ivan o terrível ao Metropolita Kolitchev, 1566
 Ivan Grozny, o Terrível (1530-1584) |
Eisenstein, o cineasta soviético, fez do acontecimento histórico uma cena notável. Vê-se na tela do seu "Ivan, o Terrível", o perfil de ave de rapina do czar (interpretado pelo ator Nikolai Cherkassov), enquanto que ao fundo, serpenteando pela neve, estendia-se a multidão dos requerentes que vinham ao encontro do czar. Neste episódio da história da Rússia, ocorrido em janeiro de 1565, o autocrata, na verdade, só recebeu em audiência um pequeno número de súditos. Aquele gente toda, que ficara acampada ao longe, sacrificara-se numa viagem de penitência de 120 quilômetros, em pleno inverno russo - de Moscou até Alexandra Sloboda (um antigo pavilhão de caça transformado em fortaleza), para vir implorar pelo retorno do czar ao Kremlin. Um mês antes da cena, Ivan retirara-se da capital, insatisfeito com quase todo o mundo: dos sacerdotes da Igreja Ortodoxa aos boiardos (**), a nobreza russa que, segundo ele, não o deixavam governar o país a sua vontade. Quanto ao povo, ele não tinha queixas.
Um pouco antes da súbita partida, em dezembro de 1564, o czar reunira os altos dignitários na Catedral de Uspênski no Kremlin de Moscou e, amargurado, despedira-se deles. Que fossem todos para o inferno! Ele não agüentava mais os cerceamentos que os grandes lhe faziam. Não renunciara ao trono porém, nem abdicaria. Simplesmente ele mandou juntar os inumeráveis ícones, espalhados pelas igrejas da capital, e mais umas placas de ouro do tesouro real, e abandonou a cidade. Acompanharam-no a czarina Ana e alguns dos seus favoritos, numa viagem em que ninguém sabia onde iriam parar, talvez, nem o próprio czar. Supõe-se que foi pelo caminho, em meio ao gelo e à incessante neve, que lhe veio a idéia de separar a Rússia em duas áreas administrativas. Uma só para ele e a outra para os nobres.
(*) a Iª Parte do filme estreou em 1942, e a IIª Parte em 1946
(**) Os boiardos eram integrantes de uma espécie de senado da grande nobreza russa, escolhidos entre a mais alta linhagem. A Rússia originalmente era uma confederação de boiardos espalhados pela região de Moscou que gradativamente, com o crescimento da autocracia, foram perdendo seus privilégios e sua autonomia, terminando como servidores do czar.
Ivan, os primeiros anos: filho de Vassili III, Ivan Vassiliévitch nasceu no Kremlin de Moscou, em 18 de março de 1530, ascendendo ao trono ainda criança, tendo a sua mãe, uma princesa bizantina, como regente. A princípio seu título era de Grão-Príncipe de toda a Rússia, tornado-se czar em 1547, com apenas 17 anos. Governou a princípio amparado pela Rada (o conselho dos boiardos), mas o sucesso das suas campanhas militares contra os tártaros e contra os mongóis (conquista de Kazan em 1552, e do Astracã em 1556) fizeram com que ele considerasse as instituições existentes como um sério embaraço ao seu poder autocrático. Uma série de assassinatos executados por seus sicários levaram à crise com os poderosos, e ao seu subsequente abandono da capital.
Um país em pânico: quando a população de Moscou deu-se conta do ocorrido, estalou o pânico. Com a ausência do czar quem iria agora proteger a Rússia? A quais autoridades deveriam doravante a obediência? Onde estava o czar? As portas do clero e dos templos ortodoxos retumbavam pela barulheira feita pelas mãos da gente do povo que, em palma ou fechadas, não cessavam de bater desesperadas. O vazio que sentiram com a súbita ausência do czar e dos seus mais chegados deixou-os com a sensação de completo desamparo. Os boiardos que se arriscavam a transitar pelas ruas de Moscou sentiam pesar sobre eles os olhares acusadores do homem comum. Pedaços de gelo e bolas de neve voavam sobre suas cabeças. Eles, aqueles pomposos arrogantes, é que eram os culpados. Eles é que infernizaram a vida do pobre czar ao ponto de fazê-lo sair do Kremlin.
 O Kremlin e a Moscou do século 16 |
Os inimigos da Rússia: a Rússia de Ivan o Terrível, a Rússia do século 16, não tinha fronteiras seguras. Na verdade nem tinha fronteiras. Para o lado que um súdito russo olhasse havia tênues linhas flutuantes e inimigos ameaçadores. Para as bandas ocidentais eram os suecos, os poloneses e os alemães quem dominavam as passagens do Mar Báltico, dificultando o contato da Rússia com o grande comércio; ao sul, espalhavam-se os tártaros e o Império turco-otomano que reinavam sobre a estepe e o Mar Negro; ao Oriente, não muito distante de Moscou, numa indefinível linha norte-sul de mais de 5 mil quilômetros de extensão, ficavam os mongóis, os descendentes da Horda Dourada de Gengis Kã, que devastara a Rússia no século 13, e que até então os separavam das riquezas naturais da Sibéria. Esta situação de fragilidade permanente, de constante insegurança de um país geograficamente devassável, é que sempre foi a base de sustentação psicológica da autocracia. Um povo que se sentia sitiado e odiado pelos vizinhos era propenso a apoiar um regime despótico. O que o governo russo da época dominava eram as nascentes do Rio Volga e do Rio Don, o que lhe permitia fortificar-se no Kremlin em Moscou e efetuar campanhas de surpresa contra seus inimigos descendo pelos grande rios.
A simbologia do poder: provavelmente a conversão do povo russo ao cristianismo ortodoxo promovida por São Cirilo, um monge bizantino que introduziu a Bíblia e o alfabeto grego (acrescido de mais 12 letras adicionais para contemplar os sons eslavos), no século 9, fez com que as instituições e a simbologia bizantina, tanto a sacra como a profana, fossem também importadas pelos russos. Vê-se esta presença com mais evidência na arquitetura com seus templos com cúpulas aceboladas e na profusão de pinturas em ícones ilustrando a decoração geral das igrejas. Mas os russos também adotaram o princípio cesaropapista, isto é, o chefe do estado também é o chefe da igreja. O seu governante supremo era o czar (de César, imperador), o governante autocrata(pantocrata em grego, e samoderzhets em russo). O exemplo arquitetônico máximo dessa unidade de poderes, o secular e o religioso enfeixado numa só mão, é o Kremlin (fortaleza), que encerra em seus muros altos, tanto os edifícios administrativos (o poder temporal) como as igrejas (o poder espiritual). Os russos adaptaram, pois, a nomenclatura bizantina às suas necessidades de um estado fortíssimo e implacável, bem como viram na águia negra bicéfala, símbolo do basileu grego, um ícone adequado para expressar o poder imperial russo.
 Catedral de São Basílio (Catedral Pokrovsky), mandada erigir por Ivan em 1555-7 |
A estrutura do poder do Czarado e a divisão tributária: as três regiões distintas que formavam a Rússia de então, o norte-nordeste, o centro-leste e o sul (a taiga gelada, a fértil planície ao redor de Moscou e as estepes), compunham-se de setores sociais distintos que se uniram para proteger-se, dando plenos poderes ao autocrata no Kremlin.
O Czarado
O czar (autocrata)
| Região Sul |
Região centro-leste |
Região norte-nordeste |
| Cossacos do Don |
Grandes proprietários (Boiardos) |
Comunas rurais (mir) |
| Cidade: Rostov |
Cidade: Moscou |
Cidade: Novgorod |
Quanto ao sistema tributário russo, ele separava em geral os habitantes que pagavam impostos, isto é, a massa dos camponeses "negros" que viviam ao redor da comuna rural (mir), obrigados ao obrock (taxa anual entregue ao proprietário ou ao estado), e as corporações mercantis (gostinaia), dos outros, dos privilegiados, isto é, os membros do clero, os monges dos mosteiros, os gosti, uma pequena elite de mercadores favorecidos pelo czar, e os barines, os senhores de terra.
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