A ocupação de Cabul
Levaram na expedição um títere. Tratava-se de Shah Shujah, um irmão renegado de Dost Mohammed que vivia exilado na província de Peshawar, a quem os ingleses pretendiam colocar como novo emir do Afeganistão. O plano todo de submissão daquelas tribos da montanha era de William Macnaghten, um alto funcionário da Companhia e que arrastara Lord Aucland a dar o perigoso passo. De início, a campanha foi bem. Mas na ocupação da cidade de Kandahr, os ingleses perceberam logo que o títere deles, Shah Shujah, não gozava de nenhuma popularidade. Em seguida, as tropas sitiaram e conquistaram a fortaleza de Ghazni (nome do conquistador muçulmano da região e que iniciara a conversão dos afegãos aos islamismo) quando os engenheiros ingleses conseguiram explodir um dos portões da cidadela. Provocaram a morte de 500 afegãos contra apenas 17 baixas inglesas. Mais adiante, tomaram Cabul. Dost Mohammed rendeu-se em novembro de 1840 e foi remetido preso à Índia.
Um jardim das delícias
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Mohan Lal, o homem de Burnes
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Os oficiais britânicos, acampados no fortim de Bala Hissar, se deliciaram. Passavam o dia alternado jogos de cricket com cavalgadas de polo. Burnes exagerou: solto em Cabul, fez da sua morada um bordel informal. Em pouco tempo, ele e seus próximos devastaram os véus das afegãs. Não houve um só chador ou burka que as mãos libidinosas dos garanhões ingleses não profanassem. Logo formou-se uma multidão de maridos chifrudos. Burnes não alarmou-se quando o seu braço-direito, Mohan Lal um indiano da Cachemira, alertou-o do crescente zum-zum de insatisfação que corria no mercado de Cabul. A chegada das tropas invasoras jogara os preços nas nuvens e a escassez de alimentos logo se fez sentir. A isso somou-se o comportamento escandaloso dos ocupantes.
A morte de Burnes
Irados, humilhados e ofendidos, no dia 2 de novembro de 1841, as turbas cercaram a residência de Burnes no centro da capital. Correra o boato que lá dentro, na casa do agente inglês, havia ouro. Nem os tiros dos Cipaios que guarneciam a mansão seguraram o povo de Cabul e sua vanguarda de cornudos. Burnes, que negara-se a escapar enrolando-se num tapete levado pelos criados, capturado, morreu esquartejado.
A perplexidade do comando
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Dost Mohammed, emir dos afegãos
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O comando militar petrificou-se. O general Elphinston, uma lamentável relíquia das guerras contra Napoleão, que substituíra Keane, acovardado, encaramujou-se com suas tropas por um bom tempo no fortim, perplexo com a fúria que o cercava. Ao não retaliar logo, o general inglês desprestigiou-se aos olhos dos afegãos. Àquela altura, a rebelião alastrara-se. Mohammed Akbar, o filho de Dost Mohammed, recém-chegado a Cabul, deu garantias de que se os ingleses se retirassem do Afeganistão, não teriam o que temer. Entrementes, Macnaghten, o agente inglês que se apresentara para negociar, foi morto a tiros pelo próprio Akbar. O corpo dele, amarrado à sela de um cavalo, espatifou-se. Então, no dia 2 de janeiro de 1842, uma arrastada coluna britânica, desmoralizada, começou a mover-se de volta à fronteira da Índia. Oficiais, soldados e servos, seguidos por um número considerável de mulheres e crianças, dirigiram-se então em marcha lenta, com pernas enterradas na neve alta, ao destino infernal que os aguardava.
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