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As Guerras Afegãs


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A Grã-Bretanha, então o maior império do mundo, travou três guerras contra o Afeganistão em 80 anos da sua presença na Ásia. Entre 1839 a 1919, ela tentou inutilmente subjugar a totalidade daquele país rochoso, povoado pelos guerreiros mais combativos aguerridos da Eurásia, cuja paixão pela liberdade só é equivalente à entrega às causas do fanatismo religioso.

Um aventureiro inglês

"Se você foi ferido e deixado nas planícies do Afeganistão/ E as mulheres se aproximarem para cortar tuas partes/ Role em direção ao rifle e expluda os teus miolos/ E vá para o Além/ Como um soldado"

Rudyard Kipling - Kim, 1901


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Lord Burnes (1805-1841)

Alexander Burnes, um exuberante agente da British East India Company, a Companhia Britânica das Índias Orientais, de pouco mais de 30 anos, era um tipo e tanto. Bonitão, loquaz, apaixonado pelos dialetos do Indostão, os quais dominava com destreza, era também um incorrigível femeeiro. Adorava, em trajes orientais, meter-se nas tendas dos paxás e nos palácios dos rajás, sempre em intrigas mil, com o olho guloso despindo as Sherazades. Serviu de inspiração a Richard Francis Burton, aquele outro célebre aventureiro inglês que procurou as nascentes do Rio Nilo em 1855, e que, quando cônsul britânico em Santos/SP, desbravou o Rio São Francisco. Uns anos antes dele se envolver com a missão no Afeganistão, Burnes fizera uma viagem sensacional, partindo do Mar Arábico pelo Rio Indus adentro até Bokhara, façanha que o projetou como um excelente narrador de aventuras.

Missão em Cabul


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Na fronteira do Afeganistão

Atendendo a empresa, em 1838 Burnes foi incumbido por Lord Aucland, o governador-geral de Calcutá, de ir sondar as possibilidades de uma aliança com o Emir do Afeganistão, Dost Mohammed, a fim de atrair aquele líder das montanhas do Hindu Kush para um pacto com o império britânico. Ele adorou a missão, mas frustrou-se ao chegar em Cabul, a capital, porque lá também estava, com a mesma tarefa, o conde Vitkevitch, um legatário da Rússia.

Aquele monte de pedras que era o Afeganistão economicamente não valia o soldo de um só sentinela inglês, mas estrategicamente a situação era outra. Naquelas circunstâncias, na qual o ismpério da rainha Vitória disputava com o império do czar Nicolau I, metro a metro, o controle da Eurásia, o pobre pedregulho afegão, a meio caminho entre o Cáucaso e a Índia, apartando o Irã da Turcomênia, passou a ter equivalência a pepitas de ouro.

A arrogância do governador


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A rainha Victória

Foi então que a arrogância inglesa pôs tudo a perder. Lord Aucland, ao saber do russo ter deitado nas almofadas do Emir, tragando um bom tabaco no naguilé do afegão, exigiu em carta, furioso, que Dost Mohammed expulsasse o conde do Palácio, mandando-o de volta ao czar. Não só isto; pelo Manifesto de Simla que ele tornou público, exigiu que o emir afegão jamais ousasse aliar-se com outros poderes que não os da Sua Majestade britânica. Burnes viu todo o seu trabalho diplomático ser posto fora. O charme e os conchavos que ele fizera em Cabul foram em vão. Retornou então a Índia. Mas por pouco tempo.

A Companhia e Lord Aucland decidiram-se dar um lição no chefe afegão. No ano seguinte, em 1839, partido das proximidades de Lahore, uma coluna militar com nove regimentos de infantaria, um de cavalaria, levando artilharia e um bom destacamento de engenheiros, num total de 16.500 homens (ingleses, indianos e dissidentes afegãos), com o pomposo nome de Army of the Indus, comandado inicialmente pelo general Keane, abriu caminho pelo Passo de Bolan. Junto, dois camelos carregavam os cachimbos e o fumo dos oficiais ingleses. Parecia um passeio em meio a picos nevados, se bem que o general Keane, em carta a um amigo antes de partir, sentiu um certo ar de catástrofe pairando sobre a expedição.

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