O testemunho de um poeta
Vários escritores testemunharam ou eles mesmos passaram pela terrível experiência do envenenamento por gás durante a Grande Guerra de 1914-18. Uma das descrições mais impressionantes de um ataque por gás contra uma patrulha foi deixada em versos pelo poeta britânico Wilfred Owen, que antes de ser abatido pela metralha alemã uma semana ante do final da guerra, no dia 4 de novembro de 1918 deixou seu testemunho no célebre poema Dulce et decorum est (1917):
Totalmente encurvados como se fossem velhos mendigos em fila, joelhos dobrados, tossindo como bruxas, andávamos sobre a maldita lama/ Até o momento em que os insistentes sinalizadores nos fizessem voltar/ Então, na distância que nos restava percorrer, começamos a nos arrastar/
Alguns marchavam tontos de sono. Muitos deles haviam perdido suas botas, mancando, com os sapatos ensangüentados/ Todos estavam estropiados, todos cegos: Bêbados de fadiga, surdos mesmo aos alarmes de que um cartucho de gás havia estourado ali perto.
Gás!Gás! Rápido rapazes! Num êxtase mal ajeitado, todos tentam colocar a máscara ainda a tempo. Mas alguém continuava gritando alto e tropeçando, como um homem em meio ao fogo ou a lama./ Confuso, como se estive metido numa densa e enevoada vidraça de luz verde, como se estivesse num mar verde, eu o vi se afogando/
Em todo os sonhos que tive depois dessa desamparada cena, ele aparecia precipitando-se sobre mim, derretendo-se, sufocado, afogado/
Não sei se com esses enfumaçados sonhos você também conseguirá ter paz
Atrás do vagão em que o jogamos, atentei para o branco dos olhos dele convulsionando-se no seu rosto/ A sua cara de enforcado, como se fosse um diabo vomitado pelo pecado/ Você podia escutar, a cada solavanco, o sangue saindo, gorgulhante, dos seus pulmões corrompidos/
Obsceno como um câncer, amargo como fel. Quão vil e incuravelmente inflamado em línguas inocentes/ Meu amigo você não vai querer este tipo de prazer elevado/ Tão ardentemente infantil em querer alcançar tal glória desesperada/
É uma velha mentira: Dulce et decorum este Pro patria mori (Quão doce e honrado é morrer pela pátria!)
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Soldados ingleses cegos pelo gás
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Uma tela impressionante
Mal terminado o conflito, assinado o Armistício em 11 de novembro de 1918, o Comitê do Memorial da Guerra de Londres encomendou uma tela ao pintor norte-americano John Singer Sargent para vir ilustrar o
Hall of Remembrance, o Salão da Recordação, que iriam construir para homenagear os milhares do mortos na Grande Guerra. Sargent, que estivera no fronte, resolveu retornar às linhas abandonadas da França, em 1919, em busca de uma inspiração direta. Então lembrou-se das filas dos soldados atingidos pelo gás venenoso que o impressionaram muito. A partir daí, recorrendo às imagens dos frisos greco-romanos das procissões sagradas, fez uma série de estudos para depois juntá-los num painel, em cor pastel, da desolação humana. O resultado do painel de Sargent foi impressionante, parecendo-se uma atualização da
Parábola dos Cegos, tela de Pieter Brueghel, pintada no século 16, um dos maiores flagrantes do desamparo que a cegueira provoca. É significativo de que a cena de sofrimento que mais impressionou aquela geração de combatentes não tenha sido o padecimento e as doenças nas trincheiras, nem a morte estraçalhada pelos obuses da artilharia, nem os ventres abertos pela metralha ou pela baioneta, nem os corpos horrivelmente carbonizados pelo lança-chamas, mas sim a consternação provocada em todos pelos gaseados.
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