A América de Tocqueville
Naquela época, os Estados Unidos da América limitavam-se, como já se viu, basicamente a 24 estados concentrados na costa atlântica e em parte do Meio-Oeste. Territorialmente ocupavam um pouco mais de um terço dos atuais Estados Unidos, sendo que a sua população não ultrapassava a 13 milhões de habitantes (5,2% da de hoje). O restante do continente era território índio, estados da República mexicana (Texas, Arizona, Novo México, Califórnia) ou ainda se encontrava em mãos das potências colonialistas, como a Grã-Bretanha (Canadá, Oregon) e a Rússia (Alasca). A escravidão confinava-se aos estados do sul, nas terras do tabaco e do algodão, enquanto o Norte e o Oeste recém-desbravado acolhiam a gente de livre do mundo todo que para lá se dirigia em busca de oportunidades. Mas a América estava longe de ser uma mar de rosas. No oeste, o chefe indígena Falcão Negro,
 Nat Turner insuflando a rebelião |
em junho de 1831, relutava em remover sua tribo para os fundões do Mississipi, enquanto que na Virgínia, Nat Turner, em agosto daquele mesmo ano, rebelava os escravos da região do Southampton, naquela que ficou como uma das mais sensacionais e violentas revoltas da história da escravidão americana.
O Governo do Povo
"O povo reina sobre o mundo político americano como Deus sobre o universo. É ele a causa e o fim de todas as coisas, tudo sai do seu seio, e tudo se absorve nele."
Alexis de Tocqueville
O que, num primeiro momento, mais chamou a atenção de Tocqueville, no seu contanto direto com os americanos, era de que a soberania do povo (que na maioria das demais organizações políticas conhecidas jaz oculta, escondida ou sufocada pelas mais variadas artimanhas de reis ou de tiranos), lá estava às escancaras. O dogma da soberania popular não era algo retórico. A preponderância dos interesses dos comuns saltara da vida comunal, estabelecida na época da colonização inglesa, e empalmara o governo estadual e o federal, depois da Revolução de 1776. Mesmo em Maryland, observou ele, um estado que desde a sua fundação era dominado por grande proprietários, proclamou-se o sufrágio universal e práticas democráticas outras. Os antigos mandões da República se conformaram. Como não podiam impedir o acesso do povo às instituições e assembléias, o patriciado tratou de bajular as massas.
 As células democráticas controlam o corpo |
Percebeu ele a existência de uma dinâmica irrefreável na democracia. A cada concessão arrancada aos ricos, o regime popular avançava para outra exigência, e desta para mais outra ainda. Convenceu-se, então, que lá "o voto universal dá, pois, realmente, aos pobres o governo da sociedade". Tanto era assim que dois anos antes de Tocqueville desembarcar, em 1829, Andrew Jackson assumira a presidência dos Estados Unidos (um coronel da milícia da fronteira e plantador do Tennessee), claramente apoiado no voto das classes de menor renda da sociedade norte-americana.
O poder local
Vindo de uma França de tradição centralista, onde durante o Antigo Regime o Palácio de Versalhes mandava em tudo (situação que se acirrou depois da Revolução de 1789 com a ditadura de Robespierre, estabilizando-se no império de Napoleão), Tocqueville espantou-se com a pujança e autonomia política das pequena comunidades norte-americanas. Os municípios (county) eram tudo, como se fossem as células vivas do regime. Deles partiam iniciativas que, num movimento ascendente, chegavam até as altas esferas do Estado e da União. E isso era possível exatamente porque o poder central era limitado. A autoridade lá de Washington não amealhava força suficiente para intrometer-se no que ele chamou de "sociedade comunal". O país nada mais era do que centenas de pequenas localidades - de
 O comitê da declaração da independência (1776) |
dois ou três mil habitantes - controladas pelo povo. Um gigantesco corpanzil político dominado pelas articulações e artelhos menores. Os indivíduos que o compunham, não tendo soberano, eram os soberanos de si mesmos. Se o americano não sentia-se obrigado a tirar o chapéu para ninguém, colocava-o sobre a sua própria cabeça.
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