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China - 1ª Parte (1842-1949)
A Revolução chinesa: da agressão
Ocidental ao Maoísmo

De Kiangsi a Yenan (1928-1937)


Estado-maior revolucionário em 1931, entre outros Chu Teh e Mao Tse-tung

Isolados numa província interiorana, os comunistas aparentemente encontravam-se neutralizados naquele fim-de-mundo. Chiang Kai-shek inclinou-se então para a campanha ideológica estimulando o Movimento "Vida Nova", lançado como antídoto à influência marxista que ainda pairava nos meios intelectuais e estudantis das grandes cidades. A orientação do Kuomintang, cada vez mais direitista, fez com que o "Vida Nova" se abeberasse no fascismo, em alguns elementos do cristianismo e, sobretudo, na restauração confuciana. O domínio que o caudilho militar exerce sobre o país, é no entanto precário. Para solidificar sua autoridade e ao mesmo tempo combater o maoísmo, Chiang Kai-shek estabelece uma série de acordos com os senhores da guerra e aproxima-se da Alemanha Hitlerista, que lhe fornece equipamentos militares, instrutores qualificados, e até um número razoável de aviões de guerra. Com eles esperava poder fustigar os comunistas nas montanhas longínqüas. Este alinhamento com a Alemanha Nazista gorou quando o Japão, aliado preferencial de Hitler, atacou a China em 1937. O generalíssimo Chiang Kai-shek então buscou auxílio junto aos Estados Unidos, interessados por sua vez em impedir a expansão nipônica.

Estabelecidos no feudo vermelho de Kiangsi, os maoístas suportaram milagrosamente quatro grandes "campanhas de extermínio" ordenadas por Chiang Kai-shek. Refletindo sobre as peculiaridades dessa situação incrível, que permitiu a resistência do seu partido apesar dos ataques sistemáticos dos nacionalistas, Mao Tse-tung indicou as seguintes razões: a) as contradições e lutas entre as diversas camarilhas de caudilhos militares refletem as contradições e lutas entre as potências imperialistas", impedindo a formação de uma frente interna sólida o suficiente para liquidar com ele; b) a sobrevivência de feudos vermelhos "somente é possível num país como a China, economicamente atrasado, semicolonial e dominado indiretamente pelo imperialismo", alicerçado pelas rivalidades dos senhores da guerra, tendo como pano de fundo "uma economia agrícola local não unificada pelo capitalismo" - resultado da múltipla dominação que a China sofria.

Ele acreditava no sucesso futuro dos comunistas na medida em que o Kuomintang não conseguiu realizar as mínimas reformas necessárias para fazer a China transitar para uma libertação nacional autêntica e completa. Interpreta o fracasso dos nacionalistas na medida em que tanto a burguesia nacional como a burguesia "compradora", que a ditadura Chiank Kai-shek representa, temem o enfrentamento mais radical e definitivo com as potências coloniais, tornando-se incapazes de realizar aquilo que denomina de "revolução democrática chinesa", que implicaria simultaneamente "derrotar o imperialismo e seus instrumentos, os caudilhos militares", e realizar a "revolução agrária para liquidar a exploração feudal dos latifundiários sobre os camponeses". Portanto, tanto o movimento republicano de 1911, como o movimento nacionalista de 1923, fracassaram no seu objetivo maior, configurando-se como "revoluções burguesas abortadas". Assim só restou ao Partido Nacionalista virar num movimento contra-revolucionário (7).

Finalmente, somente no biênio de 1933/34, os nacionalistas puderam dispor de farto armamento e de instrutores militares alemães, supervisionados pelo general von Seeck, que permitem apertar o cerco e quase derrotar o Exército Vermelho. A liquidação dos sovietes rurais não foi completa graças à modificação da conjuntura internacional. Em primeiro lugar, a ascensão do nazismo obrigou a uma alteração na estratégia do movimento esquerdista em escala internacional. Apartir do 7º Congresso do Komintern, realizado em agosto de 1935, a determinação da Internacional Comunistas controlada por Stalin era pela formação de "Frentes Populares" que congregassem todas as forças antifascistas numa frente de luta em comum. Comunistas deviam aliar-se aos sociais-democratas e aos liberais anti-fascistas no mundo inteiro. Em segundo lugar, a China encontrava-se ameaçada pela expansão japonesa.

Desde 1931, aproveitando-se de um incidente forjado em torno de uma estrada-de-ferro na fronteira da Manchuria, os nipônicos transformaram as províncias do noroeste da China num "protetorado" - o Manchukuo, fundado em 1932, colocando nele como governante um fantoche dos nipônicos - o ex-imperador Puyi (ele fora deposto ainda menino em 1911). Um enorme naco do território chinês simplesmente foi engolido pelos miliatristas japoneses.

Em vista dessa ameaça, cresceu em toda a China o clamor para que nacionalistas e comunistas cessassem a luta e se unissem para enfrentar a agressão japonesa que se avizinhava terrível. (7) Mao Tse-tung - Por que pude existir el poder rojo em China? In Escritos Militares, p. 5 e segs.

A Longa Marcha: aproveitando-se da hesitação dos nacionalistas em dar o golpe final nos comunistas cercados, Mao Tse-tung, juntamente com seu comandante militar Chu Teh, resolveram-se por uma retirada. Começava então o episódio que celebrizou-se na história chinesa como a Longa Marcha (outubro de 1934 - outubro de 1935), que foi o grande épico do movimento maoísta. Combatendo ao mesmo tempo em que se retirava, o Exército Vermelho conseguiu romper com quatro linhas de cerco que os nacionalistas haviam construido para impedi-los de fugir. Houve momentos extraordinários quando por exemplo atravessaram o caudaloso rio Wu em jangadas de bambu e derrubaram as defesas dos inimigos na outra margem, ou ainda a incrível passagem pela ponte pêncil do Luding, estendida sobre o rio Datong, quando um punhado de homens armados de granadas, equilibrando-se como podiam, transpuzeram-na asseguraram a sua posse, permitindo com seu destemor que a marcha seguisse em frente. No total estimou-se que o Exército Vermelho, que nesta retirada chegou a roçar nas fronteiras do Tibet, percorreu 10 mil quilometros a pé pelo interior da China em busca de um refúgio permanente. No trajeto, dizimados pela fome, pela doença - na travessia do monte Grande Neve, de 5 mil metros de altitude, Mao Tse-Tung teve que ser carregado porque a malária o derrubara - pelos combates e escaramuças que enfrentaram, apenas uns 8 ou 9 mil guerrilheiros, dos 80 mil que partiram de Kiangsi, sobeviveram. Alcançaram Yenam, a capital da província de Shensi, no remoto noroeste do país, em farrapos, meio mortos-vivos. A região semi-deserta, de pura pedra - limitava-se com a Mongólia interior e estava protegida pela Muralha da China -, serviu como um santuário ideal, distanciada o bastante para manter os maoístas a salvo dos ataques do Kuomintang. (8).

(8) Já se encontravam em Shensi cerca de 15 mil guerrilheiros,vindo de outras partes do país. Posteriormente Yenan tornou-se centro de uma infindável romaria de camponeses, intelectuais e estudantes bem como de soldados e oficiais nacionalistas desiludidos com o pouco empenho de Chiang Kai-shek na guerra contra os japoneses.


Mao Tse-tung com sua segunda mulher, Ho Tzu-ch'en

A "Longa Marcha" transcendeu em importância ao notável feito militar, provocando conseqüências políticas de longo praso nos destinos futuros do país. Antes de tudo, assegurou a sobrevivência do movimento comunista na China, pois não se tratava apenas em alguns combatentes que se deslocavam e sim de que com eles bivaqueava todo alto comando do partido - o birô político, o comitê central e seus serviços, enfim todos os responsáveis políticos e militares existentes no momento. A destruição deles liquidaria o partido em definitivo e dificilmente os camponeses seriam capazes por si sós de se organizarem sem a armadura militar e intelectual fornecida pelos maoístas. Por último, a "Longa Marcha" contribuiu para dar ao PC chinês a mais ampla autonomia em relação a Moscou, projetando Mao Tse-tung como um líder de dimensões nacionais, e não um títere dos soviéticos, além de envolver o partido comunista chinês numa aura de invencibilidade e indestrutibilidade aos olhos da população rural.

O incidente de Sian: ao tentar reanimar suas tropas para o combate contra os comunistas, ignorando a ameaça cada vez maior da presença japonesa, o generalíssimo Chiang Kai-shek, ao visitar a guarnição militar de Sian, provocou um motim das tropas comandadas pelo Jovem Marechal Zhang Xueliang, que o deteve em 12 de dezembro de 1936. O qual só o libertou duas semanas depois, no Natal de 1936, com a promessa formal do generalíssimo de dali em diante concentrar os esforços nacionais somente na luta contra o Japão. Este inusitado episódio, onde o generalíssimo do exército chinês foi seqüestrado por um dos seus marechais, abalando a sua autoridade - chamado de incidente de Sian -, era demonstrativo da insatisfação com que Chiang Kai-shek conduzi o país. A exigência de uma cessar fogo entre os rivais partia não apenas dos oficiais do Exército governamental mas também da intelectualidade e dos estudantes. Não foi necessário esperar muito tempo para que o acordo entre os nacionalistas e comunistas se concretizasse, pois a 7 de julho de 1937 os nipônicos, depois dos graves incidentes na Ponte de Marco Polo (Lukeukiao), a 10 quilometros de Pequim, desencadearam a ofensiva geral sobre as províncias do Norte chinês. Começava naquele ano, dois anos da guerra generalizar-se pela Europa, uma das mais longas e brutais conflagrações da História Contemporânea, que vitimou 10 milhões de chineses (grande parte deles civis) e que só se encerraria em 1945 com a capitulação do Japão.

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