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China - 1ª Parte (1842-1949)
A Revolução chinesa: da agressão
Ocidental ao Maoísmo

A revolução camponesa

"Dentro de pouco tempo, centenas de milhões de camponeses das províncias do centro, do sul e do norte da China se levantarão como uma tempestade, um furacão, como uma força impetuosa e violenta que nada, por poderoso que seja, os poderá deter. Romperão com as amarras e se lançarão pelo caminho da liberdade. Sepultarão a todos os imperialistas, caudilhos militares, funcionários corruptos e déspotas locais. Todos os partidos e camaradas revolucionários serão submetidos a prova perante os camponeses e terão que decidir de que lado se colocam (...)" - Mao Tse-tung "Relatório s/uma investigação do movimento camponês em Hunan, in Obras Escogidas, v. 1, p. 19-20.


A fome, o estigma imemorial da China (1930)

Depois da fragorosa derrota de 1927, o PC chinês foi obrigado a rever sua estratégia de ação política, pois suas organizações urbanas foram dizimadas. Com o afastamento de Chen Tu-siu, a liderança de fato do PC passou para Mao Tse-tung, um revolucionário autodidata, originário da província de Hunan, onde nascera em 1893, filho de uma família de camponeses remediados. Mao Tse-tung, um homem sempre preso as coisas da terra, manifestara velada oposição ao descaso que a direção partidária comunsta tinha para com os camponeses. Um pouco antes do desastre de 1927, fez circular seu célebre relatório sobre as observações que ele fizera sobre a gente do campo na sua província natal. Notando a iniciativa revolucionária deles, disse ele "quem tenha arraigadas concepções revolucionárias e vá alguma vez ao campo e veja o que ali sucede, seguramente se encontrará mais alegre do que nunca. Milhões de escravos...os camponeses estão derrubando seus inimigos, os devoradores do homem (...). Todos os revolucionários devem compreender que a revolução nacional exige uma grande transformação no campo". Mao Tse-tung relatou como os camponeses de Hunan espontaneamente se organizavam para diminuir o poder dos déspotas locais, combater o banditismo, expurgar o vício do ópio, fixar multas aos especuladores, etc... A antiga imagem do homem do campo chinês, paciencioso, humilde, servil e fatalista, deveria ser reavaliada. Havia uma revolução social em andamento no interior da China e os comunistas estavam à margem dela.

Mais adiante no relatório estabelece os pesados cânones a que os chineses estão submetidos e alerta para a sua decomposição: "Na China, os homens vivem dominados geralmente por quatro sistemas de autoridade: 1) o sistema estatal (a autoridade política, estruturada em órgãos de poder em nível nacional, provincial, distrital e cantonal; 2) o sistema de clã (autoridade do clã), que compreende desde os templos ancestrais no clã, na linhagem chegando até os chefes de família; 3) o sistema sobrenatural (a autoridade religiosa) constituído por um conjunto de forças subterrâneas, o rei dos infernos, o deus protetor das cidades e as divindades locais, e pelas forças celestiais; deuses e divindades, desde o Imperador dos Céus até os mais diversos espíritos"; e 4) o sistema marital, que obriga a esposa a uma espécie de submissão permanente ao marido e ao resto da familia dele. Concluiu que "estas quatro formas de autoridade, a da política, do clã, a religiosa e a marital, encarnam a ideologia e o sistema feudo-patriarcal em seu conjunto e são as quatro cordas que mantém amarrado o povo chinês". Mao Tse-tung proclama ao que restou do PC chinês a abraçar a causa camponesa e dirigir o poderoso "furacão" no sentido de transformar radicalmente a sociedade.

Desde 1928, Mao Tse-tung e encontra-se refugiado nos montes de Ching-keng, na Província de Kiangsi, que lhe fornece um abrigo natural, permitindo-lhe sobreviver às constantes investidas do exército nacionalista que mantém um cinturão de fortificações ao redor dele. Lá, no que ele em 1930 designara como "Governo provincial soviético de Kiangsi", recebeu a adesão de Chu Teh, um hábil estrategista militar nascido em 1886, um perito em guerra camponesa, e que foi um dos mais célebres dos comandantes vermelhos. Aquela região inóspita e afastada lhe servirá como a primeira base e como laboratório para suas experiências sociais no que toca à organização do trabalho coletivo, à supressão da propriedade da terra e a difusão do ensino das primeiras letras.O entusiasmo do Comitê Central comunista apesar das derrotas era tal que chegou ao exagero de proclamar em Jiuchin uma "República Soviética Chinesa" em 7 de novembro de 1931, tendo Mao Tse-tung como seu presidente.

O exército vermelho: se Napoleão considerava as campanhas militares "como o Estado em marcha", Mao Yse-tung considerará o seu exército como "a Revolução em marcha". No dizer de Guillermaz: "o exército vermelho se distinguiu de todos os demais por seu comportamento em relação às massas. Não se apresentava como o Exército da Nação, abstração difícil de captar, mas sim como Exército do Povo, ou seja das populações entre as quais vivia e que pretendia libertar, não só do estrangeiro e das forças reacionárias, senão também organizar as massas rurais superficial e profundamente." A organização geral dos vermelhos obedecia ao modelo ternário de três divisões (shih) por exército (chun), cada um com três regimentos (tuan) que se subdividiam em companhias, batalhões, seções e pelotões. Os oficiais eram eleitos pelas tropas e não usavam nenhuma insígnia, nem gozavam de nenhum privilégio. A doutrina básica apoiava-se em três regras e algumas "recomendações" que são: obedecer às ordens, não tirar nada da população, nem sequer fio e agulha e entregar às autoridades os "bens confiscados". Dada a tradição do soldado-saqueador tão comum na história chinesa, não é de admirar que o Exército Vermelho fizesse por conquistar as simpatias da população rural. Mao Tse-tung por sua vez apoiou vigorosamente Chu-Teh no desenvolvimento e aperfeiçoamento de uma estratégia própria para a atuação nas condições que enfrentava, baseada na guerra de guerrilhas que será muito útil aos comunistas, não só contra as tropas nacionalistas como também contra os japoneses. Ela assentava-se em quatro proposições bem simples: " se o inimigo ataca, eu retrocedo; se o inimigo recua, eu o persigo; se o inimigo se detém, eu o hostilizo; se o inimigo se reagrupa, eu me disperso". (6). Deve-se a este "Napoleão Vermelho"a transformação da guerra de guerrilha, considerada pelos militares em geral como uma atividade de menor importância, de apoio apenas, numa arte digna dos grandes estrategistas. Chu Teh conseguiu ainda a façanha de aumentar o seu exército de 5 mil integrantes em 1929 para 200 mil em 1933. (6) Snow, Edgar - Red. Star Over China, p. 202.

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