Introdução | Antecedentes históricos da China | A agressão ocidental | O movimento republicano | O impacto da Revolução Russa e a I Guerra Mundial | Nacionalistas e Comunistas: da colaboração à ruptura (1923-27) | A revolução camponesa | De Kiangsi a Yenan (1928-1937) | A Guerra Sino-Japonesa (1937-1945) | Da grande aliança à guerra civil (1945-49) | O pensamento político de Mao Tse Tung | Bibliografia
China - 1ª Parte (1842-1949)
A Revolução chinesa: da agressão
Ocidental ao Maoísmo
Nacionalistas e Comunistas: da
colaboração à ruptura (1923-27)
A aproximação no plano externo do Kuomintang com a URSS, e com o Kungchantang (PC chinês) no plano interno, foi uma decorrência lógica da postura política dos nacionalistas chineses nos seus primeiros anos de afirmação. Hostilizados pelos ocidentais que os viam com natural desconfiança, era plausível que os nacionalistas chineses procurassem a aliança com os soviéticos devido a política anticolonialista qu eles adotaram (a URSS anunciou publicamente em julho de 1919 a revogação de todos os privilégios que o império czarista anteriormente gozava na China, rejeitando os tratados expoliativos e indenizações que a Rússia forçara o império chinês a assinar). Ao representar as tendências da burguesia urbana, o Kuomintang guardava distância dos latifundiários rurais e dos senhores da guerra (que geralmente eram aliados de um ou outro poder colonialista), encontrando um denominador comum com os comunistas. Por outro lado a aproximação com o governo bolchevique concretizava a doutrina das "Três Políticas" fixadas por Sun-Yat-sem: "colaboração com a URSS, colaboração com o PC chinês e apoio aos operários e camponeses".
 Taça de marfim incrustada com turqueza, encontrada no túmulo do rei Fu Hao, da dinastia Shang, 1200 a.C. |
Rapidamente os soviéticos, pondo em prática o Tratado Yoffe-Sun Yat-sen, trataram de enviar assessores para instruir militarmente os chineses. Em 1925, fundou-se a Academia de Whampoa dirigida por Chiang Kai-shek, um oficial nascido em 1887, que servira inicialmente ao Japão e que depois convertera-se ao movimento nacionalista, tendo como seu adjunto o dirigente comunista Chou En-lai. O objetivo dessa escola militar era adestrar jovens oficiais chineses para formarem um novo exército nacional necessário à reunificação do país, dilacerado pelos conflitos entre os senhores da guerra e pela aviltante presença estrangeira. Os comunistas encarregaram-se de fornecer os quadros políticos e administrativos, mas numericamente são pouco significativos (5). Mesmo assim, os setores direitistas do Koumintang manifestam sua desconfiança para com eles e cerceiam suas atividades. O número de militantes do PC chinês é de 57 membros em 1921, 123 em 1922, 342 em 1923 e 955 em 1925. Em 1927, ano da ruptura com Kuomintang, possuía 57.963 membros.
Enquanto isto o estilhaçamento da China tinha sua continuidade; como Lucion Bianco apontou: "os efeitos mais evidentes das lutas destes senhores da guerra são a regionalização cada vez mais acentuada da vida política, o debilitamento do Estado, a secessão da China meridional e, por fim, a opressão do povo, sobretudo das massas camponesas, aniquiladas pela passagem dos exércitos com sua seqüela de saques e extorsões, as abusivas tributações dos senhores provinciais, o recrudecimento da queda da produção e do consumo, seguido do abandono e deteriorização dos trabalhos de irrigação e prevenção de inundações. Afora a política espoliativa praticada pelas nações ocidentais".
Dotado de um exército razoavelmente disciplinado e lutando por uma causa - a causa da unidade nacional -, Chiang Kai-shek deu os primeiros passos em 1926 na "campanha do Norte" contra os senhores da guerra. No entanto a aproximação dos exércitos nacionalistas dos grandes centros urbanos, como Shangai e Cantão, fizeram com que as lideranças operárias, corporativas e sindicais, fortemente motivadas pelos comunistas, se lançassem em rebelião. Queriam tomar o poder naquelas cidades antes que o exército nacionalistas puzesse os pés nelas. Chiang Kai-shek ficou entre as duas alternativas: ou apoiava as comunas vermelhas recém instauradas ou as sufocava. Optou pela última alternativa. Ao ocuparem Shangai, Cantão e Wuhan, suas tropas lançaram-se num desapiedado massacre de sindicalistas e dos quadros comunistas. Liquidou 37.985 mil ativistas, sendo que mais 13 mil foram executados posteriormente. O resultado prático da ação repressiva dos nacionalistas foi o rompimento com a URSS e a quase total liquidação dos quadros urbanos do PC chinês. Desde então abriu-se uma trincheira de sangue entre nacionalistas e comunistas que nunca mais voltou a fechar.
Em junho de 1930, seguindo a determinação do Potiburô liderado por Li Li-san, os comunistas fizeram sua última e infrutífera tentativa de atacar as cidades, acreditando ainda no mito do marxismo clássico da revolução operária, sendo porém escorraçados. Aparentemente derrotados, os vermelhos refugiaram-se em pequenas fortificações no interior do país para evitarem um massacre final. Com a repentina direitização do Koumintang, que levou-o por um tempo até a aproximar-se da Alemanha Nazista, o que de fato se iniciou a partir dos massacres de 1927 era a mais longa guerra civil dos tempos modernos, uma guerra civil que só iria terminar vinte e dois anos depois com a vitória de Mao Tse-tung em 1949.
| 