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China - 1ª Parte (1842-1949)
A Revolução chinesa: da agressão
Ocidental ao Maoísmo

O impacto da Revolução Russa e
a I Guerra Mundial

O impacto da Revolução Russa de 1917: a tomada do poder pelos bolcheviques na Rússia, em 1917, teve enorme repercussão sobre os povos coloniais. A partir de 1918 registra-se internacionalmente uma radical mudança na postura em relação às regiões dominadas pelas potências européias. Tanto o Presidente Wilson dos Estados Unidos, como Lenin chefe do Comitê Central do PC da URSS, esboçam estratégias alternativas à situação colonial, que ambos ao seu modo consideram historicamente superadas. Já nos "14 Pontos" do Presidente Wilson foi feita referência explícita a que os países colonizadores deviam governar doravante "no interesse dos povos por eles submetidos". Lenin tinha uma proposta mais radical, recomendou aos asiáticos e aos africanos que lutassem contra o colonialismo, que desse fim à dominação imperialista. A atenção dos bolcheviques pelos assuntos asiáticos aumentou na medida em que a Revolução socialista ficou circunscrita à Rússia, não se expandindo pelo resto da Europa industrializada como esperavam. No 11º Congresso da Internacional Comunista vamos encontrar a elaboração das táticas a serem adotadas sobre a questão colonial, recomendando-se que:

"...todos os partidos socialistas devem ajudar ao movimento democrático-burguês de libertação de seus países" ao mesmo tempo em que devem "apoiar especialmente os movimentos camponeses nos países atrasados contra os latifundiários, contra todas as sobrevivências do feudalismo e esforçar-se por adotar o movimento camponês de um caráter mais revolucionário, estabelecendo uma aliança, a mais estreita possível, entre o proletariado socialista da Europa Ocidental e movimento revolucionário dos camponeses do Oriente..." (3).

Até então, as idéias socialistas eram apanágio de uma escasso grupo de intelectuais ocidentalizados que se concentravam em Pequim. Os principais textos marxistas, como o "Manifesto Comunista", haviam sido publicados em 1906 e de forma completa em 1919/20. Somente em 1923 começaram a serem editadas as traduções sistemáticas de Marx, Engels e Lenin. (3) Lenin, V.I. El despertar de Asia, 1920

O nacionalismo chinês encontra-se com o marxismo: entre esses admiradores da revolução russa encontrava-se Li Ta-chao, o bibliotecário-chefe da Universidade de Pequim, um intelectual prestigiado e reconhecido editor de revistas, que era também um nacionalista que sofria em ver a China ser tantas vezes humilhada. A Revolução Russa pareceu-lhe a redenção dos chineses. Num famoso artigo ele enalteceu o governo de Lenin dizendo que "a vitória do bolchevismo dá o sinal à revolução mundial do século 20", depositando suas esperança de que a teoria leninista pudesse também emancipar os asiáticos. Viu no erguimento da URSS uma nova civilização, diferente da Ocidental e da Asiática e capz, por sua posição geográfica, de intermediar no futuro as relações entre o Oriente e o Ocidente. No pequeno círculo de estudos que ele organizou em 1918 - Sociedade de Pesquisas Marxistas - para estudar a experiência russa, acolheu um jovem hunanês que também trabalhava na biblioteca como ajudante: Mao Tse-tung. Como o papel do proletariado na China era de pouca significação, visto o país ser habitado por "mar de camponeses", Li Ta-chao cunhou a expressão "nação proletária" para integrar a China inteira na doutrina marxista, porque ela estava à mercê da exploração de todos os paises industriais. A teoria da "nação proletária" enfrentando um mundo hostil, dominado por grnades potências, irá ressurgir nos anos 60 quando Lin Piao, então o braço direito de Mao Tse-tung, a fez reviver para explicar a posição da China Popular frente à URSS e aos E.U.A. simultâneamente.

O Partido Comunista Chinês, por sua vez, foi fundado discretamente por um letrado chamado Chen Tu-hsiu, na cidade de Shangai em 1921 (por incrível que pareça numa das salas de um colégio católico para moças), estando presentes 57 membros-fundadores, entre os quais Mao Tse-tung.

O Pacto Yoffe - Sun Yat-sen: a URSS seguindo a estratégia de apoiar movimentos nacionalistas anticolonialistas, procurou aproximar-se diplomaticamente do Koumintang. Para sedimentar a aliança entre os comunistas russos e os nacionalistas chineses assinaram o "Pacto Yoffe - Sun Yat-sen" em 1923, segundo o qual os soviéticos passariam a dar assistência administrativa e militar para reforçar politicamente os nacionalistas chineses, ao mesmo tempo em que ordenavam ao esquálido PC chinês a dar seu apoio integral ao Kuomintang.

O Movimento Quatro de Maio de 1919: outro fator de grande importância no desenvolvimento da história revolucionária da China foi a Primeira Guerra Mundial. Em 14 de agosto de 1917, os chineses declaram guerra à Alemanha na esperança de contar com a colaboração das potências colônias no período pós-guerra. Solicitavam que a) as grandes potências renunciassem às suas esferas de influências na China, b) que as tropas estrangeiras fossem retiradas, c) que lhes fossem abolidas a jurisdição consular e os correios postas estrangeiros e, por último d) que lhes fossem devolvidas as concessões e territórios arrendados, bem como a restituição das alfândegas. No grande tratado de Paris de 1919, acertado entre vencedores e derrotados da Iª Guerra Mundial, as demandas chinesas para por fim ao estatuto semicolonial em que a China se encontrava não foram aceitas, pois a Inglaterra, a França e o Japão negaram-se a acatá-las, apesar delas terem o apoio do Presidente Wilson.

O fracasso dos diplomatas chineses na conferência de paz de Paris provocou enormes manifestações estudantis em Pequim, voltadas não só contra a dominação estrangeira como contra a impotência do governo. A explosão social que teve início em 4 de maio de 1919 estendeu-se por diversas regiões do país congregando estudantes, jornaleiros, artesãos e trabalhadores. Os ministros filo-nipônicos foram obrigados a renunciar e a China não assinou o Tratado de Paz. O que não alterou em nada a situação em que se encontrava. Para os historiadores da China Contemporânea porém, o Movimento Quatro de Maio é o marco da grande marcha rumo à libertação nacional. A rebelião estudantil e operária acendeu a chama do radicalismo político como exerceu enorme influência cultural com sua crítica acerbada ao confucionismo e ao imobilismo social da China. Os antigos valores entravam definitivamente em declínio. Para a nova geração de chineses urgia dotar o país de condições teóricas e culturais que superassem a mediocridade e a paralisia em que se encontrava, além da vexaminosa subordinação às potências colonialistas.

A insatisfação contra o Tratado de Versalhes tem reações distintas na Alemanha e na Itália, onde nazistas e fascistas vão capitalizar a frustração nacional gerada pela iniqüidade do Tratado e igualmente denunciar a fraqueza dos seus governantes perante as potências vencedoras.


Lu Sun, símbolo dos letrados engajados (1930)

Lu Sun e a rebeldia dos letrados: o mais representativo nome da rebelião dos letras estimulada pelo Movimento Quatro de Maio foi o escritor e tradutor Lu Sun (ou Zhou Shuren). Ele, como tantos outros jovens participou do êxodo de estudantes chineses para o Japão que deu-se no final do século 19. Quando porém em 1905 deparou-se com um diapositivo que mostrava os japoneses executando um chinês perante uma multidão apática de outros chineses, ele percebeu que de nada iria lhe servir o curso de medicina. Constatou que o mal da China não era físico, mas sim cultural e espiritual. Decidiu-se então pela literatura. Ao mesmo tempo dedicou-se à tradução de obras européias ou russas, para que os estudantes chineses se atualizassem nas discusões que corriam o mundo naquela época.

Imbui-se em transformar sua literatura numa arma de denúncia, ou como diziam na época "revirar a terra com a sua pena". Lu Sun abominando o confucionismo, atacou o atraso cultural e a covardia moral dos seus conterrâneos. Tornou-se o maior contista da China moderna, num estilo que lembra muito o despojamento do russo Gorki e um clima narrativo inspirado no universo sombrio de Dostoievski. Sentia-se, como ele escreveu a um amigo, como um homem ao lado de uma caixa de ferro que vê as pessoas presas lá dentro e que começa a gritar do lado de fora para que pelo menos alguns deles acordem e se dêem conta da situação miserável em que se encontram. Os jovens estudantes captaram esse sentido dizendo que iriam "lutar contra as forças da escuridão com os nossos punhos desarmados". Em 1930 Lu Sun ingressou na Liga dos Escritores de Esquerda que, dominada pelo ambiente stalinista, lhe pareceu "asfixiante", parecendo a ele que tivessem lhe pregado uma corrente de ferro nos pés.

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