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China - 1ª Parte (1842-1949)
A Revolução chinesa: da agressão Ocidental ao Maoísmo

A agressão ocidental

"A primeira condição de preservação da Velha China era seu total isolamento. Uma vez que a Inglaterra deu fim brutal a esse isolamento, a decomposição sobrevirá com a mesma inexorabilidade de uma múmia retirada do hermético sarcófago em que estava preservada e exposta ao ar livre". - Karl Marx (Revolution in China and in Europa, 1853)


O portão de Shouzou, visão idílica da China em 1734

O litoral da China começou a ser assediado pelos brancos no século 16, quando navios portugueses (chegaram a Macau em 1513), e em seguida espanhóis e holandeses, tentaram obter concessões comerciais junto às autoridades do Reino Celestial. Os imperadores chineses porém foram sempre muito parcimoniosos e cuidadosos em ofecer vantagens econômicas ou facilitações outras aos europeus. Confinaram o comércio com "os bárbaros", como eles os chamavam, a alguns portos do sul da China, especialmente no porto de Cantão (Guangzhou) às margens do Rio das Pérolas. Mas essa posição de fechamento ao mercado externo ficou insustentável com a progressiva presença do homem branco no Mar da China nos séculos 17, 18 e 19. Após a conquista definitiva da Índia pela Companhia Inglesa das Índias Orientais ocorrida no século XVIII, os agentes e os mercadores britânicos, cientes da sua superioridade militar e técnica, lançaram-se sobre o litoral da China. O principal produto que ofereciam aos chineses era o ópio que traziam contrabandeado das suas plantações da Índia. Caixas numerosas do entorpecente eram transportadas clandestinamente para o porto de Cantão em troca de prata e das apreciadas mercadorias chinesas, como a seda, a porcelana e o chá.

As guerras do ópio: devido aos deletérios efeitos da droga sobre o seu povo, o imperador Daoguang designou o mandarim Lin Zexu, um alto funcionário governamental, para que executasse, a partir de Cantão, uma política de confisco sistemático do produto mortífero. As apreensões das caixas de ópio contrabandeado, seguida de prisões e expulsão dos principais traficantes, serviu de pretexto para a Inglaterra declarar guerra à China, na chamada Primeira Guerra do Ópio (1839-42). Exibindo uma invencível superioridade tecnológica, representada pelo navio de ferro "Fenix", a esquadra inglesa atacou e afundou boa parte dos inoperantes juncos de guerra chineses. Em seguida bloqueou os principais escoadouros mercantis chineses, forçando o imperador à rendição. Inferiorizados tecnicamente, os governantes manchus aceitaram assinar o humilhante Tratado de Nanquim em 1842.

Os tratados infames: obrigou-se a China, depois de derrotada, a abrir cinco dos seus portos em caráter permanente, assim como ceder Hong-Kong aos comerciantes ingleses. O sucesso militar-diplomático da Inglaterra serviu de estímulo para que as demais nações colonialistas assaltassem às costas chinesas. Depois da 2ª e 3ª Guerras do Ópio, travadas em 1856 e 1858, mais onze portos foram abertos aos ocidentais. O impacto das mercadorias européias sobre a produção artesanal chinesa foi socialmente terrível. O desemprego e a fome passaram a ser uma constante, tanto nas populações urbanas como das rurais. Para poder pagar pelas mercadorias importadas, os manchus e a aristocracia rural passaram a oprimir os camponeses de forma mais intensa. As regalias que os mercadores estrangeiros usufruem no país são vexatórias. Desde 1861 as alfândegas chinesas são controladas por funcionários europeus e o privilégio da extraterritorialidade permite que eles escapem às leis chinesas. Seus cônsules têm poderes que extrapolam as simples funções diplomáticas. As "concessões" são de fato anexações disfarçadas que permitem inclusive a liberdade de circulação das marinhas de guerra estrangeiras pelos rios chineses, onde dobram aos seus interesses algum mandarim recalcitrante.

Essa prepotência dos estrangeiros chegou a tal ponto que eram bem visíveis nas entradas de alguns parques públicos das grandes cidades chinesas, como em Pequim e em Shangai, de uma placa com os dizeres: "proibida a entrada de cães e de chineses!"

O Movimento Taiping: a impotência da elite tradicional e a inoperância da dinastia manchu em enfrentar as sucessivas degradações impostas pelos ocidentais contribuiu para criar um clima favorável à rebelião da massas. Durante treze anos (1851-1864) o movimento social-religioso dos Taiping, liderado por Hong Xiuquan, que proclamou-se Rei Celestial da Grande Paz elegendo Nanquin como sua capital, tentou formar um governo alternativo ao poder imperial, o Reino Taiping. Os taipings surgiram de um duplo protesto, contra a presença estrangeira e contra o governo imperial manchu. Esta luta fraticida enfraqueceu ainda mais a autoridade central, pois o imperador para manter-se viu-se contrangido a apelar para os "notáveis rurais" que, em troca, reforçaram ainda mais sua autoridade regional e local, esgaçando ainda mais o poder central.

A modernização da China pelo alto: ao mesmo tempo que os taipings são sufocados, emerge uma tentativa de modernizar a China "pelo alto"; é o Movimento Iang-wu (conduzir os negócios a moda ocidental) que se estende por vinte anos (1860-1880), seus integrantes vinha da elite palacina sofisticada, eram mandarins e acadêmicos, que pensavam em adotar técnicas militares e administrativas ocidentais ao mesmo tempo em que mantinham intactas as estruturas sociais e políticas da China(2). Concordavam na necessidade de modernizar a estrutura constitucional da monarquia chinesa, pois consideravam a prática do despotismo como algo anacrôncio e ultrapassado. Imaginavam que uma reestruturação juridica que aproximasse as instituições da China manchu do império constitucional inglês já sería um grande passo em direção a "reforma vinda de cima". A renovação das agressões externas (Guerra contra a França em 1884/5 e o Japão em 1894/5) sepultaram porém as tentativas "modernizantes" proclamadas pela elite imperial. "O saber ocidental só tem valor prático; o saber chinês constitui a base da sociedade".

Os efeitos do capital externo: a presença do capitalismo estrangeiro acabou por realizar um importante papel em acelerar a degradação do regime econômico-social da Velha China. A penetração das mercadorias ocidentais abalou profundamente a sua milenar economia rural ao mesmo tempo em que arruinou o artesanato urbano e rural. Formou por outro lado alguns modernos bolsões industriais e mercantis nas zonas portuárias situadas no Mar da China. Shangai foi o maior exemplo. Nos finais do século XIX vamos encontrar o florescimento de uma burguesia nacional que emergiu dos antigos estratos comerciais, rurais e burocráticos chineses e que começa a realizar investimentos no setor industrial. Esta burguesia sente-se manietada no seu crescimento por um conjunto de forças internas e externas (pelos latifundiários e pela burguesia "compradora", que tem como aliados externos as nações coloniais), fazendo com que mais tarde elaborasse um projeto político de autonomia nacional materializado na fundação do Kuomintang (Partido Nacional do Povo).

A divisão de classes tradicional da China, composta por letrados, camponeses, artesãos e comerciantes, que começa a se descompor, vê agora o surgimento de uma intelligentsia moderna de origem burguesa (que busca especializar-se no exterior) e um proletariado industrial que se forma graças aos investimentos estrangeiros em parques fabris. Como não podia deixar de ser, a ação dissolvente do capitalismo afetou a crença na ordenação social de inspiração divina e no "Mandato Celeste". A monarquia manchu caiu no descrédito, fazendo com que um movimento republicano que visava derrubar a Dinastia Ching ganhasse força.

O desprestígio imperial aumenta ainda mais na medida em que a China perde sua histórica hegemonia sobre as regiões tributárias (como a Indochina e a Birmânia) e dependentes (como o Turquestão, o Tibete e a Coréia), que são ocupadas pelas potências colonialistas (Inglaterra, França, Rússia e o Japão).

A divisão da propriedade agrária: no campo, as relações ainda permanecem estáticas por séculos a fio. Os grandes proprietários detêm o controle sobre 50% das terras aráveis, cabendo aos camponeses prósperos outros 35% delas, enquanto mais de quatrocentos milhões de camponeses pobres são obrigados a se contentar com os 15% restantes. Este imenso "continente de camponeses", é formado por trabalhadores dóceis, laboriosos, pacientes, geralmente analfabetos, que cultivam ancestrais e imutáveis costumes, ao mesmo tempo que são obrigados, pela miséria endêmica em que estavam condenados, a dar ou matar suas filhas ou preservar, em suas pobres choupanas, os ratos como um falso símbolo de abundância.

A penetração do capitalismo na China
(1873-1937)

Anos Imp. Milhares Exp. de yuans Carvão (T.) Minério de Ferro (T.) Fusos de Algodão Ferrovias
1873 103.487 108.449 - - - -
1892-93 235.823 181.713 - - 45.000 364
1903 509.059 333.961 - - 501.138 -
1910-12 721.299 593.337 9.067.862 723.430 736.332 9.618
1920 1.187.585 843.860 21.318.825 1.838.435 1.450.840 -
1930 2.040.599 1.394.167 26.036.564 2.252.486 4.102.078 14.238
1937 941.545 705.742 37.230.946 3.819.691 5.102.796 21.036
N.B. Os números acima se referem ao conjunto do setor moderno (empresas estrangeiras na China e chinesas)



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