Introdução | Antecedentes históricos da China | A agressão ocidental | O movimento republicano | O impacto da Revolução Russa e a I Guerra Mundial | Nacionalistas e Comunistas: da colaboração à ruptura (1923-27) | A revolução camponesa | De Kiangsi a Yenan (1928-1937) | A Guerra Sino-Japonesa (1937-1945) | Da grande aliança à guerra civil (1945-49) | O pensamento político de Mao Tse Tung | Bibliografia
China - 1ª Parte (1842-1949)
A Revolução chinesa: da agressão
Ocidental ao Maoísmo
O pensamento político de Mao Tse Tung
 7 mil estátuas feitas de terracota em tamanho natural. Elas representam o poderio do Primeiro Império de Qin, 210d.C. |
Mao Tse-tung ocupa um lugar especial como teórico no movimento marxista. Tornou-se um dos maiores estrategistas dos países do Terceiro Mundo ao elaborar uma doutrina teórico-prática adaptada às peculiaridades da Ásia colonizada e semi-colonizada: uma fusão de nacionalismo (reconhecendo a importância das expressões da cultura nacional) com o marxismo (o conceito de lutas de classe e a perspectiva internacional). Os principais textos de militares e politicos de Mao Tse-tung, com exceção do renomado "relatório", foram escritos depois da Longa Marcha quando ele fixou-se em Yenan e encontrou o tempo necessário para pensar e redigir. Num primeiro momento, como se sabe, os marxistas chineses, na época da fundação do PC chinês no começo dos anos 20, estavam - como os demais marxistas espalhados pelo mundo - embebidos pelos conceitos bolcheviques, com sua ênfase na classe operária e nas lutas urbanas. Para eles, era indiscutível que a liderança na luta contra o imperialismo e a estrutura feudal ainda vigente na China cabia ao proletariado industrial, à gente das grandes cidades, restando aos camponeses a função de "reserva tática".
A primeira mudança nessa orientação foi lançada por Mao Tse-tung com seu "Relatório sobre a província de Hunan" aparecido em 1927. No entanto, isso só lhe causou dissabores. Os militantes do PC chinês daquela época estavam fascinados pela Revolução Russa e continuavam estruturalmente vinculados às áreas urbanas, mostrando-se reticentes em aceitar a "hegemonia camponesa", proposta implicitamente no relatório. A ruptura com o Kuomintang em 1927 e a caça aos quadros comunistas urbanos que se seguiu vieram dar razão a Mao Tse-tung.
A política da Frente Popular: na década de trinta, respirando o clima de "Frente Unida" contra a expansão japonesa e contra o nazi-fascismo, observa-se um abandono por parte de Mao Tse-tung de suas posições mais radicais contidas no "Relatório" de 1927. A premência em derrotar os japoneses obrigou-o a alterar substancialmente a política agrária igualitária que defendera nos tempos de Kiangsi, pois doravante tratava-se de conseguir obter a adesão de um leque social o mais vasto possível, que englobasse não só os camponeses pobres, mas todos os que exploravam as terras com suas próprias mãos, o que incluía os chamados camponeses remediados e até mesmo os ricos que não haviam se seduzido pelo colaboracinismo. Devia isolar-se apenas os latifundiários e os usuários, geralmente simpáticos ao invasor. A política de frente ampla levou Mao a reconhecer potencialidades revolucionárias na burguesia nacional chinesa, na medida em que tanto os japoneses (pela ocupação e expropriação) como os ocidentais (pelos tratados econômicos e acordos comerciais) impediam o crescimento econômico e social dela.
Exemplo dessa moderação foi a formação de governos aldeãos nas áreas ocupadas pelos comunistas, onde os militares do PC tinham sua presença limitada a 1/3 dos representantes, deixando as demais classes comporem os restantes. Para proteger os camponeses pobres, limitou-se sua contribuição em espécie a 30% da colheita, mantendo-se a pratica da conciliação com os arrendatários. Mao Tse-tung compreendia perfeitamente bem que os camponese chineses não se tornavariam revolucionários do dia para a noite. Deparou-se com obstáculos milenares, entre elas a tradição servil deles que só muito lentamente poderia ser subvertida. Era o ritmo dos acontecimentos, isto é, as pilhagens e saques feitas na área rural pelo Exército Imperial japonês e a inoperância do Exércio Nacionalista que fariam os camponeses reagir. E tudo isso demandava tempo.
O caminho da revolução social: este implicava na adoção de uma estratégia política própria. Taticamente, devido a insuficiência de forças, seja contra o Kuomintang, seja contra os japoneses, era preciso adotar a guerra de guerrilhas. Este tipo de luta tinha uma dupla função: formar um exército de novo tipo, estreitamente vinculado à causa do povo pobre, e partir para uma longa guerra contra os adversários, levando-os à inanição e ao desespero. A aglutinação de forças para a batalha definitiva só se daria na etapa final quando o inimigo não tivesse mais condições de resistir ao poder militar dos maoístas. Para a elaboração da sua doutrina, Mao Tse-tung publicou uma série de textos entre 1938 e 1940, que são os seguintes: Sobre a guerra prolongada (1938), A Revolução Chinesa e o Partido Comunista da China (1939), e Sobre a Nova Democracia (1940).
A Nova Democracia: Mao Tse-tung neste último texto, elabora a teoria que lhe servirá de orientação na condução da guerra contra o Japão e no posterior enfrentamento com Kuomintang. Num primeiro momento ele acredita que a China passaria por duas etapas políticas distintas; a primeira delas seria dominada pela formação da Nova Democracia baseada numa ditadura policlassista. O estado futuro na China, ao contrário da ditadura monoclassista bolchevique na URSS, resultaria de uma aliança de várias classes sob hegemonia dos camponeses. Neste primeiro momento, o regime não será proletário nem burguês, mas democrático centralizado baseado em eleições em todos os níveis (das aldeias ao Congresso Nacional). A complementação econômica dessa fase será eclética: o estado será proprietário das atividades monopolíticas (bancos, indústrias importantes, infra-estrutura de transportes, etc...), formando o setor socialista da economia, constituíndo-se na força dirigente da economia nacional. Haveria a continuidade de toda uma gama de atividades de pequeno porte que se manteriam sob controle privado (artesanato, pequenas e médias indústrias e o comércio de pequeno porte). No campo só seriam expropriadas as terras dos latifundiários, mantendo-se a existência econômica do camponês rico, desde de que obedecido o princípio da "terra para quem nela trabalha". Após cumprida essa etapa - a da Nova Democracia -, é que a China estaria em condições de dar seu salto rumo ao socialismo, amplamente apoiada pela União Soviética. A velha sociedade semicolonial e semifeudal teria desaparecido e uma nova nação surgiria.
A Nova Democracia naufragou devido a Guerra da Coréia (1950-1953). A presença das Forças Armadas norte-americanas nas proximidades da fronteira da Manchúria chinesa e as ameaças da parte do General Douglas MacArthur, o supremo comandante americano na Ásia, de uma ataque atômico preventivo no território chinês fizeram com que as intenções conciliadores e moderadas dos primeiros tempos do maoísmo fossem rapidamente substituidas pela clima de "pátria em perigo", frustando assim os que esperavam uma atitude mais liberal por parte dos comunistas.
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