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China - 1ª Parte (1842-1949)
A Revolução chinesa: da agressão
Ocidental ao Maoísmo

Da grande aliança à Guerra Civil
(1945-49)


Óleo de Luo Zhong, intitulado "Meu Pai"

A divisão da China na época da Guerra sino-japonesa: desde 1941 vamos encontrar a China dividida mais ou menos em três áreas 1) a de domínio dos japonesas que ocupavam as regiões mais ricas e industrializadas do país, tendo Nanquim como sede do governo militar de ocupação, e que também abrigava o governo colaboracionista; 2) a que ficava sob controle de Chiang Kai-shek, o ditador chefe do Koumintang que instalara-se em Chung-King na Província de Szechwan no sul do país, onde passou a receber assistência militar anglo-americano e; 3) e o santuário de Mao Tse-tung, no afastado e paupérrimo enclave de Yenan na província nortista de Shansi, de onde partiam as diretivas da guerra de guerrilhas contra as zonas ocupadas pelos japoneses.

Japoneses (Exército imperial) Nacionalistas (Kuomintang) Comunistas (Maoístas)
Área de controle: Norte e Leste da China Área de controle: Sul da China Área de controle:Noroeste da China
Sede: Nanquin Sede: Chung-king Sede: Yenan

Chiang Kai-shek, temendo mais os comunistas do que os invasores, fez com que parte substancial do arsenal militar recebido dos aliados ocidentais fosse armazenado esperando a hora do acerto final de contas com Mao Tse-tung, que fatalmente se daria depois da Segunda Guerra encerrada. Envolvido por colaboradores corrompidos e especuladores de toda a sorte de coisas, terminou cedendo, pelos menos aos olhos da opinião pública chinesa, ao seu rival comunista a direção de fato da luta contra o Japão.

A infrutífera aliança: conforme o fim da guerra foi se aproximando, tornando inevitável a derrota japonesa, tanto os EUA como a URSS insistiram na necessidade de um governo de coalizão nacional para promover a unidade da China no período pós-guerra. Que Chiang Kai-shek e Mao Tse-tung encontrassem um meio de conviver. Este acerto entre os integrantes da Grande Aliança (EUA,GB e URSS) não se fez apenas na escala chinesa, sendo adotada internacionalmente. Stalin conclamou os comunistas a apoiar os governos anti-facistas que começaram a ser formados nos países já liberados, enquanto Roosevelt e Churchill, pelo lado deles, incentivavam a aliança da classe média liberal com os comunistas, pelo menos até a conclusão da guerra. Os desacertos da política estratégica chinesa eram tamanhos e a inoperancia dos exércitos do general Chiank Kai-shek era tão evidente que os Estados Unidos chegaram a tentar impor o General Stewell como supremo comandante das forças chinesas (unindo nacionalistas e comunistas), o que foi rejeitado com veemência pelo caudilho nacionalista (11).

(11) Os Estados Unidos enviaram duas missões para promover a conciliação entre nacionalistas e comunistas, a primeira chefiada pelo então vice-presidente, Henry Wallace em 1944, a Segunda pelo General Marshall em 1946. Quanto à corrupção no governo do Kuomintang é significativo o testemunho do General Stillwell que o definia como idêntico aos nazistas "...mesmo gênero de governo...o mesmo gangsterismo" (M. Crouzet, A época contemporânea: o Mundo Dividido, VIII, p. 227).

O acirramento da rivalidade entre Chiang e Mao: o avanço das forças soviéticas pela Manchúria a 8 de agosto de 1945 e o lançamento em 6 e 9 de agosto de duas bombas atômicas sobre o Japão, destruindo Hiroxima e Nagasaki, encerrou num repente a guerra na Ásia. O Japão rendeu-se incondicionalmente em 10 de agosto de 1945. Tanto Chiang Kai-shek como Mao Tse-tung trataram então de ocupar, numa espécie de corrida preliminar à guerra civil que se avizinhava, o espaço vazio deixado pela evacuação dos exércitos nipônicos. O general Mac Arthur, supremo comandante americano do Pacífico, recebeu ordens de apoiar ChiangKai-Shek nesta operação. Milhares de soldados nacionalistas foram então enviados para as províncias do norte-nordeste - onde até então havia se concentrado o grosso da força de ocupação japonesa -, com a colaboração da esquadra e da força aérea americana. Os soviéticos, no que lhes coube, permitiram que os guerrilheiros de Lin Piao se apropriassem do valioso equipamento militar deixado pelos japoneses na Manchúria.

Apesar desses evidentes preparativos que indicavam a retomada para breve da guerra civil, Chiang Kai-shek e Mao Tse-tung encontraram-se em Chung-King em 10 de outubro de 1945, tentando inutilmente algum tipo de acordo. Discordância que se explica na medida em que a guerra lançara as sementes não só da resistência mas também as da revolução social. O governo nacionalista de Chung-king, socialmente isolado, pagando o preço da sua hesitação frente ao inimigo externo, e claramente responsável pelo descalabro de uma economia inflacionária, acabou sendo identificado com a "velha ordem" a ser destruída. Assim, apesar do acautelamento de Moscou e das reticências de muitos membros do PC chinês conquanto da possibilidade dos comunistas virem a tomar o poder na China, a revolução social teve seu andamento. A Chiang Kai-shek só restou declarar novamente a guerra civil em janeiro de 1946, para deter os comunistas em definitivo.

A vitória do maoísmo: lançado sua ofensiva em julho de 1946, o caudilho nacionalista deu por encerrado o período de trégua entre o Kuomintang e os comunistas. Ela durara apenas 7 meses. Os nacionalistas dispunham de três milhões de homens em armas além de contar com a ajuda financeira e bélica dos EUA, bem como o controle sobre as áreas mais prósperas e povoadas da China. Em seu desfavor tinham uma liderança desgastada tanto pelo mau desempenho durante a guerra contra o Japão, e um imagem associada à corrosiva corrupção que se enraizara em todos os escalões burocráticos-militares do governo de Chiang Kai-shek. Os maoístas, por seu lado, dispunham, para o que chamaram de Guerra de Libertação, de apenas um terço das forças com que o Kuomintang contava, mas seu moral era elevado e eram herdeiros de uma tradição de luta que remontava às barricadas de Shangai de 1927, à epopéia da Longa Marcha de 1934-5, e à duríssima guerra de guerrilhas travada contra o exército japonês que durara oito anos. A liderança de Mao Tse-tung não sofreu nenhuma descontinuidade de comando desde os tempos de Kiangsi, o primeiro refúgio dos maoístas, como também. Neste tempo todo, ele revelou-se um inquebrantável condutor de homens, sendo capaz de fazer seus seguidores entregar a vida à causa. Numa entrevista feita a Edgar Snow, Mao Tse-tung revelou-lhe que dos 50 mil homens que militavam no PC chinês antes das operações de assassinatos ordenadas por Chiang Kai-shek em 1927, restaram-lhe uns 10 mil e que, posteriormente, na parte final da guerra civil, o aparato partidário foi conduzido apenas por uns 800 sobreviventes (12). O seu principal assessor era Chou En Lai, um descendente de uma familia tradicional, nascido em 1898, que aderira à revolução nos anos 20, e que revelou-se um hábil diplomata e sutil articulador político. No campo militar contava com o estrategista Chu Teh e com o líder guerrilheiro Lin Piao, além de outros experientes combatentes como Chen Keng e Liu Pocheng, que comandavam tropas aguerridas e calejadas por inúmeras batalhas.

(12) Quanto à origem social dos membros do PC chinês, 27,4% deles provinham da nobreza rural, 29,4% da burguesia e da alta classe média, 17,6% eram de classe média, enquanto apenas 4% eram de operários e 21,5% de origem camponesa. Quanto a sua atividade profissional, 86,5% deles exerciam tarefas intelectuais (estudantes, professores, escritores, jornalistas, etc.). Dados extraídos a partir das notas bibliográficas existentes em E. Snow, pag. 512 a 587).

O ataque final de Mao Tse-tung: após ter revertido a ofensiva nacionalista que procura atingir suas bases em Yenan (Shensi), onde o general nacionalista Hu Tsung-nan teve seu exército detido e esfacelado pelas táticas da guerrilha, Mao Tse-tung, refeito, ordenou uma contra-ofensiva geral sobre as áreas nacionalistas baseado na "Estratégia da Terceira Guerra Civil" ou seja: 1) atacar primeiro as forças dispersas do inimigo, depois atacar as forças concentradas, mais fortes; 2) tomar primeiro as cidades pequenas e médias e extensas áreas rurais, depois as grandes cidades; 3) considerar como principal objetivo o extermínio dos efetivos militares do inimigo e não ter como intenção principal manter ou sustentar uma cidade ou um lugar qualquer; 4) em todas as batalhas a serem travadas, procurar sempre concentrar uma força militar absolutamente superior para poder cercar completamente o inimigo e lutar para exterminá-lo por completo,"não deixando um só escapar..."

Em 1948, uma série dessas operações, em que conjugou táticas guerrilheiras com concentrações de força em grande escala, fazem o agora rebatizado Exército de Libertação Popular sair-se vitorioso em Lo-yang, Honan e Tsisan, culminando com sua vitória sobre os nacionalistas em Huai-hai (novembro de 1948 - janeiro de 1949), os quais sofreram a perda de 550 mil homens, sendo que 327 mil deles cairam prisioneiros.

Muitas dessas batalhas, apesar de estarem envolvidos milhares de soldados de cada lado, tiveram bem poucos mortos em razão de um antigo hábito de combate chinês que podemos chamar de "negociação e conversão". Em diversas ocasiões, exércitos inteiros de nacionalistas se entregaram sem disparar um tiro porque seus comandantes, sentindo-se inferiorizados em forças e em ânimo, sem condições portanto de levar o combate às suas últimas conseqüências, decidiam-se por negociar a sua conversão, passando-se em massa com suas armas e bagagens para o lado dos maoístas.

A China Popular e a China Nacionalista: com a debandada crescente dos nacionalistas abriram-se finalmente as portas para a ocupação de Nanquin, a ex-capital do Kuomintang, ocorrida no dia 24 de abril de 1949. A essa altura dos acontecimentos, não restava mais nenhuma força organizada no interior da China para se opor aos exércitos maoístas. Apesar de já terem conquistado Pequim em 20 de janeiro de 1949, Mao Tse-tung só proclamou a República Popular da China no dia 1º de outubro de 1949, dando por encerrada a guerra civil. Chiang Kai-shek e seu Estado-Maior em fuga, negada qualquer conciliação com ele pela ala da extrema esquerda do partido comunista liderada por Liu Chao-chi, refugiou-se com os remanescentes do seu regime na pequena ilha de Taiwan (Formosa), onde ele contará com o apoio dos EUA para a formação de uma entidade política rival à China Popular, a China Nacionalista. Desde então a China ficou dividida politicamente numa parte continental, a China Popular; e numa parte insular, a China Nacionalista. A primeira aliou-se com a URSS até que, por razões ideológicas, ambas romperam em 1960, enquanto que a segunda continua até hoje um satélite da politica norte-americana na Ásia.Quanto ao povo chinês, pela primeira vez em mais de um século da sua história voltava a ver um governo restabelecer o controle único sobre o país inteiro (com exceção do Tibete e de Taiwan) e despachar os estrangeiros para fora da China, suprimindo-lhes completamente com os privilégios coloniais que ainda usufruiam. Uma das primeiras medidas dos revolucionários foi franquear ao povo da capital os portões da Cidade Proibida, o milenar núcleo do poder imperial da velha China.

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