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Chile: a derrubada da democracia
(de Allende a Pinochet)

O Pinochetaço

“Cada povo com suas dores, cada luta com seus tormentos, mas vinde aqui dizer-me se entre os sanguinários, entre todos os desmandados déspotas, coroados de ódio, com cetros de látegos verdes, foi algum como o do Chile?” Pablo Neruda - Canto Geral, V, 1950

Em agosto de 1973, um mês antes do desenlace, com a intermediação do arcebispo do D. Raúl Silva Henríquez, tentou-se um último acordo entre as duas principais lideranças civis do pais, o presidente Salvador Allende e o líder da Democracia Cristã, o senador Patrício Aylwin. Mas a esta altura era tarde. A classe média, o empresariado e os proprietários em geral, havia rompido com a UP, apostando suas esperanças num golpe salvador que contaria com irrestrito apoio dos E.U.A.. Reflexo disto era a aberta campanha feita pela imprensa, liderada pelo jornal El Mercurio (que inicialmente chegou a apoiar a UP) que exigia a imediata saída de Salvador Allende: “Renuncie! Hagalo por Chile”; sua manchete do dia 6 de setembro de 1973 dizia tudo.

Os militares atiçados por todos os lados finalmente puseram-se em marcha. O general Pinochet chegara ao comando supremo depois da renúncia do general oficialista Carlos Prats, um militar constitucionalista que se negou a participar de qualquer golpe (Prats foi assassinado pela DINA, a policia secreta pinochetista, uns anos depois no seu exílio em Buenos Aires).

Em poucas horas as Forças Armadas conseguiram submeter o governo da UP. Allende, resistindo só no palácio presidencial, era o retrato vivo do isolamento em que se encontrava o seu regime nos seus dias finais. Abandonado diplomaticamente pelo mundo ocidental, desprezado pelos governos militares seus vizinhos e impotente em deter as forças golpistas dentro do seu próprio pais, só lhe restou cair como mais um mártir da democracia: “Eu não resignarei” disse ele, “estou pronto para resistir sejam quais forem os recursos mesmo que custe a minha vida, isto servirá de lição nesta ignominiosa história destes que têm a força mas não a razão.”

A violência com que o golpe se deu deveu-se em grande parte à enorme tensão social porque o país passou depois ter sofrido por quase três anos de uma terrível pressão coletiva que, diga-se, começou antes mesmo da confirmação de Allende. Dois dias antes a sua posse, em 22 de outubro de 1970, o general René Schneider, então comandante supremo, foi assassinado para tumultuar a ascensão do socialista ao poder (a morte do general constitucionalista, considerado demasiadamente “neutro” pelos americanos, foi articulada pela CIA que forneceu as armas para um grupo de extrema-direita, chefiado pelo general da reserva Roberto Viaux).

Morto Allende, foi a vez das suas bases sofrerem o peso da repressão. Lideres sindicais, políticos, intelectuais, ativistas e militantes das diversas organizações esquerdistas, foram detidos e levados presos para o Estado Nacional de Santiago. Lá, depois de identificados, muitos foram sumariamente fuzilados, torturados ou mutilados pelos militares. Nas ruas das principais cidades os suspeitos, por vezes, eram passados pelas armas. A tortura rotinizou-se. A vida da população sofreu uma alteração brusca. Severos toques de recolher eram acompanhados de batidas policiais por quarteirões inteiros. A formação prussiana dos militares chilenos revelou sua eficiência e crueldade ao procederam com os caídos e os derrotados.

Não satisfeitos em liquidar com a oposição interna, o general Pinochet estimulou a execução da Operação Condor (com a colaboração dos militares, argentinos, uruguaios, bolivianos e paraguaios, com participação dos brasileiros limitadas à trocas de informações) que implicou na eliminação física dos seus adversários no exterior (além do General Carlos Prats, foi morto Orlando Letelier, um ex-embaixador chileno exilado em Washington D.C.). A violência da ditadura do general Pinochet (atribui-se a ela a morte ou o desaparecimento de 3.197 pessoas e mais um número incerto, mas bem maior de torturados) fez com que o seu nome fosse mundialmente associado ao terror estatal sem contemplação, a um fabricante de tormentos, tornado-se, como diria Pablo Neruda (morto no próprio dia do golpe), num dos “Bruxos da América”, os que “ matam os metais da ressurreição, fecham as portas e entrevam a morada das aves deslumbradoras”.

O Chile, que durante muito anos foi apontado como uma raridade na América do Sul devido a sua estabilidade política (os militares fizeram uma curta intervenção em 1924-5), passou a ser visto durante uns tempos como um vasto campo de concentração, bem longe do que Neruda dizia idilicamente do seu pais ser “uma longa pétala de mar, com vinho e neve”.

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