Introdução | A vitória da Unidade Popular | A via chilena para o socialismo | As forças da oposição | O Pinochetaço | Conclusões | Bibliografia
Chile: a derrubada da democracia
(de Allende a Pinochet)
As forças da oposição
O delicado sátrapa conversa com taças, pescoços e cordões de ouro. O pequeno palácio brilha com um relógio e os rápidos risos enluvados atravessam às vezes os corredores e se reúnem às vozes mortes e às bocas azuis frescamente enterradas. Pablo Neruda - Canto Geral, VI, 1950
Uma das razões mais amplas do fracasso da via chilena para o socialismo deveu-se ao quadro mundial de então. Vivia-se em plena
Guerra Fria e os Estados Unidos engajado na
Guerra do Vietnã não podiam aceitar tranqüilamente a existência de um regime socialista na sua área de influência (*). Esta foi a razão de Henry Kissinger, assessor do presidente Richard Nixon, ter dito que o governo americano não podia ficar parado aguardando um pais tornar-se comunista devido a irresponsabilidade do seu povo. Além disso a política das nacionalizações e estatizações adotada pela UP (O Estado chegou a controlar 60% da economia nacional) feria os interesses das grandes corporações americanas, como no caso da ITT, um empresa telefônica e de comunicações que passou a pressionar o governo Nixon a tomar providências.
Não demorou muito para que o Chile se encontrasse submetido a um bloqueio informal (como Allende denunciou num dramático discurso na ONU). Não conseguindo empréstimos internacionais e nem bons preços para o cobre, o seu principal produto de exportação. A estratégia americana foi sufocar gradualmente a economia chilena até que um levante das Forças Armadas pusesse fim a via chilena para ao socialismo, ou como disse o embaixador americano em Santiago: não permitiremos que nenhuma noz nem mesmo um parafuso venha a enriquecer o Chile de Allende. Richard Nixon no seu despacho ao Departamento de Defesa fora enfático: Há uma chance em dez, mas salvem o Chile, façam a economia guinchar!
Entrementes o quadro latino-americano que o cercava também era hostil a Allende. Nos anos de 1970, na América do Sul inteira, apenas o Chile, a Colômbia e a Venezuela mantinham Estados de Direito com governantes eleitos pelo povo. Solidariedade e simpatia socialista ele só obteve de Fidel Castro cujo auxilio prático era nenhum. O Brasil, a Argentina, o Paraguai, a Bolívia, o Peru, o Equador e logo o Uruguai, encontravam-se ocupados por regimes militares. Também pesou na derrubada de Allende, o sucesso econômico do ditadura do general Médici (1969-74) que fez com que o Brasil tivesse um crescimento entre 9 a 11% anuais, estimulando com seu exemplo, de Estado Autoritário, anti-comunista e antidemocrático, a que os militares chilenos arriscassem implantar um modelo similar.
Mas o fator fundamental que levou ao golpe militar foi o quadro interno. O descalabro econômico que atingiu o governo da UP fez com que a inflação saltasse para patamares desconhecidos na história do Chile (em 1971 a inflação foi de 22,1%: em 1972 aumentou para 163,4%, e, no ano do golpe, em 1973, atingiu o clímax com 381,1%), fazendo com que O PNB sofresse, neste tempo, uma queda de 9,0 (positivo) para - 4,2 (negativo).
As próprias bases políticas da UP manifestaram o seu desconforto com a greve da mina El Teniente e o protesto estudantil demonstrado contra a ENU (Escola nacional Unificada: um plano do Ministro da Educação que visava um padrão comum, baseado em valores socialistas, para toda a educação, e que foi apontado como uma tentativa de doutrinar os estudantes). Neste clima de enfrentamento, tanto a esquerda extremista como a extrema-direita do Patria y Libertad mobilizaram-se. Os integrantes do MIR fizeram chegar ao Chile armas soviéticas vindas de
Cuba, enquanto os direitistas articulavam-se com a CIA (a agencia americana gastou U$ 12 milhões de dólares financiando greves, especialmente a dos caminhoneiros) e com setores militares. Por toda a parte multiplicavam-se os atentados e assassinatos, e as greves gerais não paravam de eclodir.
(*) Segundo o livro de William Blum Killing Hope, o envolvimento direto dos E.U.A. com a política chilena começou na administração do presidente John Kennedy. Desde que Allende perdera a eleição de 1958 por apenas por 3% dos votos, os americanos não podiam mais depender da providência ou da democracia. Para tanto criou-se um comitê, um em Washington e o outro em Santiago, para coordenar as eleições de 1964. O candidato dos americanos, o democrata-cristão Eduardo Frei recebeu U$ 20 milhões de dólares para vencer Allende (o resultado foi 56% a 39%). Em 1970, para derrubar Allende, a CIA criou o Projeto Fulbert que abarcou um amplo conjunto de atividades que iam de apoio a assassinatos seletivos e fomentar greves, a contatar políticos e militares direitistas para articularem um golpe de estado.
| 