O Grande Jogo
A Conquista do Cáucaso
"O Grande Jogo" foi uma expressão de Rudyard Kipling, o bardo do colonialismo britânico na Ásia, para definir as complicadas maquinações anglo-russas pelo controle da Ásia Central. Mais precisamente sobre as regiões que se situam entre o Norte da Índia e o Mar Cáspio, enfrentamento travado entre o império da rainha Victória e o império dos czares da Rússia ao longo de boa parte do século 19. Desde o colapso da URSS em 1991, está-se a reproduzir aquele grande embate, sendo que agora são os Estados Unidos quem substitue a Grã-Bretanha no papel de fazer frente a uma Rússia fragilizada. Entrementes, em meio a esta disputa de titãs pelo controle da bacia petrolífera do Mar Cáspio, um outro elemento, inesperado, ganhou vulto - o fundamentalismo islâmico.
O Tosão de Ouro
O Cáucaso, a "Montanha das Mil Línguas", segundo os historiadores, e o Mar Cáspio, que lhe segue, faziam parte do imaginário grego antigo como um lugar do "Fim do Mundo". Para lá dirigira-se, em tempos remotíssimos, a expedição dos Argonautas, liderada por Jasão, o herói grego que aventurou-se em intrincadas peripécias em busca do Tosão de Ouro, em posse do rei Aetes de Cólquis. Quem o ajudou a vitoriar-se e a escapar foi a princesa Medéia, mulher de recursos mágicos, sábia em feitiços e coisas malignas. Também foi nas montanhas do Cáucaso que o mitológico Prometeu, o titã que roubara o fogo do Olimpo, foi encadeado por Zeus, condenado a ser torturado por um águia que vinha diariamente bicar-lhe o fígado. Sem esquecermos que foi nos altos do Monte Ararat, situado na Armênia, que Noé ancorou a sua arca depois de um espantoso dilúvio. Portanto, aquela região foi vista no Ocidente, e mesmo na Rússia, como uma terra de assombros, de abismos intransponíveis, de feitiços e punições terríveis, local onde uma humanidade sobrevivente começou uma nova vida.
O cenário do Grande Jogo
 | 
|  |

|
Execussão dos amotinados de 1857, pelo ingleses
| 
|

|
Durante séculos, aquela enorme área, povoada por indômitas tribos montanhesas, pastores nômades e de destemidos guerreiros, pairou como uma espécie de terra de ninguém, ou zona tampão, a meio caminho entre a Velha Ásia e a Europa, isolada de todos, longe do mundo, até que seu destino começou a mudar. Poderosas forças imperiais para lá derramaram seus exércitos, empurradas por razões estratégicas, para firmar sua soberania sobre aqueles confins. No século 17, foram russos e turcos quem se digladiaram. No século seguinte, baseado na Índia, foram as ambições britânicas que entraram em ação. Durante um século, de 1820 a 1920, deu-se entre aquelas potências, naquela esquina do mundo, que separava o mundo cristão do mundo islâmico, o Grande Jogo.
O tabuleiro de xadrez
 | 
|  |

|
Porta de Igreja na margem do Cáspio
| 
|

|
Este nada mais era do que um eterno vai e vem de uma partida de xadrez, onde, por boa parte do século 19, de um lado do tabuleiro, o rei era o czar, e do outro, a rainha era a imperatriz das Índias e soberana da Grã-Bretanha. Ao redor deles, atuando como peças menores, subalternas, o sultão turco e o xá do Irã. Entre um e outro, espalhavam-se os peões do Grande Jogo,
os povos do norte da Índia, as tribos do Afeganistão, do Turcomenistão, do Uzbequistão, do Tadjiquistão, da Geórgia, do Azerbaijão, da Chechênia, do Daguestão, tártaros, mongóis, e tantos outros mais, que, de longe, era manipulados ao sabor do ir e vir das rivalidades dos dois potentes maiores.
|