|
A bolsa de valores: a riqueza abstrata
A hostilidade ou desconfiança do homem comum ao templo do mercado de ações deve-se ao seu aspecto abstrato. Acostumado, antes, no pré-capitalismo, a fazer seus negócios cara a cara, confiando na palavra ou no fio de bigode do contratante, a bolsa de valores assemelha-se a ele a uma perigosa ficção. Quem compra não aparece, quem vende sabe-se lá quem é. Não é um encontro de pessoas físicas, é um mundo sem rosto, de entidades jurídicas, de firmas, de empresas e de companhias, cujos proprietários bem poucos sabem quem são na verdade, pois a maioria deles esconde-se por detrás de siglas e realizam as transações por meio de operadores. Os negócios tratados na bolsa assoma-lhe ao neófito, uma fantasmagoria financeira. Nela não se vê moedas, jóias ou barras de ouro empilhadas, nem fábricas, nem terras, mas papéis impressos ou somente números, milhares deles, girando ininterruptamente frente ao espectador tonto.
|
|
|
|
Edifícios de Bruges, na Bélgica, onde tudo começou
|
Se bem que o exercício da compra e venda de ações, ou o seu equivalente, fosse conhecida e muito praticada no Fórum da Roma antiga, situado bem próximo ao Templo de Castor, foi somente no século XV, nos tempos do Renascimento, que o tráfico bursátil deixou a rua. Pelo menos foi o que se deu na cidade de Bruges, na atual Bélgica, em frente a casa dos Van Der Bursen, quando o comércio com papéis tornou-se respeitável a ponto de ter direito, a partir do ano de 1487, a um prédio próprio. Em Londres, ele situou-se na City a partir de 1690, enquanto o de Paris e a de Nova Iork, porém, somente no século XVIII instituíram-se em edifícios adequados (a rua que serve como sede da New York Stock Exchange desde 1792 é a hoje mundialmente famosa Wall Street). Essa súbita respeitabilidade, deixando de ser um negócio feito nas calçadas, por vezes pisando nas sarjetas, ou nos vãos das portas, não afastou dela o véu da suspeita. O jogo com ações sempre foi mantido à distância pelo resto da sociedade, como algo pouco confiável, bem longe da segurança oferecida por umas onças de ouro ou pelas jóias preciosas. Coisa de trambiqueiros e de escroques, não de gente séria nos negócios. Apesar da enorme importância para a vida econômica que as transações movimentadas pelas bolsas de valores em escala mundial, observa-se uma generalizada desconfiança, quase matuta, em relação aos pregões e leilões de ações e outros títulos que nelas se verificam
|
|
|
|
A bolha especulativa devorando a poupança da classe média
|
E a razão disso é que a sociedade dinheirista, dominada pelos espírito mercantil, é ainda historicamente uma novidade para a maioria da humanidade. Ao contrário do que muitos acreditam, confundindo a ágora das antigas cidades gregas com o mercado atual, as práticas comerciais estavam naquela época circunscritas a um espaço bem limitado. Não é como nos dias atuais, onde a mentalidade de mercado invade tudo, ocupando as ruas com seus cartazes, invadindo a televisão e o rádio com seus anúncios e patrocinando os eventos esportivos em geral. É preciso entender que, ao longo dos séculos, o espírito religioso e as instituições clericais decorrentes dele sempre manifestaram aberta hostilidade aos negócios com moedas e ao empréstimo de dinheiro a juro. Preconceito que herdaram das doutrinas de Aristóteles, que condenavam o aluguel do dinheiro. Para a maioria dos teólogos, ou dos patriarcas fundadores de igrejas, o metal sonante, o cheque, a nota promissória, eram vistos como um ardil do demônio para levar os homens à perdição. Haja visto as sucessivas condenações feitas pela igreja da Idade Média à prática do que consideravam como usura (emprestar dinheiro a juro), ou daquilo que escapava do que eles gostavam de definir como "o justo preço". Atividade especulativa que nenhum cristão digno desse nome poderia praticar. O mercado como o entendemos é, pois, como demonstrou Karl Polyani, no The Great Transformation (A grande transformação, 1957) um fenômeno tipicamente moderno, emergindo com a Revolução Industrial do século XVIII.
|