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Luís XIV: o rei-divino

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Nenhum outro monarca europeu exaltou seu poder majestático como Luis XIV da França o fez. Durante o seu estendido reino (1643- 1715) ele não cessou de mobilizar seus ministros, artistas e intelectuais para anunciar ao mundo tanto as extravagâncias da sua corte como a retidão da sua administração. Encarnação mais concreta do Estado Absolutista, tomou o deus Apolo como ícone inspirador do seu domínio sobre a nação. Com ele o estado feudal tornou-se um Estado-espetáculo, fazendo com que até hoje os franceses designem sua época como o da ‘França clássica’.


O despertar de Apolo

Era o premier valet, criado do quarto, que dormia aos pés da cama real, que às 7h30 anunciava o acordar do rei: l´éveil du roi! Afastadas as cortinas do Grande Apartamento Real – centro sobre o qual se edificava o Palácio de Versalhes – Luis XIV, trajando um florido robe-de-chambre, depois de o seu médico pessoal verificar o seu estado geral. recebia a quem considerava merecedores de testemunhar seu doce despertar.


Seguiam-se então as entrées, as entradas: os familiares mais próximos, os filhos, os parentes mais afastados, os ministros e demais altos funcionários, cabendo a honra por último a um grupo de privilegiados selecionados de acordo com as simpatias do rei. Todos vinham dar o seu bom dia a Sua Majestade.


Dominando o teto do appartement, encontrava-se um enorme afresco de Charles de La Fosse denominado Le Char d´Appollon, o carro de Apolo, no qual o magnífico deus grego circulava numa feérica biga pelo cosmo levando a claridade aos planetas que estavam ao seu arredor. A vida na corte, pois, imitava a mitologia. O acordar do Rei-sol iluminava e dava sentido à existência dos súditos.

Todo o imenso palácio punha-se então em movimento sob o bastão do Mestre-de-cerimônias que regulava quem era quem naquela vasta corte que acolhia por vezes mais de quatro mil fidalgos e seus servidores. Era uma multidão composta por príncipes, duques, condes, marqueses, barões, cardeais, bispos, seguidos por séquitos de serventes e lacaios que, abrangendo os mestres de equitação e cavalariços, chegava a um total de dez mil pessoas que somente se desativavam quando Luis XIV se recolhia ao leito às 23h.


O elo de gravitação que equilibrava a vida na corte – uma autêntica cidade situada nas proximidades de Paris - colocando cada um no seu devido lugar, era a etiqueta. Instrumento de controle dos privilégios e projeção social de cada integrante do cosmo pessoal do rei, ela foi a constituição disciplinadamente obedecida e seguida em Versalhes.


O imenso palácio era o centro de tudo no reino. Dele partiam as ordens para as fronteiras e para a administração das províncias, assim como para as possessões no ultramar. Nada girava fora da sua esfera de ação. No sistema heliocêntrico constituído pelo rei – O Absolutismo é copernicano - coisa nenhuma se deslocava sem o seu consentimento ou atenção. A corte de Luis XIV era a representação viva do Cosmo feita por Copérnico e Newton, algo que se movia por leis naturais e racionais. Como o rei alcançara tal poder?

As idades felizes da humanidade

Luis XIV, o rei-sol (1638-1715)
Quando Voltaire, por influencia de madame Pompadour, foi indicado para a posição de historiógrafo da corte de Luis XV, dedicou-se num estudo que demandou cinco anos a celebrar a época de Luis XIV, tida por ele como período exemplar, excepcional. A obra, publicada em 1751, teve como título Le siècle de Louis XIV e centrou-se em exaltar a preocupação do rei com as ciências e com as artes.


A celebração das luzes é que distinguiu o reino dele e fez com que ele integrasse ao que Voltaire chamou de ‘idades felizes’, isto é, aquele escasso momento na história da humanidade em que, graças a um príncipe raro e ilustre, a cultura se sobressaia sobre qualquer outra coisa.
Olhando para o passado, o filósofo tornado historiador identificou como similar em importância à época de Luis XIV, a Atenas de Péricles, a Roma de Augusto, e a Florença dos Médici, momentos excepcionais em que as belas artes tomaram a dianteira, frutificando graças ao terreno favorável semeado pelos grandes príncipes.


Não era o deus Marte, o deus da guerra, que eles preferencialmente cultivavam, mas sim Apolo, Orfeu, Dionísio, as musas Caliope, Clio, Melipômene e Terpsícore. O monte pelo qual se inclinavam era o do Monte Parnaso (consagrado a Apolo e às musas) e não o do Armagedon (o da batalha final).


Ainda que a época de Luis XIV não tenha superado a dos antigos em diversos aspectos, acreditou que a razão humana viu-se aperfeiçoada e uma sã filosofia serviu para abrir os espíritos e os costumes, realizando uma ‘revolução geral que será o testemunho eterno da verdadeira glória da nossa pátria’(O Século de Luís XIV, p.8).


Deste modo, a época de Luís XIV fora a quarta idade feliz da humanidade visto que nunca o mundo das letras, das experiências científicas, dos pincéis, do compasso, do cinzel e do buril, fora tão prestigiado na França. Prova disto foi a proliferação das academias criadas pelo ministro Colbert sob a proteção dele, sendo que cada um dos seus integrantes servia como um tambor ou uma trompa estridente a anunciar ao mundo as excelências do seu soberano Luis.


Ainda que tudo aquilo - a arquitetura, a pintura, a escultura, a poesia, a literatura e o teatro - se sentisse estimulado para engrandecer a monarquia, Voltaire acreditou que os benefícios gerais superaram os interesses propagandísticos do rei Bourbon, visto que projetaram uma impressionante imagem da França pela Europa e pelo restante do mundo.

O Templo de Apolo

‘O carro de Apolo’ (C. de La Fosse)
Toda aquela exaltação do poder monárquico, a ideologia de fazer do rei um semideus, quase um sócio do Senhor Todo-Poderoso, tinha necessariamente que em algum momento vir a se expressar por meio de uma grande obra arquitetônica. Nenhum outro soberano da França, nem antes nem depois de Luis XIV, teve a consciência da sua majestade. Péricles erguera o Pártenon, Constantino criara Bizâncio, o papa Leão X a Basílica de São Pedro. O rei-sol reservou-se por igual a projetar algo sensacional, jamais visto na Europa: foi assim que surgiu o Palácio de Versalhes.


Para tanto, para viabilizá-lo, o ministro Colbert, por volta de 1660, convocou um seleto grupo de eruditos e artistas: os irmãos Perrault, Claude e Charles, o arquiteto Louis Le Vau, o pintor Charles Le Brun, o cronista da corte André Félibien e o paisagista André Le Nôtre, juntos formaram a Direção das Artes. Idealizaram um conjunto de prédios principescos cercados por estupendos quadros geométricos formados por flores e plantas, cercados por bosques, recortados por estradas e por canais admiráveis. Algo assim como Ovídio descrevera em imagens soltas no canto II das ‘Metamorfoses’.


Na verdade, admirando-se as perspectivas gerais que o compõe pode-se concluir que o projeto Versalhes tratou literalmente de satisfazer o dito de Descartes – o filósofo da Razão - de tornar o homem ‘ senhor e dono da natureza’. Tudo nele, edificações e jardinagem, se encontra em harmonia com a vontade humana em submeter o universo a sua ordem, ao tempo em que o rei se tornava o senhor definitivo do país.

O Sol afasta a Noite

Globos de Coronelli (Coleção de Luis XIV, 1683)
Quando ainda era jovem, mal completara 15 anos, Luis XIV amante da dança, organizou uma encenação que se tornou exemplar para a sua imagem de governante: o Ballet Royal de la Nuit. Em frente à rainha-mãe Ana de Áustria e ao cardeal Mazarino, atuou na peça - dividida em quatro atos tendo 12 horas de duração - fazendo vários papéis. No momento final, no ‘grande balé’, ele, acompanhado pela Honra, pela Vitória, pelo Valor e pelo Renome, apareceu numa fantasia dourada como a estilização do Astro-Rei.


Ocupando o centro do tablado, chamando a si como coadjuvantes os grandes da França, ao som das harmonias regidas pelo jovem maestro Lully, fazia gestos com as mãos como se fossem raios luminosos que afastavam os perigos da escuridão que ameaçavam a nação francesa (as desordens populares e a insubordinação dos aristocratas na época da Fronda).


Com versos de Isaac de Bensarade, decoração de Giacomo Torelli e música de Cambefon, a peça foi apresentada no Petit-Bourbon no dia 23 de fevereiro de 1653, sendo um dos tantos meios utilizados por Luis XIV para expor suas idéias da majestade do poder real e da autoridade e legitimidade que dispunha para pacificar a nação.

Tratou-se de um recurso verdadeiramente original de fazer das artes conjugadas (a dança, a música, a poesia e a decoração), um instrumento da política de estado, articulando os gostos particulares do rei e sua vontade de mostrar a importância da monarquia como fator de ordem, de justiça e de razão. A fundação das Academias (de letras, em 1635, e renovada em 1661; de pintura, em 1648, e renovada em 1663; de dança, em 1661; de ciência, em 1666) tinham dupla função: regulamentar os ofícios artísticos em geral e colocá-los, dóceis, ao serviço da majestade para zelarem e enaltecer o estupendo reinado.

A esta prática ele agregou uma série interminável de festas em Versalhes ainda em construção, que se estenderam de 1664 a 1674, regadas com bebidas finas e lautos jantares, preparados por um officiel de bouche e supervisionadas por um maître d´hotel, animadas por encenações de toda ordem. Inclusive com brilhantes espetáculos aquáticos à luz de fogos de artifício, que visavam celebrar os bons tempos em que o reino vivia, em paz interna e desconhecida prosperidade.


Além disso, estimulou a presença do teatro na corte por meio da Comédie-Française, tanto o cômico (Molière) como o trágico (Racine e Corneille), fazendo com que alguns espaços no palácio se transformassem numa espécie de teatro de Dionísio, acolhendo apresentações dos maiores autores dramáticos daquele século.

Deste modo, especialmente nos seus tempos áureos, entre 1670-1685, Versalhes eclipsou durante um bom tempo a influência cultural de Paris, enquanto os teatrólogos procuravam expor por detrás dos seus personagens os principais embates políticos e culturais que corriam pelo reino.

A corte se tornou no arbitro da vida cultural francesa, uma boa acolhida de uma peça da parte dos grandes significava sucesso no restante do país.

Note-se que a encenação da tragédia por igual tinha a função de expor os sofrimento das casas reais, as dilacerações que os príncipes e suas famílias padeciam frente a um designo cruel. Eles podiam estar cercados por festas e prazeres, mas nunca deveriam esquecer as perigosas armadilhas do destino. (*)


(*) Na famosa tese de Lucien Goldman, Le Dieu Caché, 1959, ele defendeu haver uma estreita relação entre o pensamento filosófico de uma época e suas obras literárias mais significativas, assim Corneille refletiu Descartes, enquanto Racine expressou Pascal e os jansenistas). Por igual, entendeu a ‘visão trágica da existência’, exposta por Racine, como uma reação contra o racionalismo e contra o empirismo, ambos em ascensão na época. Algo assim apavorante como ‘ o silêncio de Deus’ frente às desgraças da humanidade que inquietara Pascal. O horror de viver num mundo esquecido pelo Senhor que faz com que o ‘homem trágico’, ainda que dotado de racionalidade, tenha que se deparar com um mundo ininteligível devido as imperfeições humanas, se sentido sem condições de entender um Deus afastado, obscuro, escondido, que por vezes parece se divertir com os sofrimentos do pecador.


Enquanto isto, a imagem do rei – como se fora um imperador romano ressurgido - era difundida por todas as partes. Bustos de bronze, de mármore, de marfim, medalhões, gravuras, estampas, estátuas eqüestres em lugares públicos, e uma infinidade de telas e afrescos reproduziam o rosto ou o rei em corpo inteiro (nestes casos os sete símbolos da monarquia se faziam presente: a flor de lis, a espada, o cetro, a coroa, o trono, o manto real azul-real e a mão da justiça).

Deste modo, durante aquele longo reinado, não houve arte ou ofício – inclusive a honorável tapeçaria Gobelin - que não tenha prestado serviços à divulgação da presença de Luis XIV pela França inteira. Afinal ele era o Rei-Sol. Deste modo, ele aliou sua inclinação pessoal pelo teatro e pela dança com a necessidade de afirmar sua soberania divina, fazendo do Estado Monárquico francês o primeiro Estado-espetáculo que se conheceu no Ocidente, tendo no rei o seu personagem central, como o único protagonista da sua própria glória. Distanciou-se da capital e do povo, colocando-se acima dos mortais como se dotado de um maquinismo próprio, um aparelho que funcionava de acordo com uma engrenagem autônoma cuja força advinha da sua ligação com o poder sobrenatural.

    
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