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D. José I: um rei ferido, atentado e suplícios
Certo dia de setembro em Lisboa, no ano de 1758, deu-se um atentado raríssimo, assombroso. D. José I, o rei de Portugal, vindo clandestinamente de um encontro amoroso, sofreu um ataque a tiros que o deixou ferido. Ainda que não com demasiada gravidade, o incidente serviu para que o seu ministro, o marquês de Pombal dele se servisse como pretexto para desencadear uma implacável perseguição contra os inimigos do seu governo: a aristocracia e os jesuítas.
As precauções do rei
Nas suas visitas à amante, a bela Teresa de Távora, o rei D. José I tomava certas precauções. Tentando não despertar desconfianças, nunca se dirigia aos encontros na carruagem real, recorrendo sempre ao caleche de um fâmulo, um tal de Pedro Teixeira que servia-lhe de mercúrio ( como naquela época chamavam qualquer proxeneta que intermediasse encontros amorosos, função que no Brasil Império foi assumida junto a D. Pedro I pelo Chalaça ). Entendia-se o motivo do alvitre. O rei era casado e com filhos, a amante também. Teresa era da família dos Távora, nora do marquês de Távora, nobre ilustríssimo, gente de sangue azul, distintíssima em Portugal. Desnecessário dizer que todos sabiam do caso, na corte e nas tavernas.
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Lisboa, o paço (século XVIII)
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Na madrugada do dia 3 de setembro de 1758, quando o veículo trazendo o monarca adultero e seu cortesão retornavam ao Palácio, aproveitando-se dos arrepios de uma Lisboa ainda em boa parte destruída ( terremoto se dera três anos antes, em 1755), foi emboscado por três homens à cavalo, sendo que um deles disparou a pistola bem de perto, quase que da janela do coche. Pedro escapou ileso, mas a bala rasgou o soberano. Sangrando, o rei foi conduzido a um cirurgião de confiança. Não queriam, nem D. José, nem os próximos, que alguém do Palácio Real soubesse o que ocorrera. Afinal não era muito honroso o soberano de Portugal ser baleado em plena rua por causa de mulher. Pombal entra em ação
Sabedor quase que de imediato do acontecido, o marquês do Pombal, secretário supremo dos negócios do governo, logo tomou duas medidas: colocou seus espias farejadores em alerta a levantar suspeitas ou provas, ao tempo em que espalhava o boato de que o rei se acidentara. Nada de grave, mas o suficiente para que D. José ficasse em retiro por uns tempos, assegurou ele aos cortesãos, inúmeros, que o procuravam no gabinete atrás de notícias. O povo nas vielas, por sua vez, não tinha dúvidas da farsa. Foram os Távora, diziam em todas as partes. Afinal era um escândalo e tanto para ser guardado. No espaço de tempo em que o rei abrigava-se entre os lençóis e os pensos que lhe aplicavam no ferimento, Pombal montava a urdidura. Como tantos outros ditadores, antes de depois dele, tratou de dar a mais ampla dimensão política a um fato dramático, mas localizado. Talvez seja esse um dos atributos de uma tirania eficaz, fazer das coisas menores grandes conspirações. Ampliar o barulho de um estampido ao modo do rugido de um trovão. O atentado de 3 de setembro tomou dimensões colossais. O lavar da honra de um marquês traído transformou-se, pela obra da tecedura política de Pombal, num caso diabólico contra o trono. Na maquinação, assim encenou o marquês, mancomunaram-se os interesses malévolos do Távora com a intriga dos jesuítas, ressentidos por Pombal tê-los despachados do confessionários do rei dois anos antes.
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Pombal, fez do atentado um crime político
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Uns quantos meses depois do atentado, no 13 de dezembro de 1758, a polícia pombalina deteve todos os suspeitos. Que, quando colhidos e conduzidos ao calabouço, já sabiam que teria poucas esperanças. Acusaram-nos de crime de lesa-majestade, traição e rebelião contra o rei e o Estado. Prenderam o duque de Aveiro, o marquês de Távora e seus familiares mais próximos, entre eles uma das noras. Perfaziam ao todo nove adultos da mais pura casta lusitana. Dom José Mascarenhas, o duque de Aveiro era poderosíssimo, um senhor da suprema corte, o marquês de Távora Velho era um general que fôra vice-rei da Índia, enquanto que o conde de Autoguia era o chefe da guarda pretoriana do palácio real. Luís Bernardo de Távora, o filho mais velho do marquês, o infeliz marido traído, teve um destino três vezes inglório: chifrado, torturado, acabou executado pelo rei que o desonrara. Cabrão do rei
Não tardou para que os detidos ultrapassou a mil, inclusive 12 jesuítas, entre os quais um velho inaciano, meio iluminado, chamado padre Gabriel Malagrida, que foi posto na fogueira bem depois, em 1761 (*). O interessante é que durante o processo, os juizes da inconfidência dos Távora desconsideraram toda justificava para a vingança que mencionasse a questão da honra ofendida. Em qualquer corte da Europa, arengaram, quando um caso igual ocorria ( isto é, o interesse do rei por uma mulher casada com um vassalo ), só cabia ao marido, como bom súdito, “ o sacrifício de um profundíssimo silêncio, ou ( no máximo ) a dissimulação de um prudente e decoroso retiro” . Afinal, “ ser cabrão do rei”, arremataram, era um privilégio do vassalo.
(*) o padre havia distribuído um opúsculo afirmando que o terremoto que acometera Lisboa resultara de um ato divino, punitivo, ferindo assim a política oficial de Pombal que afirmava ter sido causado por forças naturais. Voltaire, que estava longe de ser simpático aos jesuítas, lamentou a bárbara morte pela fogueira do pobre homem dizendo: “ Foi um excesso de ridículo e de absurdo unido ao excesso de horror”(K.Maxwell,1996,pág.92)
Um suplício exemplar
“É um fenômeno inexplicável a extensão da imaginação dos homens para a barbárie e a crueldade” Jaucourt
É de se supor que a idéia de transformar o atentado não só numa maquiavélica conspiração de inimigos do rei mas também num ato de castigo exemplar, de pôr a tremer qualquer um, do mais empinado dos brasões até a raia miúda da sociedade, acometesse Pombal a partir do que ocorrera na França um ano antes. Em 1757, na época de Luís XV, um tal de Damiens foi atenazado e esquartejado em Paris. O ritual dos tormentos aplicados foi terrível, de gelar o mais frio dos corações. Não houve bestialidade que os carrascos não submetessem o corpo do pobre flagelado. O mesmo decidiu Pombal deveria proceder-se com os condenados portugueses. Sentenciados a 12 de janeiro de 1759, o duque de Aveiro e os Távora em peso - previamente atormentados na roda e no polé - foram levados ao patíbulo no dia seguinte. Das 6 horas da manhã às 4 horas da tarde, os verdugos trabalharam sobre as carnes e os ossos dos réprobos, macerando-as, talhando, cortando, garroteando, e, finalmente, reduzindo tudo às cinzas, espalhadas a seguir no rio Tejo. Um proceder macabro que horrorizou a Europa das Luzes e , cento e vinte anos depois, ainda serviu para que Camilo Castelo Branco, afirmado em testemunhos daquela época, escrevesse um verdadeiro libelo contra o despotismo do marquês de Pombal. Flagelação e absolutismo
Em horror, o Estado Absolutista competia com a Igreja Cristã. Se as vítimas do Santo Ofício eram nos países ibéricos submetidas a um humilhante auto-de-fé, culminando por entregar o corpo às chamas, o Estado Absolutista não lhe ficava atrás. Havia um poderoso simbolismo nas execuções dos condenados, particularmente nos que cometiam um delito subversivo como o de lesa-majestade. Sobre eles desabavam as fúrias do Estado. O rei, por meio do verdugo, agia como um Júpiter arremessando a terrível lança da justiça diretamente sobre o infeliz que ousara desafiá-lo. O procedimento de trucidar e esquartejar o sentenciado, mutilando-o por completo, deveria ser, no teatro macabro da execução, o mais parecido possível com a cena de alguém atingido por um raio. Nada deveria restar dele. Dele e da sua casa, que era posta abaixo com estrondo numa outra solenidade. Quem se erguesse contra o rei, atraía contra si forças incomensuráveis. Logo, potências medonhas eram invocadas para liquidá-lo: o corpo, retalhado, era incinerado; a habitação demolida; o nome apagado. O recado era simples: o rei era tudo, o súdito tornado réu era um nada.
Um dia de chumbo e sangue narrado por Camilo Castelo Branco
“A aurora do dia 13 de janeiro de 1759 alvorejava numa luz azulado do eclipse daquele dia por entre castelos pardacentos de nuvens esfumaradas que, a espaços, saraivavam bátegas de aguaceiros glaciais. O cadafalso construído durante a noite estava úmido. As rodas e as aspas dos tormentos gotejavam sobre o pavimento de pinho. As vezes rajadas de vento do mar zuniam por entre as cruzes das aspas e sacudiam ligeiramente os postes. Uns homens que bebiam aguardente e tiritavam, cobriam com encerados uma falua carregada de lenha e barricas de alcatrão, atracada no cais defronte do tablado.
A tropa e os ministros
As 6 horas e 42 minutos ainda mal se entrevia a faixa escura com umas cintilações de espadas nuas, que se avizinhava do cadafalso. Era um esquadrão de dragões. O patear cadente dos cavalos fazia um ruído cavo na terra empapada pela chuva. Atrás do esquadrão seguiam os ministros criminais, a cavalo, uns com as togas, outros de capa e volta, e o corregedor da corte com grande majestade pavorosa. Depois, uma caixa negra que se movia vagarosamente entre dois padres. Era a cadeirinha da marquesa de Távora, Dona Leonor. Alas de tropas ladeavam o préstilo, e à volta do tablado postaram-se os juizes do crime, aconchegando a capa das faces varejadas pelas cordas da chuva. Do lado da barra reboava o mugido das vagas, que rolavam e vinham chofrar espumas no parapeito do cais. Havia uma escada que subia para o patíbulo.
A chegada de Dona Leonor ao cadafalso A marquesa apeou da cadeirinha, dispensando o amparo dos padres. Ajoelhou no primeiro degrau da escada, e confessou-se por um espaço de 50 minutos. Entretanto martelava-se no cadafalso. Aperfeiçoavam-se as aspas, cravavam-se os pregos necessários à segurança dos postes, aparafusavam-se as roscas das rodas. Recebida a absolvição, a padecente subiu entre dois padres, a escada, na sua natural atitude altiva, direita como os olhos fitos no espetáculo dos tormentos. Trajava cetim escuro, fitas nas madeixas grisalhas, diamantes nas orelhas e num laço dos cabelos, envolta em capa de alvadia roçagante. Assim tinha sido presa, um mês antes. Nunca lhe tinham consentido que mudasse camisa nem lenço do pescoço. Receberam-na três algozes no topo da escada, e mandaram-na fazer um giro no cadafalso para ser bem vista e reconhecida.
A exposição dos tormentos
Depois, mostraram-lhe um por um os instrumentos das execuções, explicaram-lhe por miúdo como haviam de morrer seu marido, seus filhos, e o genro. Mostraram-lhe o maço de ferro que devia matar-lhe o esposo à pancadas na arca do peito, as tesouras ou aspas que se lhe haviam de quebrar os ossos das pernas e dos braços de todos os condenados e mostraram-lhe como era que as rodas operavam no garrote, cuja corda lhe mostravam, e o modo como ela repuxava e estrangulava ao desandar do arrocho. A marquesa então sucumbiu, chorou muito ansiada, e pediu que a matassem depressa. A decapitação
O algoz tirou-lhe a capa, e mandou-a sentar num banco de pinho, no centro do cadafalso, sobre a capa que dobrou devagar, horrendamente devagar. Ela sentou-se. Tinha as mãos amarradas, e não podia ajustar o vestido que caíra mal. Ergueu-se, e com um movimento do pé consertou a orla da saia. O algoz vendou-a; e ao pôr-lhe a mão no lenço que lhe cobria o pescoço – não me descomponhas – disse ela, e inclinou a cabeça que lhe foi decepada pela nuca, de um só golpe.
O verdadeiro verdugo
Este processo de carniçaria, naquela manhã de nevoeiro, debaixo de um céu de chumbo, impassível como a lâmina que degolou Leonor de Távora, há-de sempre lembrar com horror e piedade. Porém, que nome execrado, que verdugo responsável escreveremos na página da História? Sebastião José ( o marquês do Pombal), esse não tinha nada que ver com os adultérios de seu real amo e senhor. Mas agora, que temos ai à porta o centenário do marquês do Pombal, vem de molde a recordar alguns episódios daquele tempo.” Camilo Castelo Branco – Perfil do Marquês do Pombal, 1882
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