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Polônia, a luta pela Liberdade (Parte II)

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Polônia, a luta pela Liberdade (Parte I)
 
O longo cativeiro



Quais as causas de tantos e sucessivos fracassos, indagavam os poloneses? Desde o século XVIII, entendia-se que a causa da catástrofe fora o sistema do liberum veto que limitava a autoridade real. A anarquia resultante do excesso de liberdade por parte dos magnatas, o seu egoísmo de classe, e a intolerância e o atraso geral do país pareciam explicar o drama nacional. Essas teses, assegurou Kiesniewscz, compuseram a verdadeira legenda negra antipolonesa e foram, com o tempo, aceitas também pelos próprios poloneses.


A débâcle da Insurreição de Kosciuszco condenou a Polônia a um longo cativeiro de 123 anos, do qual ela somente se livrou ao final da Primeira Guerra Mundial, em 1918.
O exemplo corajoso e temerário de Kosciuszco, todavia, pairou para sempre na memória dos poloneses que nunca deixaram de sonhar com a conquista futura da liberdade. Situação que iria se repetir em 1830, em 1863, em 1918, em 1944 e em 1980.



O Ducado de Varsóvia (1807-1813)



Um laivo de esperança ainda sacudiu os poloneses por ocasião da ascensão do Império de Napoleão Bonaparte. Depois de ter batido os exércitos dos Habsburgo e dos Hohenzollern, em 1806-7, o conquistador francês percebeu as vantagens de estimular o nacionalismo e o patriotismo polonês em favor da sua causa. Legiões polonesas já haviam lutado ao lado dele na Itália e em diversas outras oportunidades, o que fez com que ele - dado o sucesso do levante nacional antiprussiano de Wielkopolska de novembro de 1806, comandado pelo general Jan Dabrowski - ordenasse a reorganização de um estado polonês, desaparecido no levante de 1795: o Ducado de Varsóvia, com uma extensão de 155 mil km², uma população de 4.300.000 de habitantes, e um exército de 39 mil soldados.


O novo exército nacional seria arregimentado a partir das legiões polonesas que haviam lutado ao lado dos franceses e seus comandantes formariam o novo oficialato do Ducado de Varsóvia. Na chefia dele, Napoleão distinguiu o príncipe José Poniatowski, bravíssimo sobrinho do último rei da Polônia, Stalislau II Augustus, e personagem que melhor encarnava o espírito romântico do cavalheiro audaz e destemido. Um símbolo vivo do ardente desejo de liberdade dos poloneses.


O governo polonês, formado por um triunvirato, estava submetido a um “Residente” - o representante de Napoleão -, no caso, o marechal Davout.


A Constituição do Ducado de Varsóvia, expressão do Código Napoleônico, estabeleceu: a) a igualdade de todos os cidadãos perante a lei; b) a abolição dos privilégios da szlachta (a nobreza); c) a abolição da servidão; d) os direitos políticos eram estendidos aos nobres e aos burgueses.




A dedicação das tropas polonesas ao imperador foi integral e total. Ficaram com Napoleão até o fim. Durante a invasão da Rússia em 1812, ficou registrada na história a devoção que os cavaleiros dos regimentos de hussardos poloneses tinham por Napoleão quando, durante a travessia do rio Niêmen, que separava a Polônia da Rússia, muitos deles, mesmo sendo tragados pela violência da correnteza, sendo puxados para o fundo das águas com suas montarias, ainda gritavam no meio do rio caudaloso: “Vive l´Empereur! Vive l´Empereur!” (incidente este também registrado por Tolstoi no “Guerra e Paz”).


Com Waterloo, batalha perdida por Bonaparte em março de 1815, o sonho de uma restauração polonesa novamente naufragou. No Congresso de Viena, de 1815, ela, reocupada pelos russos desde 1813, foi entregue à Rússia, sendo que um integrante da dinastia Romanov assumiu diretamente o encargo de ser o governante do país, chamado então de Reino da Polônia. Outras partes da Polônia foram por sua vez entregues à Prússia e à Áustria.

O Grande Exílio

Adam Mickiewicz
Mais uma tentativa libertária desencadeou-se em 29 de novembro de 1830, aproveitando-se dos fumos revolucionários vindos da França, ocasião em que o rei Carlos X, um monarca retrógrado, um Bourbon da velha estirpe, fora deposto por um levante popular. Foi o sinal para que os poloneses, seguindo a onda revolucionária, se erguessem, desejando assim afastar o duro punho do czar Nicolau I de Varsóvia, convocando um Governo Nacional para assumir-lhe o lugar. Uma rápida contra-ofensiva russa, que ocupou Varsóvia em setembro de 1831, sepultou logo os sonhos de liberdade. Nada lhes adiantou o marquês de Lafayette (o colega de Kosciusco na luta pela independência dos Estados Unidos), ter dito em Paris, “ Agora, somos todos poloneses”.


Abatidos e desiludidos com mais um fracasso, milhares de poloneses buscaram a estrada do exílio como a única saída possível naquelas circunstâncias dramáticas.
Entre eles, entre os que perderam a pátria, encontrava-se o jovem concertista Fréderik Chopin, que, foragido em Paris, veio a ser um dos mais famosos e populares compositores do século 19, e também Adam Mickiewicz (1798-1855), O Byron polonês, o poeta militante da sociedade secreta Philomathas&Philaretas que introduziu o romantismo na literatura polonesa, saudado como o bardo da resistência nacional durante aqueles anos tristes e obscuros da partilha, embalando os patriotas com versos candentes e atormentados:


“Agora minha alma vive no meu país/Minha pátria e eu formamos uma coisa só/Sinto como minha a sua dor e sofrimento/ ...sinto em mim mesmo o massacre do meu país/ do mesmo modo que uma mãe sente os tormentos do seu filho dentro do ventre”(“Dziady”, Parte III).


A mesma tentativa de levante repetiu-se em 1848, durante a chamada Primavera dos Povos, quando, por igual, fracassou a sublevação da Malopolska, a Pequena Polônia. Inúmeros patriotas poloneses, retomando a tradição legada por Kosciuszco, tornaram-se então ativos internacionalistas, lutando em outros países europeus contra a política da Santa Aliança: na Itália (Adam Mickiewicz e Wojciech Chrzanowski), na Alemanha (Wiktor Heltman, Ludwik Mieroslawski, Franciszek Sznajde), na Áustria (Józef Bem) e na Hungria (Józef Bem, Henryk Dembinski, Józef Wysocki).


Em 22 de janeiro de 1863, deu-se a última tentativa feita no século 19 para que eles, liderados por Targutt, recuperassem a sua liberdade. Protestando contra a convocação militar de jovens para servirem no exército do czar, milhares de civis rebelaram-se contra o domínio russo. Apesar da simpatia que arrancaram para a sua causa, novamente ninguém ajudou concretamente os sublevados (com exceção do líder dos anarquistas russos Mikhail Bakunin que, em nome do internacionalismo libertário, tentou engajar-se para ir lutar ao lado dos poloneses, todavia ficou a distancia, em Estocolmo, na Suécia).


Os russos somente conseguiram liquidar os últimos redutos de resistência em 1865. Os patriotas foram então deportados para a Sibéria: 18 mil deles foram condenados a longas penas de degredo. O czar Alexandre II ordenou a dissolução do Reino da Polônia, substituindo-o pelo País do Vístula, subdividido em 10 regiões, e transformado em província russa.

Guerra e revolução

A Polônia teve que esperar pela desgraça coletiva dos seus vizinhos, ocorrida ao fim da Primeira Guerra Mundial (1914-18), para, por fim, alcançar a independência. Somente com o desmantelamento dos Impérios Centrais (a derrota do IIº Reich na Alemanha e o fim do domínio dos Habsburgos na Áustria-Hungria), e o colapso da Dinastia Romanov, em 1917, a guerra civil que se espalhou pela Rússia na época da revolução bolchevique (1918- 1920), tornou possível a proclamação de uma república totalmente autônoma.


Mesmo assim, os estragos da guerra deixaram suas marcas por todas as partes. A presença dos exércitos estrangeiros, alemães, austríacos e russos, enfrentando-se por quase todo o território nacional, deixaram para a nova Polônia uma terra arrasada, praticamente sem recursos para estruturar o seu tão esperado estado-nacional. A Constituição de 1921, a da Segunda República, aboliu com todos os títulos de nobreza e introduziu o principio da igualdade cidadã (todavia, com a ampliação da crise econômica internacional desencadeada nos anos 30, a Polônia viu-se forçada a aprovar a Constituição autoritária de 1935).

A Polônia, que teve reconhecida sua autonomia pelos bolcheviques em março de 1918, entrou em guerra contra eles em 1920, atendendo à ambição estratégica do marechal Pilsudski, herói nacional, em manter o controle sobre os dois mares, o Báltico e o Negro. O Exército Vermelho reagiu por meio de uma contra-ofensiva e somente foi batido às portas de Varsóvia, quando o marechal Josef Pilsudski impôs-lhe severa derrota (“O milagre do Vístula”).




A nova partilha



Nos anos seguintes ao governo Pilsudski dois novos poderes ameaçantes à segurança da Polônia ergueram-se ao oeste e ao leste dela. Em 1933, o nacionalista radical Adolf Hitler assume o poder na Alemanha com explícitos planos expansionistas (o que implicava no reclamo dos territórios alemães cedidos à Polônia pelo Tratado de Versalhes, de 1919).


Em 1934, foi a vez de Stalin afirmar sua liderança absoluta sobre o Estado Soviético por ocasião do chamado “congresso dos vencedores”, ampliando o projeto de transformar a URSS numa grande potência. Duas nuvens negras carregadas com a tempestade da guerra - a do nazismo e a do stalinismo - ergueram-se sobre os horizontes das duas fronteiras da Polônia.


O país viu-se vitima primeiro da associação entre elas (o Pacto Germano-Soviético de agosto de 1939, que estabeleceu a partilha secreta da Polônia entre Hitler e Stalin, ficando o primeiro com ¾ dela), e, em seguida, no transcorrer da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), com a Polônia totalmente ocupada pelo IIIº Reich, de servir de palco para as batalhas brutais que alemães e soviéticos travaram sobre o seu território.


Além disso, o país foi o local escolhido pela política de extermínio em massa (Endlösung) desencadeado pelas forças de ocupação nazista contra judeus, ciganos e outras minorias, que lá construiu seus principais campos de morte (Auschwitz, Birkenau, Treblinka, etc).


Deu-se, por igual, um planejado massacre executado pela Einsatztruppe (tropa de extermínio) que visou abater as elites polonesas (políticos, intelectuais, acadêmicos, professores, padres, oficiais superiores, lideres sindicais, etc.), fazendo com que a Polônia, vitimada pela guerra racial nazista e ampliação do Lebensraum (espaço vital) desencadeada em 1939-1940, se tornasse uma das nações que proporcionalmente mais perdeu habitantes civis durante a Segunda Guerra Mundial (*)

(*) Segundo os dados oficiais do governo polonês apresentado em 1947;

- perdas civis resultantes das operações militares: 521 mil;

- Vitimas dos campos de concentração e excussões na liquidação dos guetos: 3.577 mil;

- Mortos por epidemias, exaustão, em prisões e nos campos: 1.286 mil;

- Fora dos campos, mortos por ferimentos e maus tratos e trabalhos forçados: 521 mil;

- Total: 6.544 mil (seis milhões quinhentos e quarenta e quatro mil mortos) sobre 35 milhões de habitantes existentes antes da IIª GM.




O levante de Varsóvia, 1944



Batidos os nazistas em Stalingrado, em janeiro de 1943 e novamente derrotados na batalha do bolsão de Kursk, na Ucrânia, em julho de 1943, a grande contra-ofensiva soviética aproximou-se das fronteiras da Polônia em 1944. Aproveitando-se do fato do Exército Vermelho estar nas cerca¬nias de Varsóvia, as forças da resistência polonesa do Armija Krazowa (AK), ligada ao governo exilado em Londres, lideradas pelo general Bor-Komarowscki, intentaram um surpreendente alçamento arma¬do contra os nazistas, para liberarem a cidade e o restante do país sem o auxilio dos russos.


Como os soviéticos não foram consultados sobre a conveniência da insurreição, iniciada em 1º de agosto de 1944, não houve articulação entre o comando polonês na capital e as tropas russas que estavam do outro lado do rio Vístula, acampadas há alguns quilômetros distantes. Deu-se então a tragédia.



Isoladas e mal equipadas, as forças do AK, que tentavam liberar a capital por seus próprios meios, depois de sustentarem um combate urbano desproporcional durante 63 dias dentro de Varsóvia, foram dizimadas pelas divisões blindadas da Wehrmacht e da SS, que, obedecendo a ordem de Hitler, destruíram com canhões e bombardeios aéreos praticamente nove décimos da capital polonesa (98% dos edifícios públicos foram dinamitados). Em meio aos destroços encontraram-se 200 mil mortos, vítimas de um dos mais terríveis massacres da população civil da Segunda Guerra Mundial.




Quadro histórico da Polônia



Polônia Medieval - O Estado da Polônia resulta da evolução das tribos eslavas descendentes de Lech (Polanies, Wislanies, Pomorzanies e Mazovianos) que unem-se para formá-lo. Mieszko ou Mieczyslau I, chefe dos polônios, torna-se o primeiro mandatário em 966 (ano da conversão ao cristianismo). O primeiro rei é Boleslau, o bravo, coroado em 1024. Guerras contra os tártaros e contra os Cavaleiros Teutônicos. Batalha de Grunvald, em 1410, vitória contra os Cavaleiros Teutônicos, afirmação do estado polonês. Ascensão da Dinastia Jagelônica (1386-1572). Período de independência e esplendor. Fundação da Dieta (Senado e Sejm) em 1493.


Polônia Moderna - Com o fim da Dinastia dos Jagelões. Em 1574, o rei torna-se eletivo. Estefan Bártori forma a Primeira República (união polonesa-lituana), em 1579. Época do “Dilúvio” (começo de 1609), país invadido por suecos, moscovitas e turcos. Início do culto à Virgem Negra de Czestochowa. Envolvimento na Grande Guerra do Norte (1709 -1721). Primeira Partilha da Polônia, em 1772 (Rússia, Prússia e Áustria). Colapso das reformas liberais. Insurgência de Kosciuzsco, 1794-5. A Segunda Partilha da Polônia, em 1795.


Polônia Contemporânea - Ducado de Varsóvia, pertencente à esfera do Império Napoleônico (1807-1813). Reino do Congresso (1815-1830), novamente tutelada pela Rússia. Insurreições anti-russas em 1830, 1848 e 1863. A Grande Imigração para ao resto da Europa e p/a América. Independência alcançada em 1918. Regime autoritário do marechal Pilsudski (1926-1935). Polônia invadida e ocupada pelos nazistas (1939-1945). Levante do Gueto de Varsóvia, em 1943, e do Exército Interior em Varsóvia, em 1944. Exército Vermelho ocupa a Polônia: implantação do stalinismo.

República Popular da Polônia, regime comunista (1948-1990), integrante do Pacto de Varsóvia. Novamente independente depois da formação do Sindicato Solidariedade e dos acontecimentos que levaram á queda do regime comunista (1980-1991)

Bibliografia

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Davies, Norman - O Levante de 44. São Paulo-Rio de Janerio: Editora Record, 2006.

Davies, Norman. - God’s Playground: A History of Poland (New York: Columbia University Press, 1982)

Davies, Norman. - Heart of Europe: A Short History of Poland (New York: Oxford University Press, 1984)

Heine, Marc E. - Poland (New York: Hippocrene Books, 1987)

Iwanicka, Halina. - A Thousand Years of Polish Heritage (Chicago: Commerce Clearing, Inc., 1966)

Kiniewicz, Jan - Historia de Polonia. México: Fondo de Cultura Económica, 2001.

Kieniewicz, Stefan, e Morawski, Kalikst - La Polonia e il Risorgimento italiano, Roma, 1961

Kula, Witold - Teoria Econômica do Sistema Feudal. Lisboa; Presença, s/data.

Nanke, C. - Maly Atlas Historyczny (Wroclaw: Panstwowe Przedsiebiorstwo Wydawnictw Kartograficznych, 1950).

Rousseau, Jean-Jacques - Consideraciones sobre Polonia. Madri.Tecnos, 1989.

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