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Espanha, o levante do Dois de Maio de 1808 (Parte II)
Ocupar toda a Ibéria A posse dos lugares estratégicos da península ibérica e sua estabilização política passaram a ser peça importante na logística napoleônica na sua luta de vida e morte contra o Império Britânico. Todavia, como obter isso se pai e filho se desacertavam na Espanha? Napoleão então os convocou em abril de 1808 para uma conversa em Bayonne, cidade fronteiriça, onde convenceu Carlos IV e Fernando a abdicarem da coroa em favor de José Bonaparte, o irmão do imperador. Episódio que ficou conhecido como a emboscada de Bayonne.
Mas a gota d´água da humilhação que fez entornar a paciência dos espanhóis foi a ordem dada pelo próprio Bonaparte de também trazerem para gozar da “proteção” em terras francesas, o infante, o pequeno Francisco de Paula, tirado do Palácio de Aranjuez e levado juntamente com a rainha Maria Luisa como virtuais prisioneiros do imperador.
O povo que testemunhara o “seqüestro” se enfuriou de vez. Não podia tolerar aquela afronta sem resistir, sem reagir. Turbas gritavam pelas ruas vivas a Fernando, “o Desejado”, enquanto entoavam morras a Godoy, “o Chouriceiro”
A Vingança do Três de Maio
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Atrocidades da guerra (Gravura de Goya)
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“A população de Madri perdeu-se, tratou por si mesmo de revoltar-se e assassinar. Sangue francês foi derramado.Precisamos nos vingar”.
Marechal Joaquim Murat (maio de 1808) Ao alto comando francês na Espanha tudo aquilo lhe pareceu uma insanidade. Uma loucura coletiva a ser saneada com pólvora e muito chumbo. Devia-se ferir fundo aquele populacho doido e arruaceiro, tal como o toureiro o faz arrancando o coração da besta. E assim, ao heróico Dois de Maio seguiu-se o trágico Três de Maio. Os pelotões franceses, marchando pelas ruas entulhadas, cercaram os civis suspeitos ao seu gosto levando-os em filas para as aforas de Madri.Fizeram-nos abrir as covas e forçaram-nos a se perfilarem frente aos fuziladores que tiveram um trabalho incessante. Calcula-se que 300 ou 400 foram passados pelas armas naquela jornada sombria.
Murat deu-se por satisfeito mas de pouco adiantou. O ódio ao francês espalhou-se como um raio. Começavam assim os anos negros da Espanha.
Goya alguns anos depois, em 1814, deixou seu testemunho em duas telas de dimensões cinematográficas imortalizando uma a bravura e a outra o martírio dos madrilenses naquele doloroso episódio (o pintor ainda concebeu outras duas, a “Defesa do Parque de Artilharia” e a “Revolta em frente ao Palácio Real”, mas infelizmente se perderam).
O poeta liberal Manuel José Quintana, por sua vez, que havia aderido à insurgência, dedicou ao levante e ao sofrimento subseqüente uma série de versos intitulados como “Poesias Patrióticas” que fez editar naquele ano mesmo de 1808. Neles denunciava a mediocridade do presente frente ao passado de glórias da Espanha de outrora.
As juntas patrióticas e a guerra contra o invasor
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A rendição francesa de Bailén (tela de Casado Del Alisal, 1864)
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A noticia da repressão ordenada por Murat incendiou as províncias: “Estremeceu-se a Espanha com o indigno rumor que ouviu/e um justo grande impulso atrás da sã justiça fez romper o vulcão que fervia no seu interior”. (M.J.Quintana) Negando-se a obedecer qualquer autoridade, juntas governativas se instituíram espontaneamente nas Astúrias, em Zaragoça, Sevilha, Valência, Cádiz, Granada, Valladolid, Oviedo, e tantos outros lugares, formando milícias próprias. Ninguém obedeceria mais a Madri. Emergiu então a figura do camponês-guerrilheiro. Milhares deles deram para assediar as guarnições francesas isoladas ou a emboscar, nos desfiladeiros da árida Castela ou do Aragão, as remessas de suprimento ou de reforço. Ainda que o exército espanhol sob comando do general Francisco Castaños tivesse alcançado um sucesso inicial em Bailén, entre 18 e 22 de julho de 1808, coube às guerrilhas travarem contra o invasor uma luta particular, sem regras e sem clemência, embaladas por fúria estridente. Agiam como “lobos famintos.” Em Valencia destacou-se Vicente Doménech, o El Palleter, um vendedor de rua; em Burgos projetou-se Juan Martin Díaz, El Empecinado um lavrador, enquanto que em Navarra foi a vez de Espoz y Mina, um fazendeiro, a colocar-se à frente dos combatentes locais.
Usaram pedras, machados, porretes, foices, garruchas e mosquetões fora de uso, empenhados num vale-tudo que Goya registrou em gravuras realistas: “Os Desastres da Guerra”(1810-1820). São imagens pavorosas, de mutilações, enforcamentos e estupros, nas quais se vê os resultados inumanos do ódio sem rédeas que tomou conta de todos naquela ocasião da luta da faca contra o canhão. Invocando a Virgem do Pilar e dando vivas a Cristo Rei, fizeram a vida ser um inferno para os soldados de Napoleão, que ainda chegaram a contar com 350 mil homens em 1811 para lutar contra aquele exército das sombras que eram as guerrilhas.
O Imperador, irritado, as chamou de “as úlceras da Espanha”. Entendeu-as como produto do reacionarismo de um povo fanatizado por um clero primitivo e ignorante. Uma sublevação tal como se dera na França na época da Guerra da Vendéia (1793-1799), levante que rejeitou a revolução de 1789 e os valores da Ilustração. Não se limitava a ser mais uma das suas campanhas, mas uma guerra travada contra todo um povo. O padre de aldeia e o rústico é que eram seus inimigos, não os soldados profissionais.
Num desabafo registrado nas “Memórias de Santa Helena”, feito muito mais tarde quando desterrado naquela ilha perdida do Atlântico Sul, confessou a um dos seus chegados: “Aquele miserável caso espanhol foi o que acabou comigo!”
Quando José Bonaparte, logo apelidado de Pepe Bodegas , o 'Pepe garrafas', pelo seu excessivo gosto pelas bebidas, entrou em Madri em julho de 1808, o seu domínio estava circunscrito aos arredores da capital. No restante imperava uma nação revoltada. Assim transcorreu a longa Guerra de Independência espanhola (em seguida reforçada pela britânica presença do general Wellington) que se estendeu até a retirada francesa em 1814. Von Clausewitz a denominou como a “primeira guerra total da Europa”. Águia derrotada, Napoleão perdeu na Ibéria entre 110 a 180 mil homens, e ainda, antes de abdicar, teve o dissabor em saber que a tropa remanescente da campanha espanhola, comandada no final pelo marechal Soult, encontrava-se sitiada em Toulouse, bem longe da fronteira dos Pirineus. Lá se rendera ao duque de Wellington em 10 de abril de 1814 (data do fim da Guerra de Independência espanhola ou da Guerra Peninsular como preferem os portugueses). A pobre Espanha, por sua vez, durante os sete anos de guerra, ficara em ruínas, contando com um milhão de mortos e centenas e centenas de aldeias e vilarejos arrasados e reduzidos à fome. Cidades inteiras, inúmeras, como Saragoça, Gerona e Cádiz, sitiadas e tomadas pelo exercito invasor, foram pilhadas e incendiadas pela soldadesca enfurecida.
Situação de empobrecimento geral que se agravou ainda mais com a perda da maior parte do império colonial hispano-americano devido às revoluções republicanas de 1810, lideradas por Bolívar, San Martin, Artigas, O´Higgens, Sucre, Santander e tantos outros caudilhos latino-americanos que se alçaram contra os representantes locais de uma metrópole em crise, reduzida à inanição.
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