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A China e a destruição do Palácio de Verão (Parte II)
Colonialistas em Pequim
Com apenas 1/3 das forças dos chineses (eram 10 mil contra 30 mil) os colonialistas abateram-nas de modo impiedoso. Graças à superioridade técnica e a potência das suas armas, a cavalaria mongol foi destroçada pela fuzilaria anglo-francesa enquanto a infantaria foi posta a correr. Xien Feng, preservando-se, retirou-se da cidade deixando o príncipe Gong com a ingrata tarefa de negociar com os vencedores a capitulação da dinastia.
No dia 6 de outubro os invasores ocuparam a Cidade Proibida em Pequim e, num primeiro momento, submeteram ao saque um dos palácios imperiais. Em seguida, arrancaram das autoridades locais que haviam restado a chamada Convenção de Pequim, acertada em 18 de outubro de 1860, que, além de confirmar os artigos danosos do tratado de Tiansin, alienou ainda mais territórios aos estrangeiros. Pelo imperador chinês ter encarcerado alguns negociadores britânicos e morto outros 20 homens brancos (inclusive um repórter do Times de Londres), lorde Elgin engendrou uma brutal vingança.
Naquele mesmo dia, o 18 de outubro, data infeliz para a história da cultura, ele determinou que 3.500 soldados adentrassem no Palácio de Verão com a tarefa de destruí-lo. Por três dias seguidos, não antes de pilhá-los, os pelotões anglo-franceses explodiram ou colocaram fogo nos magníficos edifícios. Os que se diziam representantes da civilização e da cultura a mais elevada da terra não hesitaram em agir como verdadeiros selvagens frente aos chineses. O imperador Xian Feng, ainda que com apenas 30 anos de idade, não resistiu à dor e a indignação daquela derrota vindo a falecer no seu palácio em Jehol, em 22 de agosto de 1861.
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Grande entrada do Palácio de Inverno, Pequim (1860)
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O então jovem capitão do regimento dos Engenheiros da Rainha, Charles Gordon (mais tarde famoso general colonialista, morto em Cartum, no Sudão, em 1885), se bem que lastimou a operação, que ele entendeu indigna do exército britânico, lamentou numa carta a um colega que seus homens encarregados da destruição dos palácios não tiveram tempo suficiente para por tudo a baixo. Pior ainda foi não terem conseguido levar as placas de fino ouro afixadas em muitas das paredes, pois confundiram-nas com simples latão.
Quando um oficial inglês conhecido de Victor Hugo mandou-lhe correspondência exaltando o feito, “honorável e glorioso”, das forças anglo-francesas delas terem arrasado com aquelas construções, o escritor se indignou. Considerou os jardins como uma obra-prima desconhecida pelos europeus, uma das grandes maravilhas que se encontrava numa das esquinas do mundo oriental. Comparou o ato predador dos colonialistas à rapinagem de dois bandidos, “um chamado França e o outro Inglaterra”, que entram num museu para depredá-lo, retirando-se em seguida de mãos dadas carregando várias sacolas com o produto do saque. Esperava que a França algum dia devolvesse o botim à China.
Ele foi um dos poucos intelectuais europeus do seu tempo a entender que as potencias ocidentais, sempre tão ciosas de serem vistas como paradigmas da civilização, haviam cometido um crime de lesa-cultura de dimensões incalculáveis. (Ao capitão Butler /Hauteville House, 25 November, 1861).
Karl Marx, em artigos ao New York Daily Tribune, cobrindo os eventos do Extremo-Oriente, ateve-se às questões comerciais e econômicas da Segunda Guerra do Ópio, não emitindo opinião sobre o ato de vandalismo dos europeus contra o patrimônio histórico da China.
No entender dele, um exaltado admirador da globalização, o grande mérito da agressão britânica foi ter posto a baixo o Império Celestial que até então teimosamente se negava a fazer parte do comércio internacional. Era uma excrescência bárbara que tinha que ser arrancada do seu torpor e trazida ao mundo moderno ainda que fosse pelo constrangimento dos canhões. O capitalismo, afinal, era muito superior ao despotismo oriental. Numa das suas frases que ficou famosa, acreditou que a história tinha decidido primeiro drogar os chineses para que assim, mais tarde, “eles pudessem vir a romper com sua estupidez hereditária”.
China : principais Tratados & Concessões (1842 - 1901)
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Cartaz celebrando a vitória do guerreiro ocidental sobre o monstruoso dragão chinês
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1842 - Tratado de Nanquim , assinado em 29 de agosto de 1842: a China concede à Inglaterra, em razão da sua derrota na 1ª Guerra do Ópio, a abertura de cinco portos (Cantão, Fuzhou, Xiamen, Ningbo e Shangai), a entrega a ilha de Hong Kong em caráter perpétuo e uma indenização aos traficantes expropriados por Lin Zexu, no valor de 6 milhões de liang de prata, além disso pagam mais 12 milhões aos ingleses como despesa de guerra. Pelo Tratado complementar de Hu-men, de 1843, a Inglaterra recebe o tratamento de nação mais favorecida, fazendo com que suas mercadorias paguem apenas 5% de imposto ad valorem 1844 - Tratado de Wangxia: assinado com os E.U.A. em fevereiro de 1844, onde todos os privilégios concedidos aos ingleses são estendidos aos americanos , inclusive o direito de enviar barcos de guerra aos portos abertos ao comércio para proteger os interesses dos negociantes americanos.
1844 - Tratado de Huangpu: assinado com a França , em outubro de 1844. Confirma os privilégios concedidos nos tratados anteriores, mais o fim da proibição de difundir o catolicismo nos portos abertos ao comércio.
1858 - Tratado de Tianjin: tratado múltiplo, assinado em junho de 1858, com a Grã-Bretanha, Rússia, E.U.A.e França, como resultado da derrota chinesa na 2ª Guerra do Ópio (1856-1860). Estabelecimento de legações estrangeiras em Pequim. Abertura de mais 10 portos chineses ao comércio internacional ( Niuzhuang, Dengzhou, Tainan, Danshui, Chaozhou, Qiongzhou, Hankou, Jiujiang, Nanjing e Zhenjiang). Permite-se o livre trânsito dos estrangeiros, particularmente dos missionários cristãos, pelo interior do país e a livre navegação dos barcos de guerra. Fixa-se uma indenização de guerra a ser paga à Inglaterra e à França (4 milhões de onças de prata à primeira e 2 milhões à segunda). Dois outros tratados posteriores, o sino-britânico e o sino-francês, em 1860, aumentaram seu valor para 8 milhões de onças de prata. Os ingleses ampliaram seu domínio na região de Hong Kong ao se apropriarem da península de Kaulun Legalizou-se em definitivo o comércio de ópio e os ingleses assumiram em conjunto com os chineses a administração alfandegária. Em 1860, outorgou-se a sir Robert Hart o cargo de Inspetor Geral das Aduanas, posição que ele manteve até 1908.
1858 - Tratado de Aihui, assinado com a Rússia, em maio de 1858, que, complementado com uma série de outros tratados , fizeram a China ceder 1.500.000 km2 do seu território. Mais tarde, em 1881, pelo Tratado de Yili, mais 90 mil km2 foram entregues aos russos., juntamente com os portos de Vladivostok e Port Arthur.
1895 - Tratado de Shimonoseki, assinado com o Japão, em abril de 1895, como resultado da derrota chinesa na guerra sino-japonesa de 1894-5. China cedeu a península de Liaodong ( mais tarde arrendada à Rússia por 25 anos), a ilha de Taiwan ( Formosa) e mais 235 pequenas outras ilhas, o arquipélago de Penehu ( ilhas dos Pescadores) e uma indenização de 200 milhões de liang de prata. Abriu também as cidades de Shanshi, Chongqing. Suzhou, Hangzhou e aceitou a tutela definitiva do Japão sobre a Coréia.
1897 - Arrendamento da baía de Jiazhou por 99 anos à Alemanha, bem como a permissão da construção de uma estrada-de-ferro ligando Jiaozhou a Jinan, com direitos de exploração das minas encontradas a 15 km de cada lado dela. Depois do Tratado de Versalhes, de 1919, a China reivindicou o controle dessa região, mas as potências coloniais entregaram-na ao Japão. Isso provocou o Movimento de Maio de 1919, início histórico da rebelião estudantil- nacionalista chinesa no nosso século contra o domínio colonial.
1899 - Política de “portas abertas” proposta pelo presidente Theodor Roosevelt dos E.U.A., segundo a qual todo o pais que tivesse obtido concessões junto à China deveria partilhá-las com os outros, proclamando-se a “igualdade de oportunidades”e uma “divisão conjunta dos benefícios ” . Os governos da Inglaterra, Rússia, Alemanha. Japão e. Itália e França aceitaram
1901 - Protocolo dos Boxers ( Movimento Yiethuan), assinado em 7 de setembro de 1901, pelo governo Qing da imperatriz-viúva Cixi, com as 8 potências colonialistas, como resultado da sangrenta intervenção militar conjunta delas em Pequim para sufocar a rebelião nacionalista dos boxers (Yiethuan) que cercara as legações estrangeiras na capital imperial.. Indenização de 450 milhões de taéis, ou U$ 333 milhões de dólares, a ser paga pelo governo Qing durante os 39 anos seguintes, até dezembro de 1940, quando, numa escala ascendente, atingiria a quase 1 bilhão de taéis. O governo imperial ficou também encarregado de executar a machado e à espada as principais lideranças do levante nacionalista dos boxers.
Doravante chineses não poderiam entrar nos bairros das legações estrangeiras as quais poderiam acantonar suas tropas , bem como obrigaram os chineses a desmontar a fortaleza de Dagu. Na prática Pequim poderia ser ocupada quase que instantaneamente por qualquer guarnição estrangeira acampada nos seus arredores.
Bonner-Smith, D. - Lumby, E., ‘The Second China War: 1856-1860,’ New York: State Mutual Book and Periodical Service Ltd., 1987.
Garrett, V., ‘Heaven is High and the Emperor Far Away: Mandarins and Merchants in Old Canton,’ NovaYork: Oxford University Press, 2002.
Graham, S., ‘The China Station: War and Diplomacy 1830-1860,’ Nova York: Oxford University Press, 1979.
Hugo, Victor - The sack of the Summer Palace. Letter to Captain Butler, Hauteville House,25 Novembro de 1861.
Janin, H., ‘The India-China Opium Trade in the 19th Century,’ Jefferson: McFarland and Co., 1999.
Marx, Karl – Trade or Opium? Articles in New York Tribune, 1858-1860
Wong, J., ‘Deadly Dreams: Opium, Imperialism and the Arrow War (1856-1860) in China,’. Nova York: Cambridge University Press, 1998.
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