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A marcha da morte do general Sherman (parte III)

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» A marcha da morte do general Sherman (parte IV)
 
Uma das maiores máculas da Guerra de Secessão norte-americana (1861-65) foi a campanha de devastação realizada pelo general William Tecumseh Sherman contra os estados rebelados do Sul. Arrasando preferencialmente os campos, as fazendas, as fábricas, as ferrovias, as cidades dos confederados, encurtou a guerra mas encheu os americanos de pavor: "A mais monstruosamente bárbara das marchas dos bárbaros".

Em direção a Savannah

No dia 14 de novembro de 1864, duas colunas da cavalaria nortista partiram das proximidades de Atlanta, ainda em chamas, em direção ao mar. Uma delas, a da ala esquerda, era comandada pelo general Henry Slocum, a outra,a da direita, pelo general Oliver Howard, cada um com 12 mil soldados, com a tarefa de arrasar tudo o que vissem pela frente. A ordem dele talvez espelhasse inconscientemente o nome de batismo que lhe deram, Tecumseh, "a pantera do céu" (era um shawnee de Ohio, tido como profeta nativo que movera uma guerra bárbara contra os brancos em 1812), como também foi "democrática" pois a tropa incinerou tanto as pequenas e médias propriedades da gente miúda como as famosas herdades de estilo neoclássico dos grandes proprietários de escravos do Sul (como se deu ficcionalmente com a fazenda "Tara" no famoso filme "E o vento levou" de 1939).

Sherman determinou que seus homens conseguissem a forragem pelo caminho para não perderem tempo com as bagagens e a lentidão das carroças de mantimento. Para tanto, lançaram mão dos bummers, apelidados "os vadios de Sherman", que atacavam os sítios e as fazendas em reduzidos bandos como se fossem uma alcatéia de lobos famintos, levando tudo o que podiam e tocando fogo no que restava.

Segundo um deles : "Destruíamos tudo o que não pudéssemos comer, roubamos os negros, queimávamos o algodão e as máquinas desfiadoras deles, derramávamos os grãos, queimávamos e entortávamos os trilhos das estradas de ferro (o famoso "pescoço de Sherman"), era um inferno".

Até alcançarem a periferia de Savannah, 460 km distante e 35 dias depois, nas vésperas do natal de 1864, fazendo uma média de 19 a 24 km/ por dia, tudo foi devastado pelos ianques. A guarnição do porto, uns 10 mil confederados, decidiu abandonar a cidade sem dar combate. O pavor de cair nas mãos do general nortista chegara até eles. Acatavam assim ao aviso que as vanguardas dele gostavam de dar: "somos os homens de Bill Sherman, é bom vocês irem embora".

Com isso consagrou um dos seus propósitos: "Meu intento então era chicotear os rebeldes, rebaixar o orgulho deles, perseguí-los até o mais fundo dos seus recessos, e fazer eles terem medo e terror de nós" (in "Memórias do general Sherman")

Num telegrama a Lincoln, Sherman escreveu que a tomada de Savannah era um "Christmas gift, um “presente de Natal" ao presidente, informando-lhe a captura da cidade, de 150 canhões pesados e mais 25 mil fardos de algodão.

A campanha da Carolina do Sul

Sherman e seu estado-maior cruzam o rio Board ( Carolina do Sul, 1865, gravura de W.Waud)
Feito isso, abastecido por mar pelas cargas nortistas, Sherman após um mês de descanso voltou-se para o norte para assediar as Carolinas (do sul e do norte). A marcha recomeçou a 1º de fevereiro de 1865 para, segundo ele, "saciar o desejo de vingança contra a Carolina do Sul", estado "covarde e traidor" que para os seus soldados "era o buraco do inferno da secessão".(*)

Columbia, a sua capital, era seu objetivo (Liddel Hart exalta o fato de que o general ianque, naquela marcha épica, nunca deixou transparecer qual seria o seu verdadeiro alvo, provocando grande confusão nas fileiras confederadas que tentavam criar obstáculos à ofensiva dele).

Com a travessia do rio Salkahatchie começava o martírio da Carolina do Sul, que suportou o avanço de mais de 60 mil homens de Sherman e, pior, dos seus bummers, que acompanhavam as colunas assaltando as propriedades como se fossem nuvens de gafanhotos predadores (até os dias de hoje, transcorridos mais de 140 anos da invasão da Carolina do Sul, ainda se encontram as cicatrizes deixadas pela passagem dos ianques).

Ainda que no inverno, com parte do terreno formado por pântanos submetidos a aguaceiros intensos, precisando transpor nove rios, nada os deteve. Façanha que arrancou admiração do seu adversário pois o general Johnston, que lhe dava combate, afirmou que somente as legiões de César conseguiam aquele tipo de feito.

Deu-se então a vez de Columbia arder. Evacuada no dia 17 de fevereiro de 1865 pelo general confederado Hampton que não resistiu, uma multidão de escravos negros, prisioneiros libertos, misturados às tropas ianques que chegavam, encharcados com uísque, tomou conta das ruas. Prendendo fogo em fardos de algodão deixados ao acaso, depois de pilharem o que havia, terminaram por jogar tochas acesas nas casas e nos prédios públicos. Tudo de madeira, tudo ardeu.

O espetáculo chocou um oficial nortista Thomas Osborn, um artilheiro que testemunhou o holocausto da capital sulista. Um local que chegara a abrigar 20 ou 30 mil habitantes reduziu-se às cinzas em questão de horas.

Os prisioneiros capturados estavam em estado deplorável. A maioria dos milicianos que se renderam aos ianques era formada por gente idosa, "de cabelos brancos", assegurou ele, ou de rapazolas imberbes e maltrapilhos que mal tinham força para carregar um mosquete (ver Thomas Osborn - The Fiery Trail, p. 128). Era enfim um retrato vivo da agonia dos confederados.

Sherman chegou a comentar os acontecimentos que se passavam dizendo "todo exército está queimando tomado pela insaciável vingança contra a Carolina do Sul. Eu a todo momento tremo pelo seu destino, mas sinto que ela merece tudo o que lhe foi reservado"(James M.McPherson – The Battle cry of Freedom, p. 826)

(*) O começo da guerra civil dera-se quando os confederados atacaram de surpresa o Forte Sumter, situado na Carolina do Sul, em 12 de abril de 1861, em protesto contra a posse de Abraão Lincoln na presidência dos Estados Unidos.

A etapa final da marcha

"Guerra é inferno!" Sherman em meio ao fogo
Quando Sherman retomou o roteiro da devastação, rumando para Fayetteville, na Carolina do Norte, ocupada em 11 de março de 1865, deixou para trás 66 dias de inferno.

A Carolina do Norte, ao contrário da sua gêmea, recebeu tratamento melhor. Uma ordem do general Slocum determinava que os praças e oficiais não considerassem a população civil local como inimiga, visto que aquele estado foi o último a aderir à secessão e que antes da guerra abrigava um forte partido pró-união, determinando portanto que não promovessem a destruição desnecessária das propriedades nem maus tratos contra os seus habitantes.

Ainda assim não salvou Fayetteville de ser submetida da pilhagem, sendo que quadra por quadra da cidade foi entregue à sanha da soldadesca ianque. Como registrou uma senhora sobrevivente, "eles mataram as galinhas, os gansos, os perus, as vacas, os bezerros e qualquer outra coisa viva, inclusive nosso cão de estimação" (citado por Tony L. Crumbley - General Sherman's March Across North Carolina). Foi uma espécie de fecho final da barbárie cometida contra os confederados. A retaguarda de Lee finalmente estava exposta. Premido por Grant ao norte e por Sherman ao sul a Confederação por fim capitulou depois de quatro anos de luta.

No dia 26 de abril, em Durham, na Carolina do Norte, o general confederado Johnston rendeu-se ao general Sherman, encerrando-se assim a campanha das Carolinas, simultaneamente ao fim da guerra da secessão, que já havia sido acertada pela da Paz de Appomatox entre o general Robert Lee e o general Ulyssses Grant, assinada na Casa da Corte daquela cidade da Virginia, no dia 9 de abril daquele mesmo ano.

A marcha, que se estendeu por mais de mil quilômetros, superara todos os obstáculos a que cavalaria sulista do general John Wheeler e os milicianos locais se lhe antepuseram.

É difícil calcular os prejuízos causados pelo vandalismo propositado dos ianques, pelo incêndio das cidades pelas quais as colunas de Sherman passaram , pelos inúmeros deslocamentos da população civil forçada à fuga em massa, pela dizimação do gado e outros animais domésticos, pelo estrago das colheitas, somados ao implacável tratamento dado aos prisioneiros quando eram capturados em número pequeno.

Casos de fuzilamentos sumários e mesmo de degolas e mutilações eram comuns, além dos estupros e assassinatos, sem deixar-se de mencionar as terras desoladas e moradias e celeiros queimados que ficaram para trás nos seus deslocamentos em direção a Savannah e depois às Carolinas.

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