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Abolição: a Revolução da Compaixão (parte II)

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» Abolição: a Revolução da Compaixão (parte I)
» Abolição: a Revolução da Compaixão (parte III)
 
Um conjunto de fatores econômicos, sócio-culturais, e ético-religiosos, conduziu a que um reduzido grupo de ativistas ingleses, súditos de um dos reinos europeus que até então mais lucrara com o tráfico transatlântico de escravos, desse início durante a segunda metade do século XVIII a uma intensa campanha por um fim naquele negócio infame. Coube à Grã-Bretanha, pátria das máquinas, das liberdades individuais e do capitalismo nascente, erguer por primeiro a bandeira do abolicionismo. Entre eles, liderando uma Revolução da Compaixão, projetou-se o incansável teólogo John Wesley (1703-1791), o fundador do Metodismo, que se empenhou por muitos anos contra o que chamou de "execrável vilania" que tanto lucro dava aos portos de Londres, Liverpool, Bristol e tantos outros mais das ilhas britânicas.

Reflexões sobre a escravidão

Um dos mais vigorosos arrazoados que Wesley fez contra a desumanidade da exploração dos africanos, foi o sermão intitulado Thoughts Upon Slavery, "Reflexões sobre a Escravidão", de 1774. Tratou-se de uma alentada peça de denúncia social na qual ele procurou refutar, ponto por ponto, todos os argumentos usados até então pelos defensores do escravagismo. É também um histórico dos passos dados pelos traficantes europeus , agindo no litoral da África, na Guiné, na Costa do Ouro, no Benin e na Serra Leoa, no sentido de ampliarem o seu imoral negócio, absolutamente incompatível com a doutrina cristã. Wesley narra com palavras pungentes como aquela gente mansa da África viu-se enredada, pela força ou pela fraude, a embarcar nos negreiros e como aqueles europeus tinham total responsabilidade na devastação que a presença deles provocava nas regiões costeiras da África, deixando tudo desabitado e abandonado, com a lavoura tribal ficando ao léu, voltando tudo a ser área inculta.

Citando testemunhos diretos, provou que era a ação dos traficantes brancos quem incitava a que os sobas, os chefes das tribos litorâneas, saíssem pelo interior à apresar mão-de-obra, trazida depois a garrote e a chicote para dentro dos porões dos barcos. Capturados, deixavam-nos totalmente nus, com os pudores expostos como se fossem animais, sem nenhuma outra preocupação senão a de verificarem se estavam aptos para labutar no eito ou nas minas, destino que os aguardava do outro lado do oceano. Era,pois, o capital inglês quem se acumpliciava com aquilo.

"Não seja um lobo devorando as espécies humanas"

"... e isso diz respeito igualmente a cada Mercador que está envolvido com o Tráfico de Escravos. É você que induz o vilão africano a vender seus conterrâneos e, em conseqüência disso, a roubar, assaltar, assassinar uma infinidade de homens, mulheres e crianças . Ao permitindo ao vilão inglês pagar para que ele aja desse modo, é sobre você que recai esse execrável trabalho. É do seu dinheiro que brota tudo...assim sendo qualquer coisa que o africano faça, decorre de atitudes suas. Como sua consciência se concilia com isso?Ela nunca o repreende? Teria o ouro cegado completamente seus olhos e endurecido o seu coração? Não pode ver nem sentir nenhum mal nisso?.... Não tenha mais nenhuma participação nesse negócio, o mais detestável.Largue-o imediatamente para os que não têm sentimento. "Quem pode rir da natureza humana e da compaixão...você é um ser humano? Não seja um lobo devorando as espécies humanas."

[John Wesley "Thoughs Upon Slavery", Londres: R.Hawes, 3ª edição., 1774]

Que não viessem com argumentos de que as plantações das colônias somente podiam prosperar com o suor africano e que os brancos não tinham a aptidão necessária para lavrar a sol a pino como os negros o faziam nos trópicos. Mesmo se assim fora, a produção assim gerada não podia ser justificada pelas práticas desumanas que a acompanhavam. Radicalizando, afirmou então que:

it were better that all those islands should remain uncultivated for ever; yea, it were more desirable that they were altogether sunk in the depth of the sea, than that they should be cultivated at so high a price as the violation of justice, mercy, and truth.

["Era melhor que aquelas ilhas ficassem sem cultivo para sempre; sim, era mais desejável que elas afundassem nas profundezas do oceano, do que se verem cultivadas por um preço tão alto que implicava na violação da justiça, da misericórdia e da verdade"].

Arrematou o sermão com uma exortação exemplar aos seus concidadãos para que não mais convivessem com o fato de que seus bens, seus móveis e utensílios, fossem obtidos com o espirrar do sangue de milhares de inocentes, homens, mulheres e crianças, vítimas de um sistema vicioso cuja existência em tudo negava os Mandamentos Supremos. Para atingir ainda mais profundamente os sentimentos daqueles que acompanhavam suas predicações e exortações, Wesley mandou que recolhessem junto aos marinheiros das embarcações negreiras um conjunto de instrumentos de tortura, todos de couro e ferro, que eram usados a bordo pelos capatazes para castigar ou manietar os escravos, expondo-os ao público para que vissem o horror a que outros seres humanos eram submetidos durante as travessias atlânticas.

A Lei da Abolição de 1807

William Wilberforce ( 1759-1833)
Finalmente, após uma batalha parlamentar que se estendeu por quase duas décadas, Wilberforce viu, ainda que parcialmente, seus esforços serem compensados. No ano de 1805, os Comuns aprovaram uma lei que proibia aos britânicos envolverem-se na captura ou no transporte de escravos. Todavia ela não foi confirmada pela Casa dos Lordes, bastião do ultra-conservadorismo. No ano seguinte, os abolicionistas voltaram a carga, e, dessa vez, com a formação de um governo Whig (liberal), liderado pelo Lord Grenville e Charles Fox, como secretário das relações exteriores, deram sustentação a demanda de Wilberforce. Grenville conseguiu dobrar a resistência da Casa dos Lordes depois de fazer um veemente discurso denunciando a escravidão como "contrária aos princípios da justiça, humanidade e sã política".

A Abolition of the Slave Trade Bill foi aprovada entre os Lordes por 41 votos contra 20 e na Casa dos Comuns por 114 a 15, tornando-se lei em 25 de março de 1807. Os donos de barcos ingleses que fossem pegos envolvidos na ilegalidade seriam multados em 100 libras caso fossem encontradas a bordo evidencias da prática nefanda. O efeito dela não foi imediato, mas gradativamente, nas décadas seguintes, devido ao evidente controle dos mares e oceanos exercido pela Royal Navy, a marinha britânica, os cruzadores de Sua Majestade foram se impondo sobre os traficantes, caçando eles tanto no litoral africano como em alto mar.(*) A abolição definitiva da escravidão nos território controlados pela Grã-Bretanha somente ocorreu em 1833, como a adoção do Slavery Abolition Act, uma espécie de epílogo dos esforços de Wilberforce e de todos os abolicionistas que lutaram com ele. Naquele mesmo ano Wilberforce, o combatente da liberdade, foi enterrado com todas as honras na Abadia de Westminster, pouco depois do 29 de julho de 1833.

(*) O Brasil, maior império escravista do mundo desde o fim do Império Romano, resistiu a determinação britânica. Desde os tempos em que a Corte Portuguesa estava sediada no Rio de Janeiro, os traficantes e proprietários de escravos conseguiram protelar ao máximo as medidas que visassem coibir o comércio negreiro. Isso forçou a que o Parlamento Britânico aprovasse o Aberdeen Act, a Lei Aberdeen, de 9 de agosto de 1845, que procurou regular a suspensão definitiva do tráfico. O ato, segundo a Convenção assinada entre Sua Majestade e o Imperador do Brasil (D.Pedro II), dava autoridade para que qualquer navio brasileiro suspeito fosse abordado em alto mar por uma nave britânica dotada de autoridade policial. Comprovado o delito, os cativos seriam recambiados de volta para a África, enquanto o navio era apreendido. O Aberdeen Act foi complementado no Brasil pela aprovação da Lei Eusébio de Queirós, de 4 de setembro de 1850, que proibiu definitivamente a importação do braço africano. A abolição final da escravatura no Brasil somente se deu 38 anos depois com a promulgação da Lei Áurea, assinada pela princesa Isabel no dia 13 de maio de 1888.

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