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Abolição: a Revolução da Compaixão

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Um conjunto de fatores econômicos, sócio-culturais, e ético-religiosos, conduziu a que um reduzido grupo de ativistas ingleses, súditos de um dos reinos europeus que até então mais lucrara com o tráfico transatlântico de escravos, desse início durante a segunda metade do século XVIII a uma intensa campanha por um fim naquele negócio infame. Coube à Grã-Bretanha, pátria das máquinas, das liberdades individuais e do capitalismo nascente, erguer por primeiro a bandeira do abolicionismo. Entre eles, liderando uma Revolução da Compaixão, projetou-se o incansável teólogo John Wesley (1703-1791), o fundador do Metodismo, que se empenhou por muitos anos contra o que chamou de "execrável vilania" que tanto lucro dava aos portos de Londres, Liverpool, Bristol e tantos outros mais das ilhas britânicas.

Causas materiais da abolição

O reverendo Wesley (1703-1791)
A maioria dos historiadores de viés socialista, condicionados a entenderem as modificações sociais, culturais e morais que ocorreram na história em função das macro-relações econômicas, entenderam o abolicionismo anglo-francês como um fenômeno que resultou de um subproduto da Revolução Industrial do século XVIII. A escravidão não podia subsistir numa ordem produtiva que cada vez mais dependia da dinâmica da tecnologia e da máquina, no caso da máquina a vapor, instrumento que transformou radicalmente todo o processo produtivo como até então era conhecido.

O capitalismo industrial, então nascente, precisava de uma ordem econômica internacional baseada no trabalho assalariado pelo simples motivo de que a produção em massa desencadeada pelas fábricas têxteis e suas congêneres em Manchester, Londres, Liverpool ou Lyon, exigia que houvesse um número crescente de consumidores e esses somente poderiam existir num mercado mundial formado por gente que vivesse de salários. Somava-se a isso o fato da renda deles contribuir para o aumento da população e para uma maior eficácia produtiva. A máquina e o barracão de operários era, pois, hostil ao eito e à senzala. Se as precisões do açúcar e do tabaco foram as madrastas da escravidão africana, a máquina-a-vapor foi a parteira da adoção universal do trabalho livre.

Todavia, se a produção fabril era incompatível com a escravidão, como explicar a mobilização dos manufatureiros e mercadores da cidade de Manchester – sede do industrialismo britânico - contra a Lei da Abolição de 1807? Petição que, em seguida, foi acompanhada por uma outra, assinada por grande parte da população da cidade, solidária com os capitalistas locais.

Tempos antes, coube a Adam Smith (1723-1790), o maior teórico econômico-social e um dos maiores filósofos morais daquele século, tão pródigo em pensamentos inovadores, condenar a escravidão pelo viés da sua ineficiência e alto custo se comparada ao trabalho livre. No "Wealth of the Nations" "A Riqueza das Nações", de 1776, ele escreveu que:

"De acordo, pois, com a experiência de todos os séculos e nações, nos parece evidente que os trabalhos feitos por homens livres custam sempre mais baratos, no geral, do que aquele realizado por escravos" ( Livro I, cap.VIII).

Interessa observar que os críticos britânicos, particularmente seus economistas políticos, obedientes a tradição utilitarista, optaram por opor-se à escravidão recorrendo preferencialmente a argumentos econômicos (ela era onerosa para os senhores), enquanto os teólogos, pastores e reverendos, apelando para o coração, davam ênfase à contradição moral entre os princípios do cristianismo, a Religião do Amor, e a execrável instituição, baseada do principio ao fim na coerção e no castigo. (*)

(*) Nem o argumento moral (dos teólogos, pastores e pensadores) nem o utilistarista( dos economistas-políticos e dos fisiocratas) freou o ímpeto dos comerciantes negreiros ingleses, visto que, se em Londres e Bristol, em 1746, apenas 46 navios dedicavam-se ao tráfico, entre 1772-5 eles saltaram para 161.

Não deve assim causar nenhuma surpresa o fato dos dois países que se colocaram na liderança da abolição no Século das Luzes, a França e a Grã-Bretanha - os mais avançados do mundo daquela época no que tange à tecnologia -, assumirem por primeiro a vanguarda da luta contra o tráfico negreiro e , em seguida, no engajamento que iria por um fim na escravidão ( ainda que muitos dos negociantes de escravos, ingleses e franceses, envolvidos no "comércio do diabo" amealhassem fortunas). Enquanto isso, os Estados Unidos da América e o Império do Brasil, países eminentemente agrícolas do Novo Mundo, que viviam da larga exploração do braço cativo (empregado nas lavouras de tabaco, algodão, açúcar, café, e na mineração, respectivamente), somente se converteram ao abolicionismo bem mais a tarde, quase um século depois dos quakers e dos metodistas ingleses. Todavia, esse conhecido exercício da historiografia socialista, ressaltando a plena articulação entre o interesse econômico e o movimento a favor da liberdade dos escravos, não consegue explicar o emocionante empenho de milhares de homens e mulheres comuns, daqueles dois países, que se dedicaram com ardor à causa da abolição sem ter nenhuma ligação ou vantagem econômica, direta ou indireta, com o fim do trabalho cativo. O que de fato ocorreu foi decorrente de uma enorme Revolução Moral que, contando com o apoio de escritores, cientistas, pregadores das mais diversas seitas cristãs - se espalhou por todo o século XVIII e parte do XIX, conseguindo enfim libertar para sempre o trabalho braçal dos estigmas da servidão e da escravidão.

Wesley pregando contra a escravidão

Para Elie Halévy ,o famoso historiado francês da sociedade britânica, não pairavam dúvidas que os sucessos dos movimentos religiosos populares (que os historiadores na América do Norte designaram com o Primeiro Despertar Religioso) que se difundiram nas ilhas britânicas entre os séculos XVIII e boa parte do XIX, foram os mais evidente responsáveis pelo governo da Dinastia de Hanover, que reinava sobre a Grã-Bretanha, não sofrer as desastrosas conseqüências de uma convulsão social, revolucionária e sangrenta. como, por exemplo, a que devastou a França entre 1789 e 1795. E, entre as mais famosas afirmações de Halévy foi quando assegurou que "o Metodismo foi o antídoto do Jacobinismo". (*)

Foi graças a Grã-Bretanha contar com o incansável proselitismo piedoso do reverendo John Wesley (1703-1791), acompanhado por sua intensa obra social em favor dos pobres e dos destituídos em geral, Londres não padeceu a tirania de um Robespierre nem viu ativa uma máquina de decapitação em massa como a guilhotina. No fundo, a tese de Halévy fez eco do conhecido dito de Marx segundo o qual "a religião é o ópio do povo".

Seja como for, o teólogo, preocupando-se preferencialmente com as mazelas dos humildes, não podia deixar de denunciar, em suas intermitentes viagens pela Inglaterra, que percorreu toda ela a cavalo, juntando em suas prédicas por vezes mais de dez mil ouvintes, as crueldades da escravidão que imperava nas propriedades inglesas das Índias Ocidentais e da América do Norte. Era uma posição absolutamente coerente na qual ele equiparava a situação dos desamparados que proliferavam pelo campo e pelas cidades da Inglaterra (as vítimas da Revolução Industrial que Marx chamou de "escravos brancos"), com o sofrimento dos africanos levados a ferros para as colônias (as vitimas da Revolução Mercantilista).

(*) Halévy, no seu livro History of the English People in the Nineteenth Century (1912), descreve a situação da Inglaterra em 1815 procurando explicar qual o motivo dela não ter conhecido uma violenta mudança social como ocorrera, por exemplo, na França de 1789. Comentou então que “se os fatos econômicos explicam o curso tomado pela raça humana, a Inglaterra do século dezenove, acima de qualquer outro país, estava seguramente destinada à revolução, tanto politicamente como religiosamente. Nem a Constituição Britânica nem a Igreja Estabelecida eram fortes o suficiente para manter o país unido. Ele encontrou a resposta do porque da ausência da revolução naquele tempo na ascensão da religião não-ortodoxa e oficialista de Wesley.

Metodistas em ação

Wesley, um estudante de teologia em Oxford, local onde organizou os "Clube Santos", os metodistas de Oxford, para estudar a Bíblia em profundidade, após diplomar-se quis fazer "do mundo minha paróquia", deslocando-se por todo o reino a consolar os operários, os desempregados, os mendigos, os presidiários e demais desgraçados da vida, realizando grandes sermões ao ar livre que atraíam milhares de pessoas. Evitou assim, com suas prédicas, que o proselitismo revolucionário - incendiário da França e das colônias inglesas da América do Norte -, viesse a superar o sermão altruísta e consolador com que procurava conformar e alentar o povo pobre da ilhas britânicas.

Como bom súdito britânico, o combativo reverendo tinha consciência de que não bastava formar uma opinião negativa da escravidão apenas entre o povo comum. Era preciso conquistar a maioria no Parlamento britânico, assembléia que atraía as polêmicas do reino. Necessitava por igual convencer a elite política do país de por um fim naquela abominação. Para tanto, se aproximou de um denodado representante no Housse of Commons chamado William Wilberforce, então um jovem integrante da Sociedade Abolicionista (*), que assumiu ser a voz de Wesley na Câmara. De certo modo, Wilberforce tornou-se o Catão do anti-escravagismo pela insistência e tenacidade com que, ao longo dos seus muitos anos de vida parlamentar (de 1791 até 1807), apresentou moções para que se aprovasse medidas para destruir para sempre com a instituição cativa. Se bem que profundamente abalado ao sofrer sua primeira derrota no Parlamento, quando a lei anti-tráfico, de 18 de abril de 1791, foi rejeitada por 163 votos a 88, por pressão do lobby dos "interesses das Índias Ocidentais", encontrou forças no apoio contundente vindo de Wesley que o exortou em carta, uma das últimas que o reverendo escreveu antes do seu falecimento naquele ano mesmo, para que não esmorecesse na sua missão de livrar a humanidade do flagelo da escravidão.

(*) Sociedade filantrópica fundada em 1787 por Granville Sharp e seu amigo Thomas Clarkson, ambos anglicanos, sendo que nove outros interantes da direção central eram quakers, obtendo ainda a adesão de pregadores metodistas como John Wesley e reformadores sociais como Josiah Wedgwood ( ele foi quem concebeu o selo da sociedade que ficou mundialmente famoso,o qual continha a frase dita por africano em algemas: "Eu não sou um homem? um irmão?").

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