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Escravidão, Ilustração e Abolicionismo

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» Escravidão, Ilustração e Abolicionismo (parte II)
 
Após passar séculos em estranho silêncio sobre a permanência da servidão e da escravidão, a intelectualidade ocidental, destacando-se os integrantes do Iluminismo anglo-francês, passaram a denunciar o horror e a desumanidade da instituição servil. O século XVIII, justamente quando o tráfico negreiro foi mais intenso e lucrativo para os mercadores, conheceu ao revés uma crescente indignação moral contra a utilização da mão de obra cativa na vida produtiva das sociedades. A conseqüência direta disso foi o surgimento de sociedades filantrópicas e abolicionistas, tanto em Londres como em Paris, que fizeram intensa agitação em favor da abolição do tráfico e do fim dos grilhões que prendiam seres humanos, criando desde então um cenário favorável para que, especialmente após a Revolução francesa de 1789, a instituição servil se visse condenada para sempre.

Origem do tráfico

Charles de Secondat, barão de Montesquieu ironizou os escravagistas
"Um dia os homens brancos chegaram em barcos com asas, que brilhavam no sol como se fossem facas. Eles travaram duras batalhas com os Nogla e cuspiram fogo sobre eles."

Tradição oral Pende.

Ainda que a escravidão não fosse desconhecida na África, sendo que a compra venda de aprisionados era praticada há muito tempo entre os traficantes árabes e os sobas, régulos e outros chefes tribais africanos, foi com a descoberta da América no final do século XV que o tráfico negreiro atingiu dimensões de um grande negócio, vindo a se tornar um dos maiores do mundo de então, em sua primeira fase da globalização. Nos decênios seguintes à viagem de Colombo, centenas de feitorias portuguesas, holandesas e inglesas, foram instaladas nas saliências da África Ocidental – na Costa dos Escravos e no Golfo de Benin - para dedicarem-se exclusivamente ao translado da mão de obra africana apresada, transportando-a a ferros para as grandes plantações de açúcar, de tabaco, e para minas situadas no Novo Mundo. Os atraentes produtos coloniais, somados às incontáveis riquezas encontradas a toda hora no subsolo da América, produziram uma fome insaciável por braços africanos, absorvidos no Novo Mundo como se fora carvão humano para energizar a revolução econômica do mercantilismo europeu. Grande parte do intercambio mercantil entre a Europa, África e Américas ( especialmente entre 1650 e 1850), o tristemente famoso "Comércio Triangular", foi tomado pelas naus dos negreiros que nada mais eram senão que masmorras flutuantes cruzando o oceano empurradas por grandes velas, em cujos porões agrilhoados iam os africanos aterrorizados pelo estalar das chibatas e pelos gritos dos capatazes.

Os padecimentos do tráfico

Mercadejando escravos
No período que vai de 1450 a 1850, calcula-se que de 12 a 15 milhões de negros teriam sido conduzidos ferreteados em navios pelos modos mais desumanos possíveis até serem descarregados nos portos do Brasil, da América do Norte e das Índias Ocidentais (estima-se que 20% deles morreram nas viagens devido às péssimas condições existentes a bordo).

Como testemunhou Alexander Falcolnbridge (An Account of the Slave Trade on the Coast of África, 1788), antes de embarcarem num negreiro e serem marcados com ferro-em-brasa, eles eram submetidos a um detalhado exame feito pelos compradores europeus que, por primeiro, avaliavam a idade do escravo, verificando em seguida o seu estado de saúde. Alertavam-se em perceber se ele estava afligido por qualquer enfermidade, deformado ou com os olhos ruins e os dentes estragados, mancando, mal dos joelhos, ou com as costas muito encurvadas. Se o pobre se apresentava sem condições para trabalhar, era rejeitado. Nada diferente, pois, do que o ritual que envolvia a compra de gado ou de cavalos. Eram,pois, as regras da zoologia as que imperavam no tráfico.

A bordo a situação deles era ainda pior. Espremidos em porões superlotados, insalubres e fétidos, sem as mínimas condições de higiene, eles viajam acorrentados uns aos outros pelas mãos e pelos pés até o seu destino final. A maioria das mortes durante a longa travessia atlântica era provocada pela varíola e a disenteria, outros conseguiam de algum modo praticar o suicídio negando-se a comer fosse o que fosse e alguns simplesmente, acometidos pela nostalgia, se deixavam apagar de tristeza, era o chamado banzo.

Ainda assim, mesmo com um número significativo de perdas, os lucros eram extremamente atraentes: uma peça adquirida na costa da África por mais ou menos 25 dólares era revendida na América, um tanto depois, por 150 dólares, e às vezes bem mais. Por conseguinte, um magote de 500 ou 700 cativos levado por um veloz "negreiro" rendia algo como U$ 7.500 a U$10.500 de uma só vez, o que fez com que o tráfico de escravos fosse um dos mais atrativos empreendimentos aos olhos dos homens de negócio europeus. Não só deles, como de reis, bispos e outros grandes senhores também, que, apesar de seus rogos de fidelidade aos céus de Jesus e às santas igrejas, não refugaram em meter-se naquele “negócio do diabo”, sujo mas muito bem recompensado. (*)

(*) Antes de alcançarem os pontos de embarque, eles eram trazidos pelos caçadores de escravos dos confins da África em longas caravanas a pé sob o olhar vigilante do chicoteador e a mira dos arcabuzes. Segundo um dos tantos testemunhos disso: "Os escravos estão comumente presos pelo mesmo par de correntes, a perna direita de um na perna esquerda do outro. Devido a elas eles só podem caminhar muito devagar. Cada grupo de quatro escravos encontra-se preso pelo pescoço [um aparelho denominado libambo]. Eles são libertados das suas correntes a cada manhã na sombra de uma árvore quando eles são encorajados a cantarem algumas canções para levantarem o ânimo: ainda que alguns deles sustentem sua situação com estupenda coragem, a maioria encontra-se abatida e passa o dia numa espécie de sombria melancolia com os olhos presos ao chão." (observação do aventureiro escocês Mungo Park – Travels to the interiors of África, 1799)

Tráfico transatlântico (1650-1900)

(exportações de escravos por região)

Regiões da África Nº de escravos percentual
Senegâmbia 479.900 4,7
Guine superior 411.200 4,0
Guiné 183.200 1,8
Costa do Ouro 1.035.600 10,1
Golfo de Benin 2.016.200 19,7
Golfo de Biafra 1.463.700 14,3
Angola 4.179.500 40,8
Moçambique 470.900 4,6
Total 10.240.200 100,0

Fonte: Paul E. Lovejoy – Transformation in Slavery, Cambridge University Press,2000.

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