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Argentina, a conquista da Patagônia (parte II)
Imensa região semideserta situada bem ao sul da província de Buenos Aires, a Patagônia, fria, úmida e ventosa, correspondendo a 30% da Argentina, foi incorporada tardiamente ao estado-nacional. Durante os três primeiros séculos os conquistadores espanhóis e seus descendentes concentraram-se nas margens do Rio da Prata, realizando bem poucas incursões mais para baixo, no que denominavam de "Deserto". Tudo mudou, a partir de 1870-1880, com a constante chegada de imigrantes vindos da Europa, a anunciada revolução tecnológica promovida pela carne frigorificada, e o aumento internacional da demanda por lã. Decretou-se então o fim dos índios araucanos, mapuches e ranquels. Enormes estâncias de criação de gado ocuparam então os ancestrais toldos dos Povos Originários, e, com elas, vieram os novos dramas sociais.
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O General Roca e seus oficiais
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Foi Roca mesmo quem confessou que a inspiração para a estratégia da guerra a ser adotada contra os índios surgiu-lhe da vista de um rolo de massas usado por uma cozinheira de um hotel em Buenos Aires, no ano de 1873. Era isso. O exército – 5 divisões com 6 mil homens - devia atuar como uma máquina compressora levando tudo de roldão de uma só vez, sem dar nenhuma chance para os caciques poderem se recuperar e contra-atacarem.Roca organizou um cilindro implacável composto por colunas de cavalaria armada com modernas carabinas trotando dos Andes às margens do Atlântico, de Neuquén até Viedma, na embocadura do Rio Negro, esmagando a resistência, exterminando os caciques mais renitentes e confinando os sobreviventes derrotados, conforme o seu Projeto de Guerra aos Índios, apresentado no Congresso Nacional em 14 de agosto de 1878. O referencial militar dele vinha da campanha que o general Manoel Rosas (mais tarde, o tirano Rosas) comandara uns decênios antes quando expulsara os nativos do rio Colorado e incorporara a região de Baia Blanca à Província de Buenos Aires, entre 1827-1829. Deste modo, com Roca no ministério da guerra, o governo argentino deixou para trás o empurrar vagaroso dos indígenas que norteava o espírito da Zanja, para adotar o golpe veloz da espada e o tiro rápido da carabina dos regimentos montados. O resultado disso fica evidente quando se verificou que enquanto a Campanha Alsina de 1874 incorporou 56 mil km², a seguinte, a Campanha de Roca de 1879-1884, baseada em sete ofensivas, anexou ao estado-nacional argentino 550 mil km², isto é quase dez vezes mais território.(*) A derradeira batalha ocorreu em 18 de outubro de 1884, quando os caciques Inacayal e Foyel, com três mil guerreiros remanescentes, finalmente tiveram que se render às forças do coronel Conrado Villegas, depois de uma batalha campal no Neuquén, num lugarejo chamado Junin de los Andes. Deu-se assim, com este episódio onde vidas humanas deram lugar ao pasto para o merino, a repetição do que já fora denunciado séculos antes por Thomas More na "Utopia", de 1516, quando registrou como "os carneiros devoraram os homens" nas terras inglesas que até então eram tidas como de propriedade comunal. (*) Esta impressionante vitória que, calcula-se, tenha custado a vida de 20 mil índios e a captura de mais de 3 mil deles, serviu para guindá-lo à presidência da república.Júlio Roca foi o supremo mandatário por duas vezes, a primeira entre 1880-1886, e a segunda, entre 1898-1904. Apelidado de El Zorro , a Raposa, ele de fato controlou a vida do país por quase trinta anos. Genocida para uns, um Pai da Pátria para outros, seu nome até hoje suscita polêmica entre os argentinos. Todavia coube-lhe realizar a maior incorporação territorial da história nacional ao absorver uma região com 900 mil km² (incluindo-se a Terra do Fogo), em grande parte aproveitável para o pastoreio e a criação.
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Patagônia e suas províncias atuais
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O ano de 1879 terá, nos anais da República Argentina, uma importância bem mais considerável do que lhe tem atribuído os contemporâneos. Registrou um acontecimento cujas conseqüências sobre a história nacional obrigam à gratidão, mais as gerações vindouras do que a presente, e, cujo alcance, desconhecido hoje, por transitórias questões de pessoas e de partido, necessita, para se revelar em toda sua magnitude, a imparcial perspectiva do porvir. Esse acontecimento é a supressão dos índios ladrões que ocupavam o sul de nosso território e assolavam seus distritos fronteiriços: é a campanha levada a cabo com acerto e energia, que teve, como resultado, a ocupação da linha (das margens) do Rio Negro e do Neuquén. "Tratava-se de conquistar uma área de 15.000 léguas quadradas ocupadas quando menos por umas 15.000 almas, pois passa de 14.000 o número de mortos e prisioneiros que tem reportado a campanha. Tratava-se de conquistá-las no sentido mais lato da expressão. Não era questão de percorrê-las e de dominar com grande aparato, mas transitoriamente, como o tinha feito a expedição do General Pacheco ao Neuquén, o espaço que pisavam os cascos dos cavalos do exército e o círculo onde alcançavam as balas dos fuzis. Era necessário conquistar real e eficazmente essas 15.000 léguas, livrá-las dos índios de uma forma tão absoluta, tão inquestionável, que a mais assustadora das assustadoras coisas do mundo, o capital destinado a vivificar as empresas de gado e agricultura, tivera ele mesmo que tributar homenagem à evidência, que não experimentasse receio em se lançar sobre as pegadas do exército expedicionário e selar a tomada de possessão pelo homem civilizado de tão dilatadas comarcas". [INFORME OFICIAL DA COMISSÂO CIENTíFICA agregada ao Estado Maior Geral da EXPEDIÇÃO AO RIO NEGRO (PATAGÔNIA) realizada nos meses de Abril, Maio e Junho de 1879, SOB AS ORDENS DO GENERAL JULIO A.ROCA, B.Aires 1881]
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Indígenas sobreviventes da campanha do Deserto
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Andermann, Jens – Argentine Literature and the "Conquest of the Desert", 1872-1896. Birkbeck College. Barros, Álvaro. La guerra contra los indios. Buenos Aires: Imprenta y Librerías de Mayo. Del Rio, Walter Mario – Memórias de expropriación: sometimiento e incorporación indígena en la Patagonia: 1872-1943. Quilmes, Universidad Nacional de Quilmes Ediciones. Ebélot, Alfredo. Frontera Sur, Recuerdos y relatos de la Campaña del Desierto. Buenos Aires: G. Kraft, 1968 Hernández, José . El gaucho Martín Fierro - La vuelta de Martín Fierro. Madrid: Aguilar, 1976. Informe Oficial de la Comision Científica - agregada al Estado Mayor General de la EXPEDICION AL RIO NEGRO (PATAGONIA) realizada en los meses de Abril, Mayo y Junio de 1879, BAJO LAS ORDENES DEL GENERAL JULIO A.ROCA, B.Aires 1881 Lista, Ramón. Viaje al país de los tehuelches, Exploraciones en la Patagonia Austral, Buenos Aires, Imprenta de Martín Biedma. Luna, Felix – Soy Roca. Buenos Aires. Editorial Sudamericana, 1989. Moreno, Francisco P. - Viaje a la Patagonia austral, Buenos Aires, El Elefante Blanco, 1997. Ocantos, Carlos María. - Quilito, París, Garnier, 1891. Zevallos, Estanislau - "La conquista de quince mil leguas. Estudio sobre la traslación de la República al Río Negro", Buenos Aires, Publicação do Tesouro Nacional, 1878. Zeballos, Estanislao S.. - Viaje al país de los araucanos, Buenos Aires, Jacobo Peuser. Zeballos, Estanislao S. - Callvucurá y la dinastía de los Piedra. Buenos Aires, CEAL, 1993.
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