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Guerra de Independência dos Estados Unidos: de Concord a Bunker Hill

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» A batalha de Bunker Hill

 
Os desentendimentos dos colonos ingleses da América com a Coroa Britânica se arrastavam desde o fim da Guerra dos Sete Anos (1756-1763), quando muitos deles, como o então coronel Washington, lutaram ao lado da Metrópole contra os franceses e indígenas sem auferir nenhum beneficio disso. Ao contrário, finda a guerra, vitoriosa a Coroa inglesa, os colonos viram-se vitimas de uma crescente extorsão tributária por parte dos ministros do rei George III. A tensão cada vem maior entre os súditos americanos e os funcionários reais conduziria o Novo Mundo a presenciar a primeira guerra aberta entre a colônia e a metrópole (1775-1783), acontecimento histórico de largas projeções sobre todo o mundo.

Da faísca à explosão

O tambor e o pífaro da Revolução de 1776
Na história muitas são as ações que terminam por transcender a vontade imediata daquele que a desencadeia. Pretendendo eliminar num ato de vingança o inimigo, um homem ateia fogo a um rastilho para lhe destruir o celeiro. As labaredas do incêndio terminam por fugir-lhe do controle e toda a região, inclusive sua residência, termina sendo devorada pelas chamas. Há pois um plus além da finalidade pretendida, uma substância da ação que, excedendo-se, volta-se contra o próprio autor. Este exemplo, dado por Hegel, de como uma determinada intenção escapa inteiramente do controle de quem a produz, serve perfeitamente para determinar o papel histórico do general Thomas Gage — comandante da guarnição militar de Boston as vésperas da Revolução Americana.

Tomando ciência de que os colonos americanos haviam armazenado armas e munições num pequeno vilarejo nas cercanias de Boston, em abril de 1775, ordenou uma operação de busca e captura. Como este obscuro militar poderia saber que os disparos dados pelos colonos tentando travar a marcha da coluna inglesa terminariam por ecoar pelo mundo, ensurdecendo o despotismo e desencadeando a primeira revolução das Americas contra o colonialismo europeu? Revolução que deu começo a um ciclo de rebeldias e insurgências que - nas Américas - somente se encerraria cinqüenta anos depois, quando nos altiplanos peruanos, em 1824, os espanhóis foram definitivamente batidos em Ayacucho pelos chefes "criollos" sul-americanos.

Boston em pé de guerra

O até então pacato porto de Boston, no decorrer do século XVIII, não indicava ser um ninho revolucionário. Seu acolhedor ancoradouro, protegido pelas penínsulas de Charlestown e Dorchester, faziam da capital de Massachusetts um local aprazível para os esgotados marujos da rota atlântica. As suas lojas e mercados acolhiam os mais variados artigos, desde os exóticos produtos da manufatura oriental aos mais simples mantimentos nativos. Entre as colônias inglesas da América do Norte , ela era a terceira cidade em população, inferior apenas à Filadélfia e Nova York. Os seus doze mil habitantes eram tidos como ordeiros e pacatos. Suas ruas estreitas apontavam para o mar e seus parques e bosques atulhavam-se durante as comemorações religiosas. Sim, porque Boston era a capital do puritanismo. A moral pública era severamente vigiada por sisudos pastores que não hesitavam em aplicar, com rigor, punições severas às ovelhas desgarradas. Uma sólida e ativa burguesia mercantil dominava as atividades econômicas, bem como a Assembléia Provincial, de onde os funcionários da coroa recebiam os proventos.

No entanto, a placidez de certas águas esconde abismos profundos. Desde o "Dia do Massacre" (5 de março de 1770), quando a guarda britânica disparou sobre uma multidão que protestava contra a autoridade real, matando cinco e ferindo seis cidadãos, a vida da cidade se alterou. Um surdo ódio germinou entre seus habitantes. Este incidente não demorou a produzir um resultado político - o Comitê de Correspondência foi instituído. Através dele, os principais líderes políticos americanos passaram a comunicar-se com os partidários radicais de outras colônias, ampliando o horizonte da contestação. Nos fins de 1773, com a inábil medida da coroa liberando a importação de chá para favorecer a Companhia das índias Orientais, a agitação provocou a primeira medida concreta de repulsa ao governo imperial. Um grupo de americanos, fantasiados de índios, invadiu o Dartmouth, de propriedade da Companhia, e lançou sua carga ao mar. A represália não tardou - Boston teve seu porto interditado.

Esta medida inseria-se na estratégia política da Metrópole, pois o fechamento do porto principal de Massachusetts terminaria por favorecer as outras colônias que seriam privilegiadas pelos embarques e desembarques. Para tristeza da Coroa, nenhuma delas manifestou satisfação em poder substituir Boston. O movimento de repúdio à medida repressora generalizou-se. As principais cidades enviaram mensagens de solidariedade à infeliz população e um genuíno sentimento irmanou todos os americanos em torno dos padecimentos de Boston.

Marchando atrás dos rebeldes

A milícia americana dispara nos britânicos
A tensão reinante na cidade fazia crer que, de um momento para outro, a violência explodiria entre americanos e ingleses. Entretanto, o incidente que desencadeara a luta armada ocorreu a mais de vinte quilômetros da capital. O comando inglês tomou conhecimento de que dois perigosos agitadores - Samuel Adams e John Hancock - haviam-se refugiado na pequena localidade de Lexington, assim como da existência, na região, de alguns arsenais clandestinos. O Major Pitcairn foi encarregado de deter os revolucionários e destruir os paióis. Paul Revere, ligado aos círculos rebeldes, sabedor da marcha das tropas inglesas, lançou-se pela estrada, alertando os colonos. No dia 19 de abril de 1775, Pitcairn foi surpreendido em Lexington por oitenta americanos (os minutemen), dispostos a impedir sua passagem. Durante um curto espaço de tempo, ambos os lados mediram-se com os olhos e repentinamente o tiroteio rompeu o silêncio da manhã. Pouco depois, oito cadáveres de colonos jaziam ao solo. Pitcairn ordenou o prosseguimento da operação e os arsenais de Concord foram destruídos, mas os dois rebeldes procurados haviam tido tempo suficiente para fugir.

A essa altura, a indignação colhia seus frutos, o campo entrou em ebulição. Pequenos fazendeiros, plantadores, lavradores - os "filhos da liberdade" - pegaram em armas para vingar seus mortos. À assustada tropa inglesa nada mais restou que uma rápida retirada (perdendo duzentos e oitenta homens), acolhendo-se em Boston. A notícia da escaramuça com os britânicos espalhou-se como fogo em palha e a pira final seria Bunker Hill, nas proximidades da capital.

A Assembléia Provincial, presidida por um jovem médico - dr. Warrer - decretou a mobilização das forças populares e a nomeação dos oficiais. A Nova Inglaterra, em polvorosa, armou-se - era a guerra. Acorrendo de todas partes - vinte mil patriotas cercaram Boston, encurralando as tropas de Thomas Gage.

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