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Instituições Políticas de Florença

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A Senhoria


[La Signoria]

Órgão executivo composto por 9 membros ( os priores das guildas que exercem o poder rotativamente), mais o integrante da justiça: o gonfaloneiro.

Conselho dos 80

Espécie de Senado local composto pelos "Buonuomini"

(os homens ilustres da cidade)

Grão-Conselho


Representa a assembléia geral dos cidadãos, onde todas as classes estão presentes

Lourenço o Magnífico, príncipe excelentíssimo

O sacerdote e o patrício, os poderes da cidade
Espetacular mesmo foi a época do neto de Cosme, Lourenço o Magnífico (+ 1492), filho de Pedro o Gotoso e de uma notável intelectual chamada Lucrecia Tornabuoni. Muitos historiadores, entre eles Voltaire, colocam o período da hegemonia de Lourenço em Florença como um dos grandes momentos da cultura ocidental, comparável com o Século de Péricles (461-431 a.C.) e com os tempos de ouro do imperador Augusto (27 a.C. – 14 d.C.). Ápice cultural que, posteriormente, somente se repetiria na época do reinado de Luis XIV na França (1643 a 1715).

Tudo indicava que os anos de Lourenço, príncipe sem coroa, seriam sombrios visto ele e seu irmão Juliano, logo que assumiram a chefia da Casa dos Médici (e, portanto, sobre Florença), serem vítimas de um sensacional atentado. A família Pazzi, pertencente ao patriciado financeiro local, e que odiava abertamente os Médici, seus rivais em questões bancárias, contratara um grupo de sicários para matar os dois irmãos durante uma missa no dia 6 de abril de 1478, na catedral de Santa Maria dei Fiori. Foi o celebre episódio denominado de "a conspiração dos Pazzi", conduzida por Francesco Pazzi e Bernardo Bandini Baroncelli. Trama diabólica apoiada à distância por ninguém mais senão que pelo Papa Sixto IV que desejava ver seu sobrinho Jerônimo Riario assumir o poder numa cidade vizinha. Tiveram sucesso contra Juliano, que, apunhalado, caiu numa poça de sangue em plena catedral, enquanto Lourenço, de espada em riste, ainda que ferido ligeiramente no ombro, foi protegido pelos amigos e safou-se.

A multidão quando soube do acontecido, da profanação da Sé Metropolitana, marchou com furor sanguinário sobre a mansão dos Pazzi, aos gritos de Pale!Pale! (símbolo da Casa Médici), destruindo tudo o que nela havia. No total das represálias que se seguiram, 270 pessoas foram mortas das piores maneiras possíveis. Cena patética foi a do corpo do arcebispo Salviati, um dos cabeças da conspiração, balançando enforcado, com as suas meias roxas expostas ao público. Foi um dos maiores banhos de sangue que a cidade jamais vira, uma hecatombe que praticamente dizimou os Pazzi.

Comentando o episódio, o historiador Francesco Guicciardini registrou :

"Nesta rebelião Lourenço correu um risco gravíssimo de perder o governo e a vida, mas rendeu-lhe tanto prestígio e proveito que este dia pode considerar-se como o mais afortunado para ele:morreu seu irmão Juliano, com quem deveria ter que repartir seus bens e disputar o governo; honrosamente e por meio da força popular foram varridos seus inimigos ( os Pazzi) e toda sombra de suspeita que o afetava na cidade; o povo tomou as armas em favor dele, e na dúvida se estava vivo ou não, correu até a sua casa gritando que queria vê-lo, ocasião em que ele se apresentou das janelas com grande regozijo de todos e, numa palavra, neste dia o reconheceu como o amo da cidade; a população lhe outorgou o privilégio de se fazer acompanhar por servidores armados por onde quisesse, para proteger sua vida; e, com efeito, dali em diante tornou-se, total e integralmente, no árbitro e quase senhor da cidade, e o seu poder que se até então era muito grande, não estava isento de receios, tornou-se imenso e seguro.

pAqui é quando acabam as divisões e discórdias civis: um bando termina exterminado, o chefe do outro torna-se senhor do estado, seus partidários e simpatizantes, de companheiros tornam-se simples súditos, o povo e a gente comum fica escravizado, o poder se transmite por herança e com freqüência passa de uma pessoa cordata para as mãos de um louco, que por fim acaba por afundar o estado."(Historia de Florencia cap. IV – La conjuración de los Pazzi, 1478).

Do príncipe felicíssimo ao frade fanático

Savonarola
Ainda que Lourenço não fosse feliz nos negócios como seus antecessores, sendo obrigado na década de 1480 a encerrar várias de suas filiais em Roma, Avignon, Milão e Veneza, inclusive tendo que ordenar a prisão do seu cunhado Lionetto por sistemática adulteração dos balanços da empresa, conseguiu se manter no comando dos empreendimentos graças à boa fama e ao prestígio da família. Os dissabores administrativos e os percalços financeiros da banca foram largamente sublimados pela entrega dele ao mundo da cultura, ao aberto apoio às artes e às idéias, subsidiando os letrados e convivendo com os humanistas, tais como Francisco Filelfo, Ângelo Policiano, Pico dela Mirândola e o astrônomo Paolo Toscaneli (em cujo mapa Colombo inspirou-se na travessia do Atlântico). Com ele, um dos maiores mecenas da época, definitivamente o espírito de Atenas emigrou para Florença e o gosto – ou melhor, a paixão - pelas coisas antigas, pela prosa clássica e pela estética greco-romana, é reavivada como nunca. Ressurgiram as lições de Platão em plena Academia Florentina, conduzida por Marcilio Ficino (1433-1499), homem da cultura e famoso tradutor do grego.

De certo foram as coisas do espírito e da inteligência quem o compensaram das perdas econômicas, colocando a cidade como uma nova Meca do Saber da Itália renascentista, o espaço inusitado do Bel Vivere, da vida como deve ser vivida, centro máximo da Civilização Toscana. Como melhor exemplo da inclinação de Lourenço em obter as coisas boas do prazer terreno basta o verso dele: Chi vuol esser lieto, sia, di doman non v'é certezza... "Quem deseja ser feliz que o seja: do amanhã ninguém ter certeza".

No campo da política e da diplomacia conseguiu notável sucesso. Habilmente tornou-se o fiel da balança entre os interesses das monarquias estrangeiras, sempre envolvidas nos assuntos itálicos, e o Papado, situação que fez com que pelo menos por um bom tempo a Itália se visse em paz. Período de bonança que se encerrou logo após a morte dele em 1492, pois dois anos depois, em 1494, deu-se o começo do dilúvio de intervenções militares dos reis forasteiros (especialmente franceses e espanhóis, a quem os italianos costumavam a chamar de "bárbaros").

Os pouco mais de vinte anos de vida prazerosa sob a administração de Lourenço, época em que Nicolau Maquiavel nasceu, daria lugar, logo após a queda dos Médicis, a um regime sombrio, controlado por um estranho frade, intenso e fanático: Jerônimo Savonarola (+ 1498). Tratava-se do prior da Igreja de São Marcos e famoso pregador convidado pelo falecido Lourenço a assumir os sermões religiosos. Poucas cidades conheceram uma mudança tão repentina nos seus valores e costumes como Florença na década de 1490.

O espetáculo das festas e dos divertimentos teatrais tão caros aos cidadãos locais – as celebradas "noites florentinas" - cedeu lugar às preces, às admissões de pecado, período de um intenso fervor religioso e da aberta condenação ao prazer de viver. Naqueles anos em que Savonarola prevaleceu, o Jardim das Delícias do tempo de Lourenço foi eclipsado pelo Vale de Lágrimas do pregador, pois o frade convencera os florentinos que as desgraças que haviam ocorrido (a invasão estrangeira, o colapso dos Médici), resultaram da libertinagem deles.

O curto regime dele (1494-1498) tornou-se um império dos beatos. Gente que desejava transformar Florença num imenso convento e que entrou em êxtase quando seu líder determinou-lhes que deviam jogar às chamas, numa Fogueira das Vaidades erguida em frente ao edifício da Senhoria ( o governo da república), todos os objetos de luxo que possuíam, fossem vestidos, jóias ou obras de arte. Para sorte de Florença, Savonarola desandou-se e também terminou na fogueira. Foi por essa época que Nicolau Maquiavel - no momento da transição do governo do príncipe feliz para o do frei sectário -, começou sua carreira na diplomacia a serviço da cidade.

Maquiavel e Galileu

É conhecida a história de Galileu Galilei ( + 1632) de que fez largo uso do telescópio, a partir de 1609, para realizar suas investigações sobre o Cosmo Celeste utilizando-se de um aparelho no terraço da sua casa em Pádua, de onde, nas noites de tempo bom, podia admirar perfeitamente o comportamento dos corpos celestes (tanto a magnitude do Sol como os pequenos satélites de Júpiter). Bem antes dele, um século antes para ser mais exato, Maquiavel antecipou-o com o mesmo olhar científico estudando, todavia, do seu retiro forçado em San Casciano, o Cosmo Político que o cercava (tanto os macro-poderes, como o Papado e as Monarquias, como os de menor porte, como as tiranias), aquela imensa constelação de reinos, de principados, e de despotismos de todo o tipo e feitio que compunham a política da Itália e da Europa Renascentista. O resultado da investigação de Galileu rendeu o Siderus Nuncius, "O Mensageiro das Estrelas", de 1610, o da de Maquiavel redundou no De Principatibus, "O Príncipe", de 1512. Concluíram que tanto o Cosmo Celeste como o Cosmo Político, funcionavam autonomamente, regidos por leis próprias, totalmente fora das vontades humanas.

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