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O relâmpago e o pára-raio
Foi esta preocupação de ordem prática – a luta contra o fogo - que estimulou Benjamin Franklin, um empirista por excelência, quando ainda na América, a fazer experiências com as garrafas de Leiden, e, depois, levando o filho junto para os campos em dias de tempestade de verão para arriscar-se na célebre experiência feita com uma pipa, em julho de 1752, a fim de entender a lógica das pavorosas descargas elétricas que se desprendiam do céu: os castigo de Zeus.O resultado foi a invenção do pára-raio em 1753, e, como decorrente disso, ele difundiu toda uma nova terminologia ligada ao fenômeno dos relâmpagos e da eletricidade (bateria, condutor, condensador, carga e descarga, negativo, choque elétrico, e eletricidade). O ensaio dele Experiments and Observations on Electricity (“Experimentos e Observações sobre Eletricidade”, 1751), terminou sendo publicado em Londres, rendendo-lhe fama, com todos os méritos, de homem sábio.(*) Portanto a trajetória de Franklin foi curiosa; para dominar o fogo teve que se dedicar aos clarões dos relâmpagos, entre outras razões porque havia fundado em 1736, na Filadélfia, cidade para onde ele se transferira ainda bem jovem, uma companhia de bombeiros: a Union Fire Co. da Filadélfia. (*) Grande parte da geração de filósofos-cientistas contemporâneos dele havia abandonado de vez a especulação metafísica ou teológica, aderindo à doutrina cartesiana que exigia uma filosofia voltada para as coisas práticas que ajudasse a humanidade a dominar a natureza. Daí o fascínio dos Iluministas pelos temas científicos e pelos problemas técnicos, que se materializaram na edição da famosa l'Encyclopédie, dirigida por Diderot, a partir de 1751.
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Franklin e a experiência com a pipa (1752)
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Amante dos livros desde jovem, a ponto de por vezes passar fome para poder comprá-los, convenceu seu pai a liberá-lo da pequena fábrica de velas e sabão onde trabalhava desde os 12 anos de idade para tornar-se tipógrafo. Franklin, um autodidata, confessou na sua Autobiografia (encerrada em 1757, por conseguinte largamente incompleta, visto que ele viveu ainda por mais 33 anos, até 1790), que três autores o marcaram para sempre. Cada um deles preparando-o ou precaveu-o para alguma coisa distinta. Por primeiro cita um clássico: Plutarco, autor das “Vidas Paralelas”, a quem ele agradeceu o tempo gasto em lê-lo, visto que o biógrafo dos estadistas ensinou-o a tomar gosto pelas coisas públicas e saber lidar com os assuntos políticos relevantes; em seguida enumera o célebre escritor inglês Daniel Defoe, morto em 1731, que foi um pouco de tudo na vida, de jornalista a espião, além de ser o favorito dos homens que se faz por si daquele tempo por ter escrito Robinson Crosue (que, em grande parte, tornou-se o roteiro do próprio Franklin); e, por último o dr. Cotton Mather, autor de 450 livros, famoso teólogo caçador de feiticeiras do tempo colonial, alguém que no passado, durante o episódio das Endemoniadas de Salem, ocorrido na Nova Inglaterra, no ano de 1692, havia se deixado levar pelo clima de histeria religiosa que fez com que 19 pessoas fossem enforcadas, mas que no fim da vida se refez, acautelando Franklin contra o extremismo religioso. Imitou-o também, ao teólogo, no gosto de dar conselhos e ditar sentenças úteis e conceitos espirituosos com as quais recheava o Almanaque Pobre Ricardo, publicação que ele passou a editar sozinho na Filadélfia, a partir de 1732, e que durou 25 anos. Era natural que um homem assim, com tais qualificações variadas, fundador da Universidade da Pensilvânia e da Sociedade Filosófica Americana, “Master of Arts” por Yale e Harvard, fosse enviado a Londres como o melhor delegado que a colônia podia contar frente a Coroa e ao Parlamento britânico. Além disso, bem antes desta viagem transatlântica de 1757, ele se preparara estudando francês, espanhol, italiano e latim, ao tempo em que era eleito como Grande Mestre da loja maçônica da Pensilvânia. Na casa dos 50 anos ele tinha o equipamento completo, com exceção da sua confessada dificuldade em se expressar em público, para se tornar num eficaz diplomata e articulador das demandas das colônias junto aos ministros do reino.
Não houve melhor lugar para Benjamin Franklin do que estar em Londres, ou melhor, dito, na Inglaterra, naqueles vinte anos que antecederam a rebelião dos colonos americanos. Não havia um recanto naquela ilha em que não houvesse alguém enfiado em pesquisas ou fazendo experiências, em laboratórios, oficinas ou mesmo ao ar livre. O país, tomado pela curiosidade, fervilhava. Transformara-se na versão moderna das forjas de Vulcano de cujas fornalhas não paravam de saltar eixos, tornos mecânicos, engrenagens e caldeiras fumegantes. A Revolução Industrial estava a todo o vapor e a máquina de Watt dava início a maior transformação do processo produtivo em todos os tempos. O avô de Charles Darwin, o velho Erasmo Darwin, que também era botânico, presidia um clube de industriais e inventores, a Lunar Society, a Sociedade Lunar, surgida em 1765, da qual a todo o momento emergia alguma idéia prática ou uma nova técnica sensacional, inclusive aplicada ao campo da medicina. Não era para menos, entre eles estavam Josiah Wedgwood (industrializador da cerâmica), Mathew Boulton (sócio de Watt), Joseph Priestley (descobridor do oxigênio) e o próprio James Watt, o superengenheiro que inventara a máquina a vapor. Quando em Londres, Benjamin Franklin não tardou em se manter em contato com eles, inclusive fazendo-lhes uma visita em Birmingham, outro ponto de ebulição inventiva, para inteirar-se das novidades. E, evidentemente, freqüentou a Academia Real de Ciências, instituição famosa que acolhera entre os seus Isaac Newton. A relação de correspondentes dele era impressionante, trocava cartas com a nata da inteligência européia. Além dos salões mais ilustres, freqüentou o filósofo David Hume e o economista Adam Schmitt (que se manifestaria a favor da independência das colônias e apoiou a demanda de Franklin a favor da emissão do dinheiro-papel). Edmund Burke, outro simpatizante da causa dos colonos, fazia gosto em estar com Franklin, o mesmo se dando com o então jovem filósofo utilitarista Jeremias Bentham, futuro reformador social. Trocava informações com o jurista Cesare Beccaria em Milão (autor do O Delito e as Penas, de 1764), ao tempo em que descrevia a Pensilvânia para o marquês de Condorcet (autor do “Quadro Histórico dos Progressos do Espírito Humano”, um Manifesto do Otimismo, publicado na França, em 1794). Em Paris, certa vez, levou o neto para conhecer Voltaire, a quem admirava. Ele, em seus anos londrinos, parecia-se a um peixe na água.
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