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O tesouro dos Santos

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Martim Lutero
» Um monge contra o papa
 
Como poderia o papa autorizar a venda de indulgências que nada mais eram senão remissões concedidas aos possíveis pecadores? A prática de autorizar tal negócio não era nova na cristandade. Acredita-se que remontava aos tempos das Cruzadas como um procedimento, ainda que eventual, tido como válido para amealhar recursos para financiar as expedições militares contra os infiéis muçulmanos. Por igual teria sido usado na época das Cruzadas contra os Albigenses, um grupo herético do sul da França, iniciadas em 1208.


Todavia, foi somente no século 14 que as indulgências alcançaram uma explicação teológica defendida por Alexandre de Hales e Hugo de St.Cher. Segundo eles, as obras e as ações dos santos e mesmo de Cristo deixaram um apreciável excedente de bons atos não usados inteiramente por eles. Havia, pois, um plus de santidade que teria formado um capital celestial, um tesouro dos méritos que estaria disponível aos interesses do Santo Padre. De posse da chave, o papa podia recorrer ao Tesouro dos Santos armazenado no céu para poder distribuir o seu conteúdo entre os crentes.


Havia dois tipos de indulgências: a plenária e a parcial. A primeira, a de maior preço, tinha a condição de transferir méritos o suficiente para livrar o possuidor de todas as penas da terra e daquelas do purgatório. A outra, a parcial, tinha prazo. Podia livrar alguém por alguns dias ou até mesmo por um milênio inteiro, tanto na terra como no purgatório.

Um vendedor escandaloso

Cartaz de Propaganda luterana mostrando o confronto entre Lutero (à esquerda) e Tetzel (comerciando as indulgências à direita). Tela de Lucas Cranach.
Apesar de Johann Tetzel jamais ter posto os pés em Witemberg (cidadezinha onde Lutero lecionava Filosofia Moral na Faculdade de Letras da Universidade local), os ecos da escandalosa pregação que ele fazia em favor das indulgências (Ablassmissbrauch) chegou aos ouvidos de Lutero.

Tetzel, um despudorado, assumira a função de uma espécie de arrecadador-geral do arcebispo de Mayence, o já citado Alberto de Brandenburgo, não tendo pejo de, em pleno sermão, fazer as ofertas mais incríveis para aqueles que hesitavam em dar sua prata em troca da remissão papal. Se alguém não a quisesse para si, dizia ele, que lembrasse das almas dos parentes próximos que estagiavam por um demorado tempo no purgatório. Podiam, por módicos tostões, adquirir uma indulgência para a alma de um pai, uma mãe ou de um avô, que ainda estava num daqueles desvãos esperando a vez de partir para mais alto, para o céu, em direção ao paraíso. Porque deixá-las por lá, penando, se podiam resolver tudo de vez? Daí atribuírem a Tetzel o incrível e interesseiro verso:

Sobald das Geld im Kasten klingt/

Die Seele aus dem Fegefeuer springt!
(Assim que tilinta o dinheiro na caixa/ A alma salta do Purgatório [em direção ao Paraíso]).

Foi essa desfaçatez explícita de Tetzel que fez com que o desconhecido monge, doutor em teologia por Leipzig desde outubro de 1512, se insurgisse vindo a publicar, no dia 31 de outubro de 1517, suas famosas 95 teses na Schlosskirche, na porta da igreja do castelo de Wittemberg denunciando a venda das indulgências como uma atividade ilegal e imoral, visto que a salvação era assunto privado da relação do crente com Deus, não concebendo nenhuma intermediação entre eles.

Foi o começo do que os alemães denominaram de Ablassstreit, a polêmica sobre as indulgências, A partir de então, transformado na voz indignada de quase toda a Alemanha, Martim Lutero passou a liderar o Movimento da Reforma.

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