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A Condessa Castiglione, a musa do Risorgimento

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Chamava-se Virgínia Elisabeta Luisa Carlotta Antonietta Teresa Maria Verasis, mas ficou conhecida na história do Risorgimento como a divina La Castiglione. Nascida em Florença em 1837, de beleza inigualável, estonteante, ela tornou-se um instrumento da política externa do Reino do Piemonte quando seu primo o Conde de Cavour, primeiro ministro do rei Vitório Emanuel II, no ano de 1855, enviou-a em missão de sedução à corte do imperador francês Napoleão III. Não foi a primeira vez nem a última em que a luxúria tornou-se um estratagema na conquista de benefícios políticos, como deu-se no caso da La Castiglione.

Bela, culta e independente

Virgínia Oldoini, La Castiglione (1837-1899)
Filha do marquês Filipo Oldoini di Spezia e da florentina Isabella di Lamporecchi, Virgínia, nascida em Florença em 22 de março de 1837, descendia de nobres muito ricos da Ligúria. Ainda muito jovem desposou sem amor o marquês de Castiglione, doze anos mais velho do que ela. Marido, aliás, que estava bem ciente das liberdades com que a bela circulava. Rica e inteligente, leitora voraz de romances, logo destacou-se na corte do rei Vitório Emanuel II do Piemonte, tida como una delle donne più belle d'Europa, uma das mulheres mais belas da Europa.

Alta, loira, de olhos entre o azul e o verde, com linhas e curvas perfeitas, La Castiglione somente tinha como possível equivalente em espantosa beleza a Imperatriz da Áustria, Elizabeth, a famosa Sissi, esposa do Imperador Francisco José, nascida no mesmo ano que ela. A princesa de Metternich quando conheceu a italiana chamou-a de “ a estátua de carne”.

Não demorou para que ela, mulher na flor da idade e independente, assaltada por ambições mundanas, “ concedesse favores a muitos homens famosos”, tais como os irmãos Doria, o poderoso banqueiro Rotschild, o ministro Cavour, o embaixador francês Constantino Nigra e ao próprio Vitório Emanuel, tornando-se “l´amica dei re”.

Absolutamente consciente da superioridade da sua linhagem, esbeltez e instrução, frente às demais mulheres e o enfeitiçamento que provocava nos homens, ela, passional e soberba, predestinou-se aos grandes vôos. Talvez fosse essa a razão - a generosidade com que ela democratizava suas curvas marmóreas com os poderosos da época - que levou Cavour a fazer dela uma arma secreta da sua diplomacia.

O pequeno reino do Piemonte estava a liderar o processo de unificação nacional italiano e precisava do apoio da França de Napoleão III. Uns anos antes, em 1849, atendendo ao clamor do Papa Pio IX, tropas francesas comandadas pelo general Oudinot, enviadas por Napoleão (então ainda presidente da França e não seu imperador), haviam sufocado a nascente República Romana, defendida heroicamente por Garibaldi, embrião do que os patriotas peninsulares esperavam ser a futura República da Itália.

Desta vez Cavour, líder da linha moderada da luta pela unificação, queria atrair Napoleão III para o lado da causa da unificação, pois quem se lhe opunha, além do Papado, era o Império Austríaco – um tradicional rival dos franceses - que ocupava as principais províncias do norte da Itália: a Lombardia e o Vêneto.

O primeiro ato efetivo dele na busca do apoio das nações mais fortes da Europa foi a participação de tropas piemontesas na Guerra da Criméia (1854-56), ocasião em que a Grã-Bretanha e a França, unidas, intervieram militarmente no sul da Rússia em favor do Sultão Turco.

O segundo, por assim dizer, foi despachar a La Castiglione, a musa do Risorgimento, direto para os braços de Napoleão III. A política externa de Cavour naquela ocasião poderia ser resumida no envio de soldados e canhões contra a Rússia e na remessa da estupenda italiana com seus lençóis finos e nuvens de perfumes sedutores para a França.

La Castiglione na corte da França

Virgínia Oldoini causou abalos na corte em Compiègne, atraindo a atenção de todos pelo esplendor dos seus traços clássicos , suas estupendas jóias, e o seu esmerado gosto ao vestir. Em geral, com audácia e o espírito moderno que seus dezoito anos permitiam. Sustentada com verbas especiais que o primo Cavour lhe alcançava, instalada numa luxuosa vila, não tardou em acrescentar Napoleão III ao seu rol de amantes ilustres.

Logo teve na Imperatriz Eugênia, uma espanhola temperamental e também muito bela, uma inimiga jurada. A tal ponto foi a inimizade entre elas que a esposa imperial, assaltada por fundados ciúmes, ordenou que a polícia francesa perpetrasse, por meio de um terceiro, um atentado contra a aventureira vinda da Itália.

Uma imediata e providencial retirada foi então ensejada pelos diplomatas do Piemonte para que a Divina Castiglione pudesse manter a integridade física e que o escândalo fosse prontamente esquecido. Frente a todos estes tumultos ela disse certa vez: “ eu sou eu, e me orgulho: não quero nada dos outros e para os outros, valho muito mais do que eles. Reconheço que não posso ter boa aceitação devido ao meu caráter altivo, franco e livre, o que me tornou por conseqüência crua e dura. Assim qualquer um me detesta: mas isso não me importa. Não se dou prazer a todos.”

Entre os perfumes e as bombas

A Imperatriz Elizabeth, a Sissi, rival da La Castiglione (1837-1898)
Se a política da sedução ensejada por Cavour não dera grandes resultados, os patriotas italianos adversários da política moderada do ministro piemontês tentaram outro caminho. Um grupo de ativistas ligados ao republicano Mazzini, ainda que rompido com ele, decidiram-se a praticar algo mais violento contra Napoleão III afim de vingar-se dos eventos de 1849.

No dia 8 de janeiro de 1858, Felici Orsini e mais um pequeno grupo de camaradas (seguramente inspirados num outro atentado, aquele cometido por monarquistas contra Napoleão em 1800), lançaram petardos explosivos sobre a carruagem palaciana bem em frente à Ópera de Paris. Na trovoada que se seguiu, 8 transeuntes foram mortos e mais de 150 ficaram feridos, sem que nada atingisse o casal imperial.

Curiosamente deve-se bem mais a tal violento atentado o engajamento de Napoleão III à causa da unificação italiana do que aos eróticos favores prestados pela La Castiglione. A bela musa do Risorgimento, depois de tantos bailes e festas, de tantos amantes e corações deixados a sangrar, faleceu esquecida aos 62 anos de idade bem no final do século 19, em 22 de novembro de 1899. Nas exéquias em Spezia, ajeitaram-na com a fina camisola com que ela aguardara Napoleão III num leito de amor em Compiège. Enterraram-na no Père Lachese, em Paris.

A sua rival em esplendor, a imperatriz da Áustria, a Sissi, morrera quase um ano antes, vitimada num atentado à faca cometido pelo anarquista italiano Lucheni, em 10 de setembro de 1898, num lugar na Suíça chamado lago Genfer. Assim, as duas mulheres tidas universalmente como as mais belas de toda Europa, ainda que em situação politicamente oposta, La Castiglione a favor da unificação italiana e Sissi contra, ambas com a mesma idade, terminaram seus dias de modo infeliz: uma no esquecimento e a outra assassinada.

    
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