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As amarguras finais de Bolívar

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Foi esse quadro marcado pela decepção do herói de Cervantes que fez com que Miguel de Unamuno, num ensaio famoso (Don Quijote y Bolivar, 1931), comparasse o destino do Cavaleiro da Mancha com o de Simón Bolívar, o Libertador. Tal como o fidalgo manchego, Bolívar depois de travar umas 80 batalhas pela liberação da América do Sul, só colheu desgraças junto aos seus. Ele, que até a natureza enfrentara depois de um terremoto (”Se a natureza se opõe a nós, lutaremos contra ela e faremos com que ela nos obedeça” ), o estadista que fundara a república da Grã-Colômbia, o líder que ambicionava juntar todo o continente num colosso político só, num repente, por injunções da política, vira-se sem nada, sem saúde, sem poder e sem fortuna.

Por todos os lados, logo que os espanhóis foram batidos na batalha final de Ayacucho, no Peru, em dezembro de 1824, o que campeou nas terras recém libertadas da América Hispânica foi a traição e as cruas rivalidades caudilhescas. Cada um dos seus generais, transformados em caudilhos, quis um país para si. Como ele era o símbolo mor de um projeto unitário, viram-no como um inconveniente, um trambolho sem uso a ser despachado para a Europa. A suprema amargura dele, de Bolívar, foi ter sido considerado proscrito, um fora da lei, pela Assembléia Nacional do seu pais natal, a Venezuela, a quem ele emancipara em 1811.

Enquanto Dom Quixote arrastava as suas magras carnes para ir morrer no anonimato na sua fazendola em La Mancha, Simon Bolivar, despido de tudo, retirando-se com o corpo devastado pela tísica, seguiu a corrente do rio Madalena para ir morrer próximo ao porto de Cartagena. Não lhe saia da memória que, ao partir de Bogotá, na Colômbia, quando renunciara a tudo, um bando de desqualificados gritava para ele “Longanizo! Longanizo!” – como chamavam um louco da cidade que perambulava pelas ruas fardado de general.

Um fim solitário

Simon Bolívar
Antes dele falecer, em 17 de dezembro de 1830, um amigo ainda consolou-o dizendo-lhe que o seu nome havia sido usado pelos revolucionários de Paris quando, uns meses antes, ao assaltarem o Hotel de Ville, bradavam versos inspirados nele [Le feu sacré des republiques jaillit autour de Bolivar/ Les rochers des deux Amériques/Des peuples sont les boulevards,(*)] Entrementes, a Grande República Americana que ele imaginara unida esvaiu-se em tiroteios, devorada por ambições paroquianas e despotismos sem fim dos caudilhos locais.

Destino ingrato ao dele, por igual, tiveram os outros cavaleiros andantes da liberdade americana como San Martin, falecido na França, e Artigas, abrigado por favor no Paraguai do Doutor Francia. De certo modo, cada um deles, dos Libertadores, terminou por cumprir com o melancólico destino do Cavaleiro da Triste Figura, como se a literatura, a ficção, determinasse a história do porvir.

(*) "O fogo sagrado dos republicano fulgura ao redor de Bolívar/Rochedo das duas Américas/Do povo são as avenidas"

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