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A Imagem dos Chechenos

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» A Segunda guerra na Chechênia
» Quadro geral e bibliografia
 
Os literatos russos não demoraram em interessar-se pelo que acontecia no Cáucaso. Alexander Puchkin (1799-1837), um poeta e romancista romântico apontado como fundador da literatura russa moderna, descreveu no seu poema "O Prisioneiro do Cáucaso", a cadeia de montanhas como uma espécie de refugio alpino, bastião dos homens livres na luta contra a opressão. Viu nela um cenário sublime no qual montanheses valentes enfrentavam com galhardia seus inimigos, ao tempo em que amavam belas circassianas (expressão difundida por ele) e eram solidários com seus vizinhos.

Todavia, com o recrudecimento da violência e os ataques continuados às guarnições russas, retomados a partir de 1830, sob a chefia do Imam Shamil, tais descrições favoráveis deram lugar a uma terminologia de criminalização deles: "o vicioso checheno".

Não demorou para que fossem classificados pela imprensa russa como "bandidos", selvagens que brutalizavam as mulheres, primitivos que viviam envolvidos em vinganças ancestrais e que não respeitavam as leis da guerra, seqüestrando civis russos ou os colocando aprisionados em buracos fétidos.

Os generais czaristas, desde Ermolov, sempre entenderam a Chechênia como área hostil, bárbara, que devia ser sujeitada por campanhas militares idênticas as que os norte-americanos fariam no Oeste bravio. Por isso, as cidades daquela região todas elas derivam de fortes militares que foram construídos a partir de 1817-8, como foi o caso de Grozny (Ivan, o Terrível), fortim de cossacos fundado pelo general Ermolov, e que depois passou a ser a capital da Chechênia.

A conversão dos chechenos ao islamismo foi historicamente muito recente e deu-se exatamente para fazer frente a crescente violência da ocupação russa, entendidos por eles como infiéis por serem cristãos ortodoxos. Um dos chefes locais, o já referido Imam Shamil (1797-1871), autodesignado como al-Imam al-Azam, líder de todo o Cáucaso, recorreu à bandeira do Profeta como um instrumento político-religioso para unir os teypes, os clãs do Daguestão e da Chechênia-Ingushia contra os ocupantes, mantendo um longa guerra de guerrilhas contra os generais czaristas até que foi obrigado a render-se em 1864.

O Cáucaso na literatura russa

O entendimento da ocupação de uma terra de costumes bárbaros ainda que romântica, encontra-se na narrativa de M.Y.Lermontov (1814-41), escritor russo que terminou morrendo no Cáucaso e que deixou um relato vivo e emocionante da luta dos russos contra os montanheses no seu livro O Herói do Nosso Tempo" (1840).

Concentrou os seus contos nas aventuras de Pechorin, um oficial czarista, e sua relação amorosa com a magnífica Bela, uma Vênus circassiana, propondo nas entrelinhas uma aliança étnica entre os dois povos como solução para o interminável conflito.

Anos depois dele, Leon Tolstoi (1828-1910), ao revés daqueles que exaltavam as façanhas dos russos, enalteceu a coragem dos rebeldes. O próprio escritor, que denunciou a guerra contra as tribos das montanhas como cruel e injusta, apresentara-se para servir no Cáucaso em 1852. Na sua novela "Hadji Murad"(1904), ele exaltou a figura do guerreiro rebelde como dotado de uma alma indomável que preferia morrer a acatar as autoridades russas.

Bem antes, em 1863, no livro "Os Cossacos", ele descreveu a grande aventura da luta dos cavaleiros Kazaki, a serviço do Imperio Russo, contra os chechenos. Em geral, os autores russos viam-se na posição de defender as conquistas do czar do mesmo modo que os literatos ocidentais enalteciam a expansão dos impérios europeus sobre o restante do mundo.

O Petróleo do Cáucaso

A instalação de poços e refinarias de petróleo, a partir de 1876, ao redor da Baku, no Azerbaijão, chamada de "A Cidade Negra", e principal porto da margem ocidental do Mar Cáspio, redobrou as atenções dos russos sobre todo aquele território.

A exploração daquela riqueza foi entregue originalmente à Companhia Petrolífera dos Irmãos Nobel (Ludwig e Robert), que se tornaram uma espécie de Rockefeller da Europa Oriental. Desde então, o Cáucaso assumiu uma dupla função estratégica. Não somente era a perigosa e instável fronteira sul do Império Czarista a ser vigiada permanentemente como a que abrigava em seu subsolo um produto cada vez mais importante que era o petróleo.

Por uma série de tratados e acordos assinados pelos russos e pelos iranianos ao longo dos séculos 19 e 20, acertou-se que a margem sul do Mar Cáspio continuaria sob o controle de Teerã, enquanto que as demais ficaram com a Rússia e depois de 1917, com União Soviética. De igual modo, aumentou a preocupação deles com a construção e preservação dos oleodutos que atravessam extensas áreas do Cáucaso. (*)

(*)As reservas de petróleo existentes na bacia do Mar Cáspio apontam-nas como as mais importantes depois dos existentes no Golfo Pérsico. Enquanto, a título de comparação, as reservas norte-americanas são estimadas em 22 bilhões de barris e as do Mar do Norte (exploradas por britânicos e noruegueses) atingem 17 bilhões de barris, atualmente, as da região do Cáspio oscilam entre 17 e 34 bilhões de barris. Há ainda uma outra projeção mais otimista que indica que tais reservas chegam a 253 bilhões de barris, isto é, mais de dez vezes as dos Estados Unidos da América. O maior problema delas é que se encontram muito afastadas do grande mercado consumidor.

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