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A Rússia e o Cáucaso

Leia mais
» A Rússia e o Cáucaso
» A Imagem dos chechenos
» Alemães no Cáucaso
» A Segunda guerra na Chechênia
» Quadro geral e bibliografia
 
O Cáucaso é uma cordilheira montanhosa de 1.125 quilômetros de extensão, situada entre o Mar Cáspio e o Mar Negro. Tal como os Balcãs na Europa, entendem-na como uma das esquinas do mundo. Além de geograficamente separar o sul da Rússia do norte do Irã, é ponto eqüidistante entre a Europa e Ásia: uma encruzilhada étnica na qual encontram-se turcos, eslavos e iranianos.

Por igual, é limite entre duas grandes religiões: a Cristã e a Islâmica. Nos três últimos séculos, a região do Cáucaso tem sido palco de lutas entre o Império Russo, o Imperio Turco Otomano e o Império Persa, hoje sucedidos por estados modernos. Chamada também de "A Montanha das Mil Línguas", o Cáucaso é povoado há bem mais de três mil anos por um cadinho de tribos, muitas delas ainda vivendo de acordo com antigos códigos feudais, sempre prontas a se rebelarem contra os ocupantes vindos de fora (*).

(*) os principais grupos étnicos do Cáucaso do Norte, ou Transcaucásia, são os chechenos-ingushis, adigues, shapsugues, tcherquises, cabardins, abazas, cazaquis, balcars, nogis, ossetes digorse e daguestãos. Os do Sul, da Ciscaucásia, são os georgianos, os armênios e os azires.

O Interesse Russo

Batalha de cossacos contra quirquizes ( Tela de A.Orlowski, 1826)
O czar Pedro I, dito o Grande (1672-1725), foi quem por primeiro tornou a ocupação daquela região uma questão estratégica de Estado. Os russos já tinham o controle do porto de Astracã desde que Ivan, o Terrível, em guerra contra os Canatos Tártaros, mandara ocupar a embocadura do rio Volga, em 1556. A intenção de Pedro I era ampliar a presença russa nas margens ocidentais do Mar Cáspio para fazer dali um trampolim para alcançar a Índia.

Impressionado pelas antigas histórias de riquezas do comércio indiano, imaginou atrair as caravanas de especiarias para dentro do território russo. Ao invés delas chegaram a Europa, vindas pelos desertos do Irã, atravessando a Turquia e o Mediterrâneo, o intento dele é que elas carregadas de peles e essências finas, subissem o rio Volga até São Petersburgo (capital do império russo), para então, singrando pelo Mar Báltico, chegar aos centros comerciais euro-ocidentais.

Entre 1722-3, o próprio czar Pedro I, descendo o rio Volga até o Mar Cáspio, chefiou uma expedição de desbravamento daquela região, levando consigo um exército de 60 mil homens. Naquela ocasião a potência que dominava boa parte do Cáucaso era o Xarado do Irã, com quem os russos passaram a disputar a hegemonia.

A Guerra do Cáucaso

Todavia, a verdadeira ocupação somente teve lugar no século 19, quando depois da expulsão de Napoleão do solo russo, ocorrida em 1812, o Czarado retomou o seu interesse em anexar aquela terra montanhosa em caráter definitivo. Em 1813 é que conseguiu arrancar do Xá da Pérsia a cedência da soberania sobre as margens ocidentais do Mar Cáspio.

Para afirmar o seu domínio, Alexandre I designou para lá um herói da guerra contra os franceses: o general Alexey Ermolov (1772-1861). Este convenceu o czar que a única maneira de manietar a população nativa, especialmente as tribos chechenas, era pela mão-de-ferro. Nomeado vice-rei do Cáucaso (1813-1826), o general deixou fama como um terrível repressor, alguém que cujo nome até hoje provoca horror nos caucasianos.

Ermolov organizou diversas campanhas de extermínio contra as aldeias montanhesas, massacrando a população civil com baionetas e liquidando os resistentes por meio de enforcamentos coletivos, como ele cometeu contra o vilarejo de Dadi Yurt. Um dito dele fez história: "Nunca a terra viu uma escória tão vil como os chechenos".

Nada disso arrefeceu o espírito de resistência dos montanheses. Povos insubmissos, fizeram uma guerra sem quartel aos russos invasores e seus aliados os cossacos (*). Ocultados nas alturas das montanhas, protegidos pelos abismos colossais, os chechenos e outros caucasianos, sempre que podiam, atraiam os russos para emboscadas, matando-os com adagas e punhais, ou que com que tinham à mão.

A política de terra-arrasada, de escancarada repressão contra as auls, as aldeias caucasianas, fez com que Ermolov terminasse sendo removido do cargo. Um outro general russo de nome Orlov chegou a escrever em 1820: "É justo submeter os chechenos e outros povos da região ao mesmo nível geral do Cáucaso. Entretanto, isso não é algo que se possa conseguir com baionetas mas com paciência e esclarecimentos... a luta pode trazer benefício pessoal a Ermolov, mas nada de bom para a Rússia".

Os primeiros passos dados na guerra contra os caucasianos foram decisão de Araksin, o governador russo do Astracã, quando, em agosto de 1711, atacou as aldeias dos Tártaros Kuban. Guerra esta, intermitente, que somente chegou ao fim 153 anos depois com o Tratado de Gubaadva, assinado pelo Imam Shamil na presença do czar Alexandre III, no dia 21 de maio de 1864. Quase em seguida a isso, enormes lençóis de petróleo foram encontrados pelos geólogos na bacia do Mar Cáspio.

(*) Cossacos (do tártaro Kazak, homem livre), grupo étnico das estepes do sul da Rússia. Povo de cavaleiros nômades habitantes da região da bacia do rio Don, englobando grande parte do sul da Ucrânia até o Cáucaso, conhecidos pela sua bravura em combate, desde 1380 servia como tropa de choque do império czarista que, em troca lhes respeitava os costumes e a autonomia.

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