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A história da Guerra – 1ª parte

Leia mais
A história da Guerra - parte 1
» Introdução
» O guerreiro heróico
» A falange macedônica
A história da Guerra - parte 2
» Introdução
» A horda mongol
A história da Guerra - parte 3
» Introdução
» A guerra das máquinas
 
A expectativa que muitos pensadores e humanistas, ao longo da história, guardavam sobre a possibilidade do mundo ver-se um dia livre das guerras, seguramente frustrou-se. Imaginavam eles que com o avanço da civilização e com o crescente aperfeiçoamento ético dos homens e das mulheres fosse possível evitar-se as chacinas e as demais desgraças trazidas pelos grande confrontos armados. Longe de permanecer como uma relíquia dos tempos bárbaros e primitivos da humanidade, a guerra, ao invés de desaparecer, apenas modernizou-se, adotando, devido aos avanços da tecnologia, uma potencialidade ainda mais mortífera e destrutiva do que em qualquer outra situação do passado.

A tribo em guerra

A guerra de Tróia

Guerra é um assunto de importância vital para um estado, um tema de vida e morte, o caminho pelo qual se sobrevive ou se arruina. Por isso, é imperativo que deve ser bem estudada.
Sun-tzu – A Arte da Guerra, século IV a.C.

Atocaiado pelos tupinambás e levado amarrado para a aldeia deles em Ubatuba, no litoral paulista, episódio ocorrido em 1554, o alemão Hans Staden, além de sofrer ameaças diárias de que seria devorado, foi constrangido a seguir seus captores numa expedição. Para surpresa dele, colocaram-no numa das 38 canoas e levaram-no junto com os guerreiros na presença do cacique Konyan Bébe, para assisti-los num bom combate contra os seus eternos inimigos, os tupiniquíns, acampados num ponto da bem distante Ilha Bela. Queriam que ele testemunhasse, armados de bordunas, tangapemas e lanças, a bravura deles, mostrar-lhe de que ele não seria comido por um bando de frouxos mas sim por bravos temerários. Naquelas imensas paragens, nas enormes distâncias que separavam as tribos umas das outras do Brasil de então, porque os índios lutavam entre si? Sabendo-se o quanto a natureza era pródiga nas Terras de Santa Cruz, onde frutas, peixes, aves e animais, quase caiam nas mãos dos nativos, jamais havendo escassez de água, qual o motivo, fosse entre os coroados ou xavantes, das incessantes batalhas tribais?

Se é certo que geralmente os confrontos intertribais, étnicos ou raciais, atenderam ao longo dos tempos históricos os interesses materiais de uma comunidade, mobilizada em busca de outras possibilidades (água, mais caça, melhor clima, terras para lavoura e criação), provocando o que os alemães chamam de Völkerwanderug, a grande migração de povos, é difícil explicar-se uma guerra quando esses elementos não estão claramente presentes. Na essência psicológica do ser humano há, pois, um componente agressivo em permanente atividade já identificado por Freud e também por Nietzsche, provável resquício dos tempos zoológicos do homem que séculos de civilização não conseguiram ainda domesticar. Se é que algum dia terão sucesso.

Fator esse que, segundo alguns psicólogos de renome, é um ingrediente permanente e necessário na luta pela sobrevivência da espécie. A guerra, “ único método que o primitivo conhece”, nada mais é do que a exacerbação e excitação desse instinto agressivo primitivo, a sua forma superior e organizada. Um instinto que é geralmente chamado à ação pelos gritos tribais de fúria e pela excitação das cantorias belicosas, ou, nos casos mais recentes, pela grossa voz do sargento acompanhado pela estridência das clarinetadas e do som dos taróis e tambores.

Guerreia-se sim por ampliação ou conquista do território (como foi o caso da expansão ibérica), por questões de fé religiosa (como as Cruzadas e durante as batalhas entre católicos e protestantes), na proteção da etnia a que se pertence, mas também, como mostra o exemplo dos tupinambás, nas guerras clãnicas ou totêmicas, para exibir aos outros o destemor frente à morte, sem expectativa de algum ganho material. Alguns historiadores e sociólogos, Marx entre eles, acreditam que a escravidão, por mais repulsiva que ela seja ao homem moderno, foi um avanço na escala evolutiva das sociedades, visto que ela atuou como um sucedâneo positivo aos massacres ou sacrifícios humanos a que os vencidos eram submetidos (como era costume entre os astecas). Ao fazer o derrotado trabalhar para o vencedor, não colocando-o mais no fogo para assar, deu-se uma inovação revolucionária: “a escravidão”, disse Emile Wanty “adoçou a guerra”.

Um detalhe das guerras, porém, chama a atenção: os homens, diferentemente dos animais, sempre entram em combate pretextando questões de honra: em vingança ou reparo à desfeitas cometidas. Para que uma guerra ocorra, apesar dos evidentes interesses materiais que são levados em conta, deve haver a invocação de uma causa nobre. Os envolvidos, os convocados a lutar por Marte, precisam sentir-se justificados para matar ou morrer A literatura ocidental começou com a Ilíada de Homero, narrativa da Guerra de Tróia, historicamente travada na Era do Bronze, envolvendo os aqueus e os troianos, para que aqueles desforrassem o rapto da bela Helena, esposa de Menelau. Milhares de guerreiros pereceram na reparação da ofensa feita por Páris, um príncipe troiano, à casa do rei de Esparta. A própria História, por sua vez, a narrativa começada por Heródoto, por primeiro procurou celebrar os encarniçamentos entre gregos e persas. Nasceu para registrar as guerras e enaltecer os valentes. Portanto, se para muitos a guerra é a parteira da História, ela é também a inspiradora das primeiras literaturas.

Os livros de estratégia, da arte da guerra, tanto na Grécia como na China, nasceram coetâneos aos de filosofia e de teatro, visto que travar o bom combate era questão de sobrevivência do clã, da tribo, ou das cidades-estado, tanto quanto o pensar racionalmente e saber interpretar num palco. Todos eles indicavam a necessidade de, por primeiro, fazer da energia despertada pelo ódio ao inimigo uma força eficaz de ação. A palavra chave para tanto era a disciplina. Domar o instinto de agressividade que todo homem possui para que ele fosse liberado somente no momento certo, em proveito de um resultado eficaz, proveitoso à comunidade em armas. Mas isso demorou séculos para ser alcançado.

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