Educação História por Voltaire Schilling Mundo
Boletim
Receba as novidades no seu e-mail!
Fale conosco
. Envie releases
. Mande críticas, dúvidas e sugestões
EducaRede
Entre no portal da escola pública
História - Mundo
MUNDO

A história da Guerra: o guerreiro heróico

Leia mais
A história da Guerra - parte 1
» Introdução
» O guerreiro heróico
» A falange macedônica
A história da Guerra - parte 2
» Introdução
» A horda mongol
A história da Guerra - parte 3
» Introdução
» A guerra das máquinas
 
Sun-tzu, que viveu há 24 séculos atrás, o mais célebre dos estrategistas chineses, mentor de todos os demais, deixou no seu pequeno tratado (Ping fa, ou A Arte da Guerra) lições bem simples que podem ser sintetizadas assim: “se o inimigo ataca, eu recuo. Se ele descansa eu o assalto. Se ele foge eu o persigo, se ele cansa e para , eu o mato”. Para confirmar a excelência das suas idéias, ele fez , atendendo a curiosidade do rei de Wu, com que 180 mulheres da corte do soberano, reunidas no pátio do castelo, lideradas pelas duas favoritas do rei, executassem perfeitamente as manobras ordenadas por ele.

Tudo era uma questão de exercícios, de marchas forçadas, e de obediência, para obter a sincronia exigida e um sentido coletivo de unidade entre os combatentes. Alcançado isso, organizados em regimentos, os homens tornados soldados agiam como se fossem o porrete do seu comandante. Não sem motivo a palavra usada pelos jônios para a sua moeda, dracma, significava exatamente isso, unidade de um punho fechado, um pelotão de homens que age coordenadamente.

No entanto, essa unidade de ação, a tal coordenação militar, inexiste nos tempos arcaicos de Homero. Os heróis gregos e troianos, fossem eles Ajax, Aquiles, Diomedes, Heitor ou Ulisses, cada um por si, tratavam de obter a glória sozinhos no campo de guerra. Combatiam ainda de uma maneira primitiva, desconectados do resto dos guerreiros, de um modo que lembra muito a maneira de combater dos bárbaros da época romana, ou ainda dos senhores da guerra na China nos tempos dos Estados Combatentes.

Parecia não haver entre eles um planejamento geral de ações. Cada valente tratava de colher seus louros individualmente, sem levar em conta o andar geral da contenda. A maior exigência que eles faziam, pelos menos os varões da nobreza, era saber contra quem eles traçavam os gládios. Diomedes, numa conhecida passagem da Ilíada (Canto VI), exige do rival, aparecido na sua frente em meio à liça, que se identifique. Quem era ele? Um tal de Glauco então, antes de ser vitimado, o tranqüiliza. Era de sangue puro, um filho do nobre Hipoloco, gente da mais notável estirpe, sobrinho mesmo de Zeus, um macho digno de enfrentar e ser morto pelo bravo Diomedes.

Repugnava a um herói daqueles tempos aristocráticos a idéia de ter que enfiar a afiada lâmina nas carnes poluídas de um plebeu, alguém sem eira nem beira. Para evitar tais dissabores, de sujar o bom ferro em “sangue ruim”, é que os cavaleiros medievais desenhavam os seus brasões nos escudos, atraindo para o combate franco outros cavaleiros da mesma distinção social, mostrando a todos que eles eram da melhor linhagem existente.

O hoplita

Aquiles, herói exemplar de Homero
Somente com o surgimento da Polis, uma organização social e política mais complexa, entre os séculos VIII e VI a. C., é que, no Ocidente, ocorreu uma alteração substancial na maneira de fazer-se a guerra. Com ela, razoavelmente bem povoadas, surgiram os batalhões de hoplitas, os cidadãos-soldados que fortemente armados com escudo, espada e lança, arregimentados em corpos de 5 mil polemicós (guerreiros), combatiam em formação bem ordenada. A vitória, na cidade democrática, ao contrário da antiga formação aristocrática, passou a ser um feito coletivo, não obra de um ou outro valente de linhagem pura. O que em nenhum momento provocou o desprestigio dos heróis lendários, como Aquiles ou Ajax, que continuaram a inspirar a todos, e que também não impedia que generais desastrados, como Aristides, ou mesmo Tucídides, autor da notável obra A História da Guerra do Peloponeso (431-403 a.C.), terem que assumir publicamente a responsabilidade pelos erros cometidos. Quer dizer, na democracia a vitória era de todos, a derrota era responsabilidade individual.

Se bem que pode-se dizer que a guerra moldou todos os estado, sendo sua parteira e tutora, a primeira cidade na Antigüidade que orientou-se exclusivamente para fazer a guerra foi Esparta, situada no vale do rio Eurotas, no Peloponeso. Cercada por inimigos que lhe devotavam ódio de morte, não teve outra saída senão prepara-se inteiramente para as lides militares (todos os anos ela declarava guerra aos seus escravos, os hilotas). As Leis de Licurgo, aplicadas a partir do século IX a.C., fizeram de cada cidadão espartano num soldado em caráter permanente, um morador de um acampamento em armas. Toda a vida civil, casamento, divórcio, número de filhos, educação, instrução e lazer, música e poesia, tudo mesmo foi adaptado para obedecer as regras que regem um quartel de certas dimensões.

Os espartanos implantaram o mais longo serviço militar da história: apresentando-se aos 18 anos de idade, o cidadão só era liberado aos 60 anos! Na verdade, como observou Arnold Toynbee, os espartanos tornaram-se escravos do seu próprio estado. O que não os impediu, apesar da notória bravura, de serem derrotados na batalha de Leuctras, em 371 a.C., pelos tebanos do Batalhão Sagrado de Pelópidas, formado inteiramente por casais de homossexuais. Bem mais tarde, quando os romanos conquistaram a Lacedemônia, no século II a.C., os jovens espartanos eram ainda publicamente chicoteados nos ginásios, somente que, daquela feita, num espetáculo montado para atrair turistas vindos de vários lugares do império, impressionados com bestialidade daquilo.

página anterior      próxima página
Veja todos os artigos | Voltar