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A Mazorca, o terror no pampa

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Na década de 1830 surgiu na República Argentina, dilacerada por uma intermitente guerra civil entre unitários e federais, uma associação criminosa amparada pelo governo do tirano Juan Manuel Rosas. O objetivo dela era paralisar os opositores pelo medo, pelo terror. A Mazorca, como era chamada, deixou um rastro de sangue e pavor atrás de si que, até bem pouco tempo, ainda ouriçava e fazia tremer quem lhe ouvisse o nome.

O susto da venerável anciã

Juan Manuel Rosas, o tirano do pampa (1835-1852)

“Que vida tan desgraciada/Vida tan sin esperanza!
Com tantas revoluciones/ Solo el que muere descansa.”

Cancioneiro anônimo na epoca de Rosas (1835-52)


A venerável anciã aproximava-se dos cem anos. Dona Maria Justina Rubio de Jaureguí, decidiu o governo argentino, seria homenageada com todas as pompas devidas. Inquilina de um modesto prédio do bairro de Palermo, em Buenos Aires, ela era, no ano de 1941, a última das familiares que descendiam de um dos próceres menores da independência nacional: la señora mayor como a chamavam. A velhinha, entretanto, não resistiu aos festejos. Dias depois, conta-nos J.L.Borges, ela faleceu. Provavelmente excitada pelo exagerado foguetório da vizinhança seguida dos intermináveis hurras! ou, como ele suspeitou, devido a algazarra que fizeram na rua onde ela morava. Fato que pode tê-la vagamente lembrado da famigerada Mazorca, o clube de assassinos a serviço da ditadura de Juan Manoel Rosas. Mesmo ela tendo nascido no exílio uruguaio em 1841, ela passara a infância aterrorizada com o que lhe contavam daqueles malfeitores.

A função da Mazorca

Criada em 1833, por instância de Maria Encarnación Ezcurra de Rosas, a esposa do tirano (uma precursora de Evita Perón), com o pomposo nome de Sociedade Popular Restauradora, levava como emblema a mazorca (uma espiga de milho, símbolo da união). Os seus militantes eram recrutados entre a borra social argentina. Receberam do regime carta branca para liquidar com quem bem entendessem. Fossem eles os do partido unitário, tidos como inimigos ( “os selvagens unitários”), ou os dissidentes da própria agremiação de Rosas, a federal. Esses, caçados por se mostrarem recalcitrantes na adesão à Majestade da Terra, um dos tantos títulos que o ditador apreciava usar. (desconsiderava ele assim, publicamente, o famoso decreto que Mariano Moreno, um dos ativistas da independência nacional, fizera a Junta Governativa aprovar em 1810: o decreto de los honores, que condenava, dentro do mais puro espirito da moral republicana, qualquer honraria prestada ao presidente, fosse ele quem fosse).

Os mazorqueiros atuavam em bandos. À frente deles, formando o Esquadrão de Vigilantes, vinham os sujeitos que tinham a cintura cingida pelo cinturão vermelho-forte da organização. Seguiam-nos, ruidosos, os arrabaleros, a plebe portenha, armada de facões, de lanças e de paus. Nada aprazia mais aquela malta do que humilhar suas vítimas, em geral os melhor aquinhoados. Os infelizes que tivessem seus nomes entre los clasificados, um tipo de carnet noir da policia politica da ditadura (organizado pelo secretário de Rosas, Mariano Maza, e pelo chefe de polícia Ciríaco Cuitiño), podiam encomendar-se aos céus.

Durante as ditas “visitas”, seus lares eram invadidos com alarde. As mulheres e filhas do indigitado, tendo suas vestes rasgadas, eram submetidas à vexames mil, enquanto a louçaria e os cristais da casa eram quebrados ou roubados e a papelada e os livros revirados em busca de “ provas”. A seguir, colocados num monte, eram incendiados no pátio da residência. Ao dono da casa era reservado um fim bem pior. Atendendo ao código de Maza de que “Haverá violino, haverá violão”, eufemismo usado para autorizar a matar, o pobre era arrastado pelos cabelos e tinha o pescoço cortado em frente à família. A turba então, tendo vandalizado tudo o que encontrara pela frente, dando o dever por cumprido, ecoava: “Viva os federais! Que morram os índios unitários!”

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