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A Mazorca: como heroína
Os tidos por rivais de menor importância, diga-se os de mais sorte, eram levados a ferros para as prisões em Baia Blanca ou em Carmen de Patagones, as sibérias argentinas. Desgraça outra era ser seqüestrado ou entrar para o rol dos desaparecidos. Como Julián Salomón - o capataz da Mazorca, o Béria de Rosas -, gostava de dizer ao Jefe Supremo, nenhuma casa de Buenos Aires ficava de fora da vigilância patriótica dele. Entrementes, até a sua morte em 1838, Encarnación Ezcurra, “La Heroína”, além de ser a central de informações do regime, não descurava em atender os seus descamisados, providenciando-lhes ranchos, roupas, remédios ou cuidados hospitalares. A turba e seus desmandos era a navalha aberta usada pela ditadura para intimidar a oposição, paralisando-a pelo terror. Qualquer oposição que fosse. Não sem motivo os adversários refugiados em Montevidéu apelidaram Rosas como o “Calígula do Prata” e diziam que, na verdade, mazorca queria dizer “mas + horca”, mais forca ainda. Acertando uma aliança entre a ralé e a tirania, a bodega e o patíbulo, eram os arruaceiros quem, alcoolizados, logo após a noticia do assassinato de Facundo Quiroga ( um caudilho lugar-tenente de Rosas, morto em 1835), estavam na vanguarda dos que exigiram que ele assumisse como autocrata as faculdades extraordinárias. Fosse ele, bradavam, o Restaurador das Leis. A morada de Rosas de pronto tornou-se lugar de romarias, a casa do “Santo dos Santos”, local onde, carregados pelo juiz de paz, até os nubentes desfilavam atrás de uma benção ou de um olhar complacente do Ilustre Restaurador, cujo retrato, aquelas alturas, tornara-se objeto de devoções em qualquer dos lares portenhos.Não demorou para que na cidade inteira todos dessem para andar com alguma coisa vermelha ( cor favorita de Rosas e dos federais). Chapéus, bonés, casacos, camisas, braçadeiras, bandeiras, tudo era em vermelho.
Em 1845, faltando ainda muito tempo para o término da tirania de Rosas, Domingo Faustino Sarmiento, grande escritor e intelectual argentino, então exilado em Santiago do Chile, deu início ao seu celebrado ensaio intitulado Facundo, civilização ou barbárie, onde, numa passagem famosa, expôs a função que o terror passou a exercer na vida política argentina: “Eis aqui todo um sistema: o terror sobre o cidadão, para que abandone sua fortuna; o terror sobre o gaúcho, para que com seu braço sustente uma causa que já não é sua; o terror supre a falta de atividade e trabalho para administrar; supre o entusiasmo, supre a estratégia; supre tudo. E não há o que espantar: o terror é um meio de governo que produz maiores resultados que o patriotismo e a espontaneidade....É verdade que degrada os homens, empobrece-os, arranca dos Estados o que poderiam dar em dez anos, mas o que importa tudo isso ...ao chefe dos bandidos, ou ao Caudilho argentino?”(Facundo –P. Alegre, 1996, pag.176)
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Cabeza (tela de R.Carpani, 1976)
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Então, quando o terror de Rosas alcançou o seu apogeu, entre os anos de 1840-42, tornando Buenos Aires um matadouro, a cidade foi tomada por visões paranóicas. O povo, com evidentes sintomas de patologia cerebral, típica reação psicológica de uma época de pavor coletivo, deu para ver cabeças degoladas em qualquer parte. A lenda sanguinária fazia com que as vissem espetadas nos ferros da Pirâmides de Maio ou, ainda, diziam, oferecidas nas feiras livres pelos quitandeiros como “ bons pêssegos”. Os habitantes da capital, os que não ficavam insones, eram assaltados no leito por pesadelos, assombrados pela imagem fantasmagórica dos crânios decepados de amigos ou parentes, acordando no meio da noite aos gritos, loucos de medo, horrorizados. E não era para menos. Na contabilidade dos mortos da ditadura de Rosas, nas Tábuas de Sangue organizadas por José Rivera Idarte, registrou-se a ocorrência de 3.715 degolados (os ditos “ batismos federales”); 772 assassinados; 1.393 fuzilados. Havendo ainda 16 mil outros mortos em escaramuças várias, ou perseguidos pelo regime daquele que também gabava-se ser o Grão-Marechal da América de Buenos Aires: o ditador Juan Manoel Rosas. No transcorrer da tirania (que Rosas alegou ser o único remédio contra índios selvagens ao Sul, caudilhos rebeldes no Oeste, marinheiros franceses ao Norte, na baía do Prata, e os solertes inimigos unitários dentro de Buenos Aires), entre 1835 até o fim dela, ocorrido depois da batalha de Caseros, em 1852, mais de 22 mil pessoas haviam morrido na Confederação Argentina por razões políticas, um tanto quanto 1.300 indivíduos por ano! Nada de estranhar-se que a veneranda la señora mayor da história de J.L.Borges, mesmo transcorrido um século dos tenebrosos feitos daquela associação criminosa que difundiu o terror pelo Pampa, pudesse ter sido assustada em seus últimos momentos pelos espectros das cabeças cortadas dos supliciados da Mazorca.
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